Por Paula Barra Em mercados / acoes-e-indices  20 mar, 2017 16h25

"As ações que possuo têm caráter de 'cativeiro'; não são papéis de 'jogatina'", diz Barsi

Na mais recente carta da Suno Research, o megainvestidor conta que adota a postura de parceiro, "como se fosse um pequeno dono da empresa", e por isso não fica atrás do sobe e desce do mercado

Por Paula Barra Em mercados / acoes-e-indices  20 mar, 2017 16h25

SÃO PAULO - Na carta desta segunda-feira (20) da consultoria Suno Research, o megainvestidor Luiz Barsi explica por que não vende ações que já se valorizaram muito e ficaram caras na Bolsa: "as ações que eu possuo (...) têm um caráter de 'cativeiro', não são 'papéis de jogatina'", comenta.

Ele conta que adota a postura de parceiro, "como se fosse um pequeno dono da empresa", e por isso não fica atrás do sobe e desce do mercado: "Você já imaginou se a cada movimento de ações no mercado o dono da empresa se dispusesse a vender todas as ações dele e depois quando caísse ele comprasse de volta? ", comenta o megainvestidor em relatório desta semana, que faz parte da série de "perguntas e respostas" entre Barsi e os assinantes da Suno Research

Para ele, as empresas devem ser avaliadas como se você fossem um parceiro, como se ela fosse sua, e nos maus momentos você a ajuda ao máximo, ao invés de se livrar dela, caso a perspectiva do projeto ainda seja positiva.

Confira abaixo a íntegra da carta desta semana:

Diego Medeiros: O Senhor sempre frequentou as assembleias das companhias? O Sr. considera relevante para o pequeno investidor frequentar as assembleias?

Luiz Barsi: Eu sempre frequentei durante bastante tempo não só as assembleias, mas como também as apresentações que as empresas disponibilizam. 

Essas apresentações geram um grau de informação, de conhecimento, bastante expressivo.

Na realidade a empresa acaba projetando todas suas ambições e aspirações de crescimento, e isso acaba produzindo em você um conhecimento a mais, que alicerça o fundamento para você tomar uma decisão de comprar ou não uma ação.

Eu fui muito em assembleias, mas das empresas que eu possuía ações. E debatemos muito, agora, o que eu acho importante não é só ir na assembleia, eu acho importante o cidadão aprimorar a sua cultura, a sua informação, da empresa que ele tem, e se ele tiver oportunidade de ir visitar in loco a empresa, esse sim é um procedimento que me parece o mais adequado.

 A maioria das empresas tem interesse em fazer o acionista ir visitar a empresa.

 O problema é que não há disposição do acionista em ir visitar. Há várias empresas que possuem um programa, como a Eternit que tem um programa que se chama “Portas Abertas” e a na Unipar Carbocloro você telefona para a empresa e eles terão o máximo prazer em mostrar a você, a fábrica e como funciona o processo de produção.

Eu mesmo recentemente fui visitar o projeto Puma, da Klabin, que é uma maravilha, é um negócio que todo brasileiro deveria pelo menos, mesmo pela internet, conhecer. 

Mas infelizmente não conhecem, existem múltiplas formas de você ter acesso à isso.

E a internet hoje facilita muito, pois mesmo sem tempo de ir visitar o projeto, você pode tomar conhecimento desse projeto, quanto ele custou, o que ele representa, o que gera de expectativas, de expectativa de resultados, etc.

Então, é importante não só ir na assembleia, mas também conhecer os projetos que você está investindo pela compra das ações. Isso é muito importante.

Rodrigo Anaice: Você acha válido utilizar os métodos de escolha de ações de Décio Bazin, de dividendos de ano após ano, nos dias atuais?

 Luiz Barsi: Bom, na realidade o Décio era amigo da gente, a gente conversava sempre, e o dividendo exerce uma condição extraordinária na vida do indivíduo. 

 O dividendo, na realidade, é um portfólio que supre você e te proporciona uma renda mensal, mesmo que você não receba mensalmente. Mas te proporciona uma renda que você pode viver dela.

 Eu tenho essa experiência, vivo muito bem dela, tem muitos aqui que são amigos da gente, que começaram a fazer esse processo de portfólio previdenciário e hoje vivem muito bem.

 Agora, tem que assimilar todos os fatores. Para você constituir isso aí, precisa de muita boa vontade. 

 Se você não tem a cultura suficiente, a possibilidade de analisar as ações, procure um bom profissional. Ele com certeza irá lhe orientar para que você possa comprar as melhores ações e introduzi-las no seu portfólio.

Ronaldo Cubas: Você vende as ações das empresas que tem muito dinheiro aplicado quando as mesmas deixam de ser interessantes, para aplicar em empresas num momento melhor?

 Luiz Barsi Filho: Não. Essa é uma das razões pela qual na primeira pergunta (enviada na carta da semana passada) eu disse que me arrependi. 

Por que? Porque eu assimilei a postura do parceiro, a postura do parceiro é como se ele fosse um pequeno dono da empresa.

Você já imaginou se a cada movimento de ações no mercado o dono da empresa se dispusesse a vender todas as ações dele e depois quando caísse ele comprasse de volta? 

Ele perderia o controle, perderia a razão de ser, de brigar por uma estrutura, de brigar pelo desenvolvimento da empresa em si.

Então as empresas devem ser avaliadas, na minha opinião, como se você fosse um parceiro, como se ela fosse sua, e nos maus momentos você ajudar o máximo que puder a empresa. E não se livrar delas se ela realmente num mau momento tiver perspectiva de voltar a se constituir num bom projeto.

Tiago Reis: Mas quando as ações se valorizam muito e ficam muito caras, mesmo assim você não vende sob nenhuma circunstância?

Luiz Barsi: Não, eu não vendo. Há tempos atrás eu já cheguei a vender algumas para mudar de posição, mas hoje eu já não faço mais isso. Pois as ações que eu possuo não são ações que vão subir muito, elas têm um caráter de "cativeiro", não são "papéis de jogatina”. São papéis de investimento e estes papéis não têm essa característica de subir muito ou cair muito.

Porque a quem “regula" os papéis, não tem esses papéis. São as tesourarias de bancos, os fundos, são eles que determinam esses movimentos. A pessoa física, geralmente, é uma parceira quando se dispõe a ser uma parceira mesmo.

Leonardo Cunha: Você costuma sugerir para quem está começando escolher apenas uma ação. A partir de que momento vale a pena começar a diversificar?

Luiz Barsi: Não, não é que eu sugira escolher apenas uma ação, eu sugiro escolher a melhor ação, daquele momento, daquele movimento.

Evidentemente como o mercado sofre alterações, então aquela ação pode sofrer alguma valorização, que não permita que ela tenha a mesma atratividade de outra. Então, o portfólio vai se formando assim, na razão direta do papel que está produzindo no momento o melhor retorno em dividendo e também aquele que concentre uma boa expectativa de alguma valorização, não de uma explosão, mas alguma valorização, que acompanhe o mercado.

Por exemplo, quando você projeta um aumento no Yield você tem dois fatores aí, o primeiro é a expectativa da empresa produzir um resultado melhor, e o segundo é a possibilidade da empresa ter uma cotação melhor, na razão que esses dois fatores ocorrem simultaneamente, a oportunidade aparece. Então é preciso ficar atento à essas oportunidades.

Então, eu diria o seguinte: é melhor comprar sempre o papel mais atrativo, nem sempre o papel mais atrativo é o mesmo papel que você comprou a primeira vez, então é aí que você vai constituindo a sua carteira. 

Revista InfoMoney Ed. 43 | Luiz Barsi

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