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A PF exagerou ou a carne é fraca mesmo? Analistas refazem contas para JBS e BRF após "6ª sangrenta"

Operação da PF deflagrada na última sexta-feira foi alvo de críticas por parte de analistas de mercado, ministro e representantes do setor, sendo até chamada de "irresponsável" - mas impactos não podem ser ignorados 

SÃO PAULO - O tom da reunião de emergência de Michel Temer com ministros e 40 representantes de países importadores de carne brasileira foi claro, no sentido de minimizar os efeitos da Operação "Carne Fraca", deflagrada na última sexta-feira e que implicou grandes e pequenos frigoríficos brasileiros. Contudo, os impactos da Operação foram grandes para o mercado, o que levou a uma derrocada das ações da BRF (BRFS3) e da JBS (JBSS3) na última sexta-feira, trouxe diversos comunicados nesta segunda de importantes mercados no sentido de barrar as exportações de carnes nacionais e, com isso, suscitou críticas sobre uma possível "falta de tato" sobre a Operação deflagrada no dia 17. 

Aliás, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, foi um dos críticos contundentes da narrativa da Operação da Polícia Federal, Maggi reclamou que o Ministério da Agricultura não foi consultado e disse que poderia ter esclarecido pontos que foram considerados irregulares pela PF, mas que são práticas do setor. "Em função da narrativa é que se criou grande parte dos problemas que temos hoje", afirmou. Após a entrevista coletiva, Maggi disse que não ficaria "batendo boca" com a PF via imprensa. Ele citou um áudio sobre papelão e disse que ficou claro que se tratava de embalagem, e não que o material seria misturado à carne, como indicou a polícia. "É uma idiotice. As empresas gastaram milhões de dólares para conquistar mercados, e vão misturar papelão?", questionou.

Maggi também citou outro áudio que mostra um dono de frigorífico adquirindo carne de cabeça de porco para usar em linguiça. "Carne de cabeça de porco pode ser utilizada em determinados porcentuais, em determinados produtos. Está no regulamento", completou. Maggi disse que o governo respeita as investigações, mas que questionou a PF porquê de o Ministério da Agricultura não estar presente nas investigações. "Por que não estávamos presentes para dizer que cabeça de porco pode ser utilizada ou que ácido ascórbico é vitamina C?", afirmou. De acordo com o ministro, a PF explicou que a Agricultura era parte da investigação, por isso não foi consultada, mas que a investigação agora terá o apoio técnico da pasta.

Outro a criticar a operação foi o  pecuarista e vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira, Pedro de Camargo Neto. Em entrevista ao Estadão, ele afirmou que a PF  foi irresponsável ao anunciar a operação Carne Fraca como a maior da sua história. Segundo ele, o tamanho do problema é menor em relação ao estardalhaço que foi feito. "A PF foi irresponsável. Acho que existe pontualmente algo muito real e que tem de ser penalizado, mas é menor do que foi apresentado. Por ser menor, me preocupa o estrago que possa provocar", afirmou Camargo Neto. Neste mesmo tom, o presidente Michel Temer destacou que a planta frigorífica no País não pode ser prejudicada por episódio pontual e que dos 853 mil embarques de carnes para o exterior ao longo dos últimos seis meses, apenas 184 foram consideradas pelos importadores fora da conformidade, muitas vezes por causa de temas não sanitários, como rotulagem e preenchimento de certificados.

Além disso, matéria da Folha de S. Paulo desta segunda-feira destaca ainda que, em dois anos de apuração para a Operação Carne Fraca, a Polícia Federal fez perícia em alimentos produzidos por frigoríficos em apenas um caso. A análise foi feita em produtos da Peccin Agro Industrial, empresa curitibana responsável por alimentos da marca Italli. 

Conforme destaca o jornal, nem todas as 32 empresas alvo da Carne Fraca são suspeitas de vender alimentos impróprios para o consumo. A JBS está implicada diante da atuação de funcionários da Seara e da Big Frango: o funcionário da Seara Flavio Cassou dava dinheiro e alimentos a servidores em troca da emissão de certificados, sem a devida fiscalização, para a venda e exportação de produtos, de acordo com as apurações. Já a situação da BRF, segunda maior companhia do setor, é mais delicada. Funcionários são acusados de oferecer vantagens a servidores para afrouxar a fiscalização e de, por meio de suborno, evitar a suspensão de fábrica em Mineiros (GO), onde havia incidência de salmonella. Na BRF, também há evidências que produtos eram vendidos fora do padrão exigido, como frangos com absorção de água superior ao permitido.

Em meio a tantas notícias até desencontradas sobre a Operação (como o desentendimento sobre papelão no frango), as duas companhias fizeram uma intensa campanha de esclarecimento em jornais e na internet para esclarecer o que é e o que não é alvo de investigação sobre as companhias.

A BRF afirmou que a sua unidade de produção de carne de frango e peru na cidade goiana de Mineiros, fechada pelo Ministério da Agricultura após a operação Carne Fraca da Polícia Federal, responde por menos de 5% da produção da companhia e negou a utilização de papelão em seus produtos. Em longo comunicado à imprensa, a companhia disse ainda que a fábrica interditada possui três certificações internacionais e "está habilitada para exportar para os mais exigentes mercados do mundo, como Canadá, União Europeia, Rússia e Japão". A companhia garantiu ainda que "nunca comercializou carne podre e nem nunca foi acusada disso" e afirmou lamentar que "parte da imprensa tenha inserido o seu nome de maneira equivocada em reportagens que tratam desse assunto". 

Já a JBS confirmou na sexta-feira que a operação deflagrada pela Polícia Federal incluiu três unidades produtivas da companhia, mas afirmou que adota no Brasil e no mundo rigorosos padrões de qualidade. A  empresa afirmou também que "no despacho da Justiça, não há menção a irregularidades sanitárias da JBS". "A JBS e suas subsidiárias atuam em absoluto cumprimento de todas as normas regulatórias em relação à produção e à comercialização de alimentos no país e no exterior e apoia as ações que visam punir o descumprimento de tais normas", disse a gigante de alimentos no primeiro comunicado.

Exagero e estragos no mercado
As revelações iniciais foram muito preocupantes sobre as condições sanitárias dos setores frigoríficos, ao mesmo tempo que as grandes empresas tentaram minimizar o problema, aponta a Rosenberg Consultores Associados. "Entre a falta de tato da PF na divulgação de informações e a reação de negação completa por parte das empresas (faltando um necessário dimensionamento do problema, colocando-o como muito pequeno, porém mostrando um sério comprometimento com as investigações, buscando corrigir imediatamente quaisquer falhas no processo), saiu alvejada a reputação do país no mercado internacional", destaca a consultoria.

O risco maior, ressalta, é que isso afete as exportações de carne brasileira. Os primeiros efeitos dessa indicação já foram sentidos logo nesta segunda-feira. A Coreia do Sul anunciou que vai banir temporariamente as vendas de produtos da BRF e intensificar a fiscalização de carne de frango importada do Brasil; ela ainda informou que suspendeu a distribuição do frango já importado no Brasil, mas que não tem planos de banir o frango nacional. Já a Comissão Europeia afirmou que pediu a seus países-membros que aumentem os controles sobre a carne vinda do Brasil e que vai se manter extra vigilante em relação aos processos de checagem dos produtos animais do País. A China, por sua vez, recomendou aos importadores que mantivessem qualquer produto que não tivesse sido inspecionado em depósitos até segunda ordem; o ministério da Agricultura confirmou que o País suspendeu a entrada de carne brasileira no país até o Brasil prestar esclarecimentos sobre suposto esquema de fraude. 

Em meio aos temores sobre os efeitos nas exportações (mesmo antes desses anúncios), os analistas já estão fazendo as contas sobre o impacto no mercado. Em uma análise preliminar, o Bradesco BBI apontou esperar uma queda de 15% do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) da BRF no final de 2017, mas ainda procura mais detalhes para ter mais precisão sobre o impacto. “Não vemos isso como um impairment permanente, com impacto limitado a partir de 2018. Ainda é cedo para estimar o impacto, mas poderíamos ver as regiões importadoras (por exemplo, UE) aumentando restrições sobre as carnes do Brasil por 3 a 6 meses. Esperamos que a restrição seja limitada à liquidação de estoque de negociadores e outros fornecedores locais, que normalmente leva de 3 a 6 meses”, destacam os analistas Gabriel Lima, João Pedro Soares e Rachel Fleury. Eles apontam que a carne exportada para a UE pode ser redirecionada para outras regiões menos rentáveis? do mundo, impactando margens e no Ebitda a um nível mais profundo do que os volumes. 

Os analistas veem o setor de aves como o mais afetado pela operação deflagrada na útima sexta-feira, “mas apontam que esta é a maior investigação da Polícia Federal até agora, afetando toda a indústria frigorífica”. O maior risco, segundo o Bradesco BBI, seria uma proibição ampla e duradoura à carne brasileira, o que levaria a um excesso de oferta doméstica de aves e atraso na reversão do ciclo”. "No entanto, a boa notícia é que dados recentemente divulgados apontam para uma oferta de frango muito menor no Brasil, uma vez que a colocação caiu cerca de 9% em fevereiro”. 

Já sobre o impacto da suspensão temporária das exportações para a China, o Credit Suisse destaca que ainda não está claro se a suspensão também inclui Hong Kong: a China representa 15% do volume total de carne exportada do Brasil e, considerando Hong Kong, os dois representam 33%. Outros países ou blocos (União Europeia, Estados Unidos, Arábia Saudita e Malásia) também pediram maiores esclarecimentos ao Ministério da Agricultura.  Esses 4 blocos/países e a China representaram juntos 41% da exportação total de carne do Brasil e 40% do frango em 2016 e podem impactar negativamente o mercado doméstico, influenciando até mesmo ações de empresas que não foram alvo da operação. 

"Essa notícia deve continuar pressionando as ações do setor, já que o trabalho feito nos últimos 4 a 5 anos pelo Governo brasileiro em abrir novos mercados internacionais pode estar em risco", apontam os analistas do banco suíço. Falando das ações especificamente, a Minerva (BEEF3) seria a mais impactada, já que 65% da sua receita vem de exportação. A Marfrig (MRFG3) viria em seguida e a JBS deve também ser impactada negativamente, uma vez que mais de 70% do seu Ebitda vem do mercado internacional.  

Os analistas do Bank of America Merrill Lynch também alertam para o impacto sobre as exportações de carne bovina. Eles lembram que em 2005, a febre aftosa fez com que 47 países proibissem a carne bovina brasileira. As restrições se estenderam por anos, com a Rússia só abrindo completamente o mercado para a carne em 2007. Em 2012, nove países correspondentes a 8% das exportações do Brasil baniram o País após um caso isolado de vaca louca. 

Porém, além do exterior, o Bank of America Merrill Lynch também avalia que as vendas domésticas podem ser afetadas com os consumidores preocupados sobre a qualidade dos produtos. Além disso, as despesas com marketing tanto da JBS quanto da BRF podem subir no curto prazo, com campanhas para reforçar a qualidade e os padrões sanitários das empresas, de forma a proteger o valor das marcos. Contudo, no curto prazo, o efeito será de pressão sobre as margens. Mesmo em meio a esse ambiente, os analistas do BofA mantém as recomendações para os papéis do setor de frigoríficos: de compra para BRF e Minerva, neutra para JBS e underperform (desempenho abaixo da média do mercado) para a Marfrig. 

Assim, em meio a tantas informações desencontradas e com os impactos ainda sendo contabilizados, o mercado tenta precificar qual será o impacto real no setor. Assim, enquanto alguns analistas destacam o cenário de cautela, outros ainda veem espaço para um menor pessimismo.  "As empresas deram várias explicações desde fim de semana e o presidente (Michel Temer) reuniu embaixadores para tentar amenizar o efeito, então parece que o caso teria um impacto menor do que o previamente imaginado", disse o operador da BGC Liquidez Alexandre Soares, em entrevista à Reuters.

Com isso, as ações do setor registram uma sessão um pouco mais tranquila, na medida do possível, nesta segunda-feira. Após chegarem a cair 10% na abertura do pregão e subirem 2,52% na máxima do dia, os papéis da JBS oscilam entre queda de 1% e 2%. As ações da BRF, por sua vez, registram queda mais expressiva, de 3,5%, após caírem 11,81% na mínima do dia. Por outro lado, os papéis da Marfrig caem cerca de 4% enquanto os papéis da Minerva caem mais ainda, cerca de 7%; mesmo sem serem citadas, elas ficam de olho no "efeito cascata" da Operação. Desta forma, o mercado seguirá de olho em como as empresas e o governo agirão para reduzir os danos no setor causados na última quarta-feira - e como os principais mercados internacionais deverão agir frente a isso. 

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