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Ganhou o Rodoanel, perdeu na Bolsa: por que a investida da Ecorodovias não agradou o mercado?

Prêmio muito alto, preocupação com endividamento e possíveis oportunidades perdidas são os pontos que não agradaram os investidores 

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(Divulgação Ecorodovias)

SÃO PAULO - Considerado a maior obra viária do Brasil, o trecho norte do Rodoanel foi arrematado na última quarta-feira (10) pela Ecorodovias (ECOR3), mas esse feito definitivamente não agradou o mercado. Assim que foi anunciada vencedora, o papel iniciou uma derrocada e encerrou o dia em queda de 3,95%, com volume 2,6 vezes maior do que a média recente, levantando uma questão: por que a compra foi muito mal recebida?

A insatisfação começa pelos R$ 883 milhões pagos pela concessão do trecho, o que resultou em um prêmio de 91% do mínimo estipulado pelo governo de São Paulo. É comum pagar ágio nesses leilões de rodovias, mas o que mais assustou foi que a única concorrente no certame, a italiana Atlantia, ofereceu R$ 462,3 milhões pela outorga, deixando muitas dúvidas se a Ecorodovias fez um bom negócio.

Para justificar um preço tão alto, a empresa afirmou que a compra teve como base três pilares: i) melhores expectativas de tráfego; ii) sinergias operacionais e de custo com o trecho Ayrton Senna-Carvalho Pinto (Ecopista); iii) possibilidade de alavancar o projeto e aumentar a TIR (Taxa Interna de Retorno) de 9,85%. Contudo, o mercado colocou em xeque todos esses potenciais benefícios e no final das contas o que mais foi levado em conta foram as preocupações com o futuro do endividamento da empresa, como as oportunidades que ela poderá "deixar na mesa".

Além dos R$ 883 milhões que serão desembolsados, estima-se que a empresa irá desembolsar R$ 2,2 bilhões ao longo de 30 anos da concessão em melhorias para os 45 quilômetros do trecho que interliga as rodovias Bandeirantes, Fernão Dias e Dutra. Para financiar tudo isso, a empresa deverá recorrer tanto ao mercado local quanto externo, estima a XP Investimento, já que não poderá contar com o crédito subsidiado do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), como lembrou o próprio presidente da companhia, Marcelino Seras, após o leilão.

Colocando tudo isso na conta, a relação Dívida Líquida/Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) saltará de 2,5x para 3x em 2018, projetam os analistas do BofA (Bank of America Merrill Lynch), nível que a própria empresa considerava desconfortável tempos atrás, lembra o Bradesco BBI. Muito mais do que isso, a Ecorodovias já gastou todos seus cartuchos e deverá ficar longe dos leilões até reforçar seu caixa, podendo perder boas oportunidades (TIR maior) em tempos de privatização. Por exemplo, a empresa não poderá participar na sexta-feira (19) que vem do leilão da linha 5 do metrô de São Paulo, deixando o caminho livra para sua concorrente CCR (CCRO3) arrematar o trecho, que tem TIR esperada entre 10 - 11%, aponta o Bradesco.

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