Economista vê Bovespa próximo de "bull market" e alerta pessimistas: fuja da manada

Em entrevista ao InfoMoney, Richard Rytenband diz haver um forte efeito de manada em curso nos campos político e econômico que impede muitos investidores de perceber importantes sinais de reversão de cenário

 26 mai, 2015 15h29
Marcos Mortari
Richard Rytenband
(/Fabricio Garcia)

SÃO PAULO - Posicionar-se contra grandes maiorias pode ser mais difícil do que muitos imaginam - e, em grande parte das vezes, tão necessário quanto. Hoje em dia, diversos estudos na área da psicologia que mostram que, a despeito de convicções sólidas, muitas pessoas titubeiam na hora de exercer a posição do mais autêntico "do contra". Ao que tudo indica, podemos estar nos aproximando de um desses momentos em que é necessário abandonar o barco pessimista e nadar contra a maré.

Estudos feitos pelo economista Richard Rytenband revelam que o baixo preço dos ativos e o excesso de pessimistas que ignoram os sinais de reversão dados pela economia deve fazer com que novos ventos soprem sobre a Bovespa em breve - e os investidores estrangeiros já teriam percebido o movimento. Uma das principais consequências deverá ser uma nova renovação de geração atuante no mercado de capitais nacional, com a "eliminação" do grupo que ele chamou de "filhos da baixa". Recentemente, o economista montou um artigo com 7 fatos históricos que mostram porque apostar contra o Brasil pode ser um mau negócio.

Em entrevista ao InfoMoney, Rytenband explicou um pouco melhor suas projeções para o futuro da bolsa brasileira, deu dicas de como identificar momentos de reversão no mercado e teceu avaliações sobre o atual cenário político e econômico enfrentado pelo país. Acompanhe parte dessa conversa:

InfoMoney - Como foi construída sua tese sobre os prejuízos de se posicionar contra o Brasil?
Richard Rytenband - Na verdade, faz parte da forma como eu atuo no mercado. Os grandes mercados de alta sempre nascem em meio a um grande pessimismo, quando o último otimista joga a toalha. Da mesma forma, um grande mercado de baixa nasce, também, em meio a uma grande euforia. Se a gente for ver o mais recente início de um mercado de baixa, em maio de 2008, houve dois upgrades seguidos da dívida soberana brasileira, e uma molecada que operava há dois ou três anos, ganhou dinheiro e, de repente, com carteiras a sete ou dez vezes alavancadas, veio a desaparecer do mercado com uma forte queda dos ativos.

Há uma corrente de estudo que cria os chamados indicadores de sentimento, mas isso não basta. Uma combinação mais interessante é quando você consegue identificar divergências. É quando, no meio de um pessimismo exagerado, você começa a perceber notícias boas sendo ignoradas. Há algumas mudanças de rota e rumo já em andamento, mas as pessoas ficam na negação e ignoram aquilo. Da mesma forma que, quando você está em uma euforia muito grande, você começa a ignorar os sinais de alerta. 

É possível identificarmos uma série de padrões interessantes desde que o mundo é mundo, dentro das grandes bolhas, das grandes especulações, dos grandes mercados de alta, de baixa... É muito interessante acompanhar esse apanhado histórico para se ter uma análise mais fria, fora dos grandes movimentos de manada. Na manada, a inteligência da pessoa é muito menor. Ela começa a tomar atitudes irracionais, que dificilmente tomaria, mas se deixa levar por aquele sentimento, que é muito forte.

IM - Que tem não desprezível atuação mesmo individualmente. Imagina-se coletivamente...
RR - A gente teve recentemente um bom exemplo que foi o próprio movimento do dólar. Eu fiz até uma análise em que comparei o movimento dos juros futuros, do risco-país e de outros indicadores. Você via muito claramente que eles andavam totalmente alinhados. Na última perna de alta do dólar, a que foi de R$ 3,00 e pouco para R$ 3,31, os juros futuros e o risco-país não acompanharam. Houve uma divergência. Aquele foi o primeiro alerta. Outra variável também muito importante é a própria movimentação do câmbio, em que não houve saída de divisas do país; pelo contrário. Então, você tem uma alta com entrada de recursos, que mostra que não era uma alta gerada por fuga de capitais, pânico, nem nada disso.

Adoro ver acervos de jornais. A partir deles, podemos constatar que as coisas são sempre as mesmas. Eu fiz até um estudo especial sobre a Petrobras, desde sua fundação. Nele, mostrei uma série de escândalos. Vão-se mudando os nomes, mas a gestão sempre foi desastrosa. Eu mostro 150 exemplos do “Orgulho Nacional” que a pessoa fica com vergonha. É muito importante essa visão mais macro das coisas para a pessoa ver se está se deixando levar pela manada ou não. Desta forma, é possível identificar as grandes oportunidades. Em meu mais recente estudo, peguei casos extremos que ninguém nunca imaginaria, em que as pessoas pensariam que é mentira. Por exemplo: imagina comprar ações depois de o país decretar uma moratória externa! Se você perguntasse para qualquer um, iam falar que o mercado desabaria. Não. Foi ali que começou um dos melhores mercados de alta da história do Ibovespa e que foi até o topo de 1986.

Nos investimentos, outra coisa curiosa é que as gerações mudam rápido. Do pessoal que começou comigo, lá nos anos 1980, sobramos eu e meia dúzia. A garotada que operava no começo dos anos 2000 não é formada pelos mesmos; mudou tudo. Essa troca costuma acontecer a cada grande ciclo, principalmente do mercado bear, que costuma fazer uma limpeza geral. Em breve vai entrar o mercado de alta e uma nova geração. Então, as pessoas acabam se esquecendo dos processos históricos, tamanha taxa de renovação.

IM - Na análise do processo histórico, é um pouco mais fácil identificar esses momentos de reversão, porque temos o gráfico consolidado com toda a trajetória do mercado, além da possibilidade de analisar mais friamente os fatos históricos. Mas como é possível perceber tais movimentos no presente?
RR - Costumamos usar algumas dimensões: primeiro, uma análise do cenário macroeconômico – e, para isso, você tem uma série de indicadores que antecipam a atividade econômica. Há o valuation, para tentar estimar o preço dos ativos e ver se eles estão muito abaixo do que deveriam valer. Você tem os indicadores de sentimento... E aí, há uma série deles para você identificar se o mercado está otimista ou pessimista (volume das negociações, das opções de venda e compra, price action etc). Não há uma receita pronta. É uma coisa bem trabalhosa, mas não tem jeito: você tem que ter um domínio de finanças, valuation, análise técnica, indicadores de sentimento, de setor. Portanto, trata-se de um modelo bem robusto que pode ser usado em diversas situações. É uma coisa bem dinâmica.

No momento atual, fiz um call e mantenho: esse longo e grande mercado de baixa está próximo do fim. E, agora, a última dimensão que vai dar a cartada final vai ser justamente a do price action. Faltam algumas confirmações para definirmos uma mudança de cenário de fato, porque, no valuation, as coisas estão muito abaixo do que deveriam valer. No macro, vemos muitas mudanças de rumo, sentimento extremamente pessimista e com várias boas notícias sendo ignoradas. Então, daqui a um tempo, esse movimento atual de transição entre o grande mercado de baixa e o futuro mercado de alta provavelmente vai entrar na galeria de exemplos que eu gosto de citar.

O estudo que fiz é mais didático para mostrar que, às vezes, você pega um jornal, torce, sai sangue, e isso não quer dizer que o mundo vai acabar. Muito pelo contrário: esse extremo pessimismo já deve fazer você ligar um alerta para sair da manada, fazer uma reflexão racional e começar a identificar os pequenos sinais, perguntando-se: “poxa, será que estou ignorando as boas notícias? Existem boas notícias? Há coisas boas acontecendo ou está tudo ruim? Há mudanças de rota?”. O mercado odeia incerteza. Quando a dúvida é eliminada, as coisas se ajustam. Lembro-me que, quando, em meio a todas as especulações sobre a crise no Iraque, caiu a primeira bomba, e o Dow Jones, que estava caindo, virou para alta. Acabou a dúvida. Ia ter guerra.

IM - No fundo do pessimismo, existe uma espécie de mola, que impulsiona novas ondas de otimismo? O que exerceria esse papel?
RR - É muito comum você ter uma última perna de baixa em que entra o chamado dinheiro esperto comprando tudo, porque ele já está vendo sinais de melhora e pessoas comuns estão jogando a toalha e vendendo, o que acaba dando volume para essa grande varredura dos pessimistas. O inverso vale para mercados de alta.

Um movimento interessante é que, nos fundos, muito dos próprios pessimistas começam as altas. Por exemplo, o caso da Petrobras: há muita gente alugando ação para vender, opções... Começa a ter uma puxada razoável, o pessoal que está todo vendido, para fechar a operação, é obrigado a fechar posição. É uma mola puxando para cima. Então, da mesma forma que temos a realização de lucros dos contratos em que eles derrubam a ação, tem os vendidos realizando prejuízos desesperadamente fugindo de stops (que chamamos de córner).

Há uma série de movimentos internos que são característicos da própria Bolsa. Em 2008, aqui no Brasil, havia essa molecada alavancada sete ou dez vezes a carteira. Para o cara vender tudo isso, era um estrago. Era uma queda em linha reta. Era um mercado muito alavancado, otimista e com sinais de deterioração.

IM - O cenário político atual ainda é bastante incerto. Isso tudo não pode provocar alterações nas perspectivas?
RR - Em épocas de crise, há um timing diferente entre os movimentos políticos e econômicos. Geralmente, movimentos políticos são mais lentos. Nesse primeiro momento, temos a política dominando o noticiário e todo mundo preocupado. As primeiras mudanças de rota levam um tempo para fazer efeito claro. Mas, na hora que eles começam a aparecer, as pessoas começam a abandonar os debates políticos e a economia volta à pauta principal. As pessoas vão começar a focar em outras coisas. Na crise, existe esse momento de ebulição, muita gente só fala nisso. Não é nada de novo. Sempre vai existir.

Mesmo quando começar o mercado de alta, por vários semestres, a gente vai superar os muros da preocupação. Existem três estágios na transição de um mercado de baixa para outro de alta. O primeiro seria a negação: “não temos um problema. Isso é passageiro”; depois, vem o reconhecimento: “temos um problema. O problema é isso, isso e isso”; a terceira fase seria a capitulação, que é a que estamos agora: as pessoas jogam a toalha, desistem. É a hora em que o último otimista joga a toalha.

IM - Por que isso ocorre? Por que normalmente o começo de reversões para altas não costumam ser aproveitados?
RR - O mercado bear é muito destruidor; ele mexe demais com a mente das pessoas. Tanto que é o momento em que essa troca de gerações ocorre com mais força. A pessoa não aguenta mais. É uma dor em que ela precisa se livrar. Ela nunca mais quer ver ações na vida, nem ouvir falar. Quando se tem o mercado de bull, é o contrário: tudo é maravilhoso, surgem grandes oportunidades, o número de investidores aumenta, corretoras, produtos, escolas, cursos, aberturas de capital...

Dentro do meu modelo, a gente está na terceira fase. As pessoas só reclamam, tudo é ruim no Brasil, nada presta, não tem mais jeito. É característico. Eu vi isso no final de todos os bears que citei. E também vi o contrário da euforia no topo de um mercado bull: é algo muito contagiante. Se você não se cuida, acaba entrando na onda.

A mesma coisa, agora, é vista no final de um grande bear. Quando é pecado e é um palavrão falar que você acredita que as coisas vão melhorar ou quando você vai comprar alguma ação, você é visto como um otário ou um trouxa, isso já é um bom sinal que você está nessa fase de final de capitulação.

IM - A impressão que temos é que essas pessoas que estão shorteadas, na reviravolta de alta, elas compram mesmo ainda contrariadas para fechar suas posições: o movimento já começa a ganhar mais força aí.
RR - Na verdade, é uma coisa sistêmica até. A corretora, por exemplo, não quer nem saber. Os sistemas de margem e gerenciamento de risco foram sendo aprimorados ao longo da história, porque é muito perigoso. Muitas corretoras deixam o cara alugar a mais... Existe um limite, mas, para atrair mais clientes, elas dizem: “aqui você pode alavancar 15 vezes. Não tem problema”. Além do que perdeu, o investidor precisa colocar mais dinheiro, fruto da alavancagem.

A mesma coisa vale na baixa. Tem os filhos da alta, que foram dizimados na Bolsa durante esse bear, e agora vamos assistir de camarote os filhos da baixa. É quase que um vício: o cara pode se ferrar e perder um pouco. Mas, se ele estiver com a cabeça de baixa, ele pode achar que subiu, mas vai cair depois. Aí, ele continua sendo stopado até ser eliminado.

A velocidade e amplitude dos movimentos estão muito ligadas ao grau de alavancagem do mercado. Um mentor meu da bolsa costumava dizer que não basta ter ouvido para escutar o som do trovão. O que ele queria dizer com isso? As velocidades da luz e do som têm diferenças: você não precisa esperar ouvir o som do trovão. Na hora que você vi-lo se formar, já sabe que ele virá. O mercado sempre dá os sinais antes. Muitas vezes, a gente ignora e paga os preços por isso.

IM - Uma última pergunta sobre política: o senhor acha que, aqui no Brasil, a discussão política está sendo afetada por esse efeito de manada?
RR - Eu tive esse insight depois de tudo que vem acontecendo e eu não vi diferença entre o movimento de manada que eu acompanhava na Bolsa e o meio ideológico-político. É igual. A pessoa fica cega mesmo. É impressionante: forma-se uma mente coletiva e todo mundo acaba falando a mesma coisa, ignora o resto (os sinais de melhora), não convive com a diferença, ataca e gera essa rixa, e fica justificando a posição o tempo inteiro. Quando a pessoa está tanto na manada política, quanto na dos investimentos, ela perde oportunidades, atrasa sua vida, e, no melhor cenário, fica estagnada. 

Mesmo nos mercados de alta e baixa, existe essa história do ódio: quando estamos em alta e você fala em queda, começam a te chamar de louco, babaca, ridículo, ignorante... Não convivem com a diferença, não aceitam a opinião alheia. Falta um pouco de ponderação e racionalidade, porque estão presos a essa mente coletiva, que parece ter um magnetismo muito poderoso.

IM - Que conselho você daria ao investidor que está começando?
RR - O mercado sempre faz você ter que duvidar do óbvio. Duvide do óbvio. Às vezes, uma coisa está na nossa cara, mas, se existe uma grande parcela dizendo que não, você acaba indo na onda. É um treinamento difícil. Por isso que eu digo: às vezes, leva anos para um investidor ser formado um bom trader, porque ele tem que estar preparado para estar em uma posição independentemente da notícia, do analista top etc. Se você quiser vencer, acerte e erre por você mesmo. É preciso muita força mental para vencer tudo isso, aceitar a opinião dos outros, mas discordar. Eu, particularmente, quando vejo que tem muita gente com a mesma opinião que a minha, começo a ficar incomodado.

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