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Estou ligeiramente vendido em Bovespa, diz um dos melhores gestores do Brasil

Cético com o preço das ações, Márcio Appel, reconhecido pela sua experiência e os resultados obtidos à frente dos melhores fundos da indústria, diz que se a Bolsa subir, vai vender mais

SÃO PAULO - Se você achava que o mercado estava só esperando a conclusão do impeachment para alocar todo o capital em ações, é melhor você tomar cuidado com a euforia. Quem dá a dica é ninguém menos que Márcio Appel, considerado um dos melhores gestores de fundos do Brasil, que recentemente deixou a gestora Safra para fundar juntamente com André Salgado a Adam Capital. Em entrevista exclusiva ao InfoMoney, Appel explicou que não é por ceticismo com o Brasil que ele não está entusiasmado com a bolsa brasileira, mas sim por acreditar que os preços atuais não compensam o risco. Por isso que recentemente ele decidiu mudar sua exposição à Bovespa de neutra para ligeiramente vendida, disse durante a entrevista. 

"A Bolsa pode até pode subir no curto prazo por fluxo com a confirmação do impeachment, mas no longo prazo ainda vai perder para o CDI", disse Appel, que fundou neste ano dois fundos, o Adam Macro, com menor volatilidade, e o Adam Advanced, mais arriscado (esse segundo está atualmente fechado para captação). Como os fundos ainda não têm seis meses de existência, a gestora não é obrigada a apresentar um balanço mensal de performance, mas pelo site da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), é possível consultar os resultados calculando a valorização das cotas do fundo. De 29 de abril (data que começou a funcionar) até 1° de setembro, o Adam Macro rendeu 7,80% (ou 165,96% do CDI no período), enquanto o Adam Advanced garantiu retorno de 12,29% (ou 261,49% do CDI).

Appel explica que não se preocupa com reações imediatas de euforia do pós-impeachment justamente pelo prazo que monta suas operações. "Nunca olhamos para dia, semana ou mês, nosso horizonte é um ano. Por isso essa exposição vendida é uma posição que temos com o objetivo de carregar por um período prolongado. Então, vou aproveitar o forte movimento de curto prazo para aumentar a posição vendida, que acho que será positiva no longo prazo", disse o gestor.

Confira abaixo os principais pontos da entrevista:

BOLSA: Não somos especialmente otimistas com a Bolsa brasileira. Ela costuma ser cara ao longo dos anos. É um dos poucos investimentos que perde para o CDI. Isso vem principalmente porque existe um dinheiro destinado à Bolsa brasileira maior do que ativos disponíveis, o que faz com que o preço nunca corrija para um valor correto. E o mesmo vale para o preço que vemos agora.

Vimos uma alta expressiva ao longo desse ano muito por conta do fluxo do que por fundamento, que em vários setores segue duvidoso. Principalmente em lugares onde o múltiplo é elevado, como o varejo. Acho que essa tendência vai se manter no longo prazo e não será capaz de ganhar do CDI, partindo do patamar atual.

Tínhamos uma posição neutra e nas últimas semanas mudamos para uma posição ligeiramente vendida em Bolsa. Acho que até pode subir mais por fluxo, mas no longo prazo perde para o CDI. E, se a bolsa continuar performando bem, lembrando que uma euforia a partir desses preços seria exagerada, a ideia é ir aumentando a posição vendida.

PESSIMISTA COM BRASIL? Não estamos pessimistas com Brasil. O principal motivo da nossa posição na Bovespa não é por acreditar ou não no País, mas porque achamos o preço elevado. As ações estão com um preço muito fora do que seria o correto para um País que tem uma taxa de juros de longo prazo, que apesar de acharmos que ainda cai, é muito diferente da taxa de juros da americana ou europeia. Então, os múltiplos aqui, por mais crescimento na economia que você coloque, ainda deveriam ser bastantes descontados, e não estão nesses patamares.

PÓS-IMPEACHMENT: Nada do que fazemos está baseado nesse cenário. Acho que o impeachment estava extremamente precificado. Tentamos ter posições que fujam dessas decisões binárias de curto prazo. Não imagino que isso vá ser um grande trigger para o mercado. Muito pelo contrário, acho que pode ser uma oportunidade para realização de ganhos. Tinha muita gente apostando nessa aprovação e depois disso o que você pode ver é uma correção dos preços. Mas não investimos obrigatoriamente nessa esperança. Nós, aqui, investimos em um horizonte muito mais longo. Olhamos para o prazo de um ano e tentamos combinar as operações. Nunca olhamos o que vai acontecer daqui a um mês. Essa exposição vendida em Bolsa é uma posição que temos com o objetivo de carregar por um período prolongado. Então, vou aproveitar o forte movimento de curto prazo para aumentar a posição vendida, que acho que será positiva no longo prazo.

SELIC: Achamos que vai demorar mais para cair, mas quando cair vai cair mais forte do que o previsto. O Banco Central vai, de fato, perseguir a meta de 4,5% de inflação de maneira mais ferrenha, para tentar recuperar uma credibilidade que ficou um pouco arranhada ao longo de muito tempo fugindo do centro da meta.

FLUXO DE INVESTIMENTOS NO BRASIL: Acho que pode aumentar pós-impeachment, mas não significa que vai ser um bom investimento de longo prazo. Foi isso que trouxe a Bolsa para esse patamar que já acho elevado. É sempre difícil dizer, sempre baseamos a posição no fundamento e não na previsão de fluxo. Em algum momento, os preços caminham para o fundamento. Pode acontecer um fluxo mais forte? Pode, faz parte do nosso balanços de riscos. Temos uma série de outras posições que vão se beneficiar desse fluxo, com exposição no mercado de juros e moedas, mas para o caso da Bolsa parece que é um mercado que andou na frente dos demais. Temos uma posição comprada em reais, vendido em dólar.

ALTA DE JUROS NOS EUA: Deve vir esse ano e é uma confirmação da fortaleza da economia americana e não atrapalha o cenário de valorização da Bolsa, muito pelo contrário. Ficaria muito mais preocupado com notícias que afetassem o crescimento americano e diminuíssem essa perspectiva de alta de juros, seriam mais danosos à Bolsa do que essa perspectiva de alta.

Os processos de alta de juros nos Estados Unidos são, via de regra, acompanhados de processo de alta da Bolsa. O problema é que ficamos muito ligados ao dia que isso acontece e a bolsa cai, mas como falamos aqui nunca estamos olhando dia, semana ou mês, estamos olhando processos longos. E processos de alta de juros normalmente são acompanhados por processos de alta da Bolsa, porque os juros sobem normalmente porque a economia está forte. Temos exposição principalmente na Bolsa americana, mas que não carrega moeda. Estamos fora do risco dólar/real nessa posição específica.

Marcio Appel, da Adam Capital
(Fabio Sala / InfoMoney)

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