Por Paula Barra Em mercados / acoes-e-indices  08 jan, 2015 16h13

Veja 10 lições que a Bolsa deixou ao investidor em 2014

Se euforia eleitoral deu o tom ao mercado durante boa do ano, a correção marcou os últimos meses; confira o que você pode aprender com a volatilidade que marcou o Ibovespa no ano passado

Por Paula Barra Em mercados / acoes-e-indices  08 jan, 2015 16h13

SÃO PAULO - O ano de 2014 não foi nada fácil para o investidor, que viu o Ibovespa disparar 37,5% da mínima do ano, registrada em março, até setembro, quando bateu seu maior patamar desde janeiro de 2013. Logo após isso, o benchmark da bolsa brasileira caiu 18,2% até o final do ano, terminando 2014 com leve queda. Mesmo os mais experientes se deram mal, já que por quase o ano todo as especulações falaram mais alto do que qualquer fundamento - sobretudo na época das eleições.

Com isso, muitos investidores de ações que vinham aplicando em blue chips como Petrobras e bancos na expectativa de ganhar com o "rali eleitoral" tomaram um banho de água fria. No final das contas, quem voltou a liderar os ganhos do Ibovespa foram as ações da "previsível" Kroton (KROT3), com valorização de 63,72% no acumulado de 2014 - ganhando o título de "bicampeã" do Ibovespa. No ano anterior ela já tinha levado o caneco ao subir mais de 70%.

O que podemos tirar de lição de um ano tão tumultuado? Dizem que as grandes lições surgem nas derrotas, e 2014 foi marcado por muito mais histórias de sucesso do que de fracasso. Fazendo um retrocesso deste ano e analisando o que tanta volatilidade deixou de lição para o mercado, o InfoMoney preparou uma lista de 10 pontos que o investidor deve sempre colocar à frente antes de operar na Bolsa. Confira abaixo:

1ª) Variável política tem muito peso sobre Bolsa

O que vimos em 2014 foi a política fazendo "preço" durante quase o ano todo. O motivo foi a eleição em outubro e uma expectativa de mudança de governo, que fez subir ativos que há muito tempo vinham sendo penalizados na Bolsa por conta de interferênciais do Estado. Não para menos, a cada indicação de que uma mudança na presidência seria viável, os investidores se animavam e impulsionavam as ações de estatais - Petrobras (PETR3; PETR4), Eletrobras (ELET3; ELET6) e Banco do Brasil (BBAS3) - e os bancos Itaú Unibanco (ITUB4) e Bradesco (BBDC4). 

Com isso, durante boa parte do ano, quando o "rali eleitoral" falava mais alto do que qualquer referência econômica, a política teve um peso muito grande sobre a Bolsa. "O mercado virou torcedor entre março a outubro", disse o analista Flávio Conde. De março a setembro, as ações da Petrobras dispararam 108%, mas perderam todo o rali e mais um pouco passada a euforia. Daquele mês até o final de 2014, as ações preferenciais da petrolífera já caíram 59%, batendo no intraday do dia 16 de dezembro seu menor patamar desde junho de 2005.

2ª) "The trend is your friend"

Uma das regras básicas de investidores - principalmente aqueles que utilizam a análise técnica - é identificar a tendência do mercado ou de uma ação e respeitá-la. É a velha máxima do "the trend is your friend" (na tradução livre: a tendência é sua amiga). Uma ação em tendência de queda continuará em tendência de queda, até que um sinal claro de reversão indique que essa tendência acabou - a mesma regra, óbvio, segue para uma tendência de alta.

O analista técnico Bo Williams, que lidera uma das mesas virtuais da Clear Corretora, explica que um dos problemas do investidor é não saber interpretar a tendência. "O investidor acha que Petrobras, por exemplo, está barata a R$ 20, já que ela bateu R$ 40 no passado, então compra olhando apenas o histórico. Quando o papel cai para R$ 15, entende que está mais barata ainda e compra mais fazendo um preço médio, e é aí que está o erro. Está totalmente contra a matemática do mercado", comenta. 

3ª) Mesmo as blue chips podem cair muito - e bem rápido

Para quem acredita que ações de blue chips são mais seguras e imunes a fortes movimentos no mercado, 2014 mostrou que essa tese caiu por água abaixo. Como dito na primeira lição, a Petrobras foi de R$ 25 para menos de R$ 9 em 4 meses. Ou seja, uma ação pode estar "barata", mas pode ficar ainda mais barata, mesmo sendo de uma empresa como a Petrobras.

"Petrobras a R$ 9 não seria a hora para comprar? Pelo preço histórico até seria, mas 'nunca na história desse País' a companhia esteve com um futuro tão incerto e com viés de baixa. Isto é, seu fundo pode ainda não ter sido alcançado, então o melhor é esperar antes de pensar em comprar. Acredito que ainda tem mais espaço para cair", disse Flavio Conde.

4ª) Bolsa não é só "Petro e Vale"

2014 também ajudou a acabar com aquela ideia que por muito tempo reinou: a Bovespa é praticamente Petrobras e Vale. Ambos papéis tiveram mais um ano ruim no mercado de ações, o que, combinado com o ótimo desempenho de outras empresas, ajudou a tirar a importância destas duas ações na composição do Ibovespa. "O mercado perdeu muito tempo com a Petrobras quando o melhor era partir logo para outras ações bem mais interessantes", disse Conde. 

Empresas sólidas, com bons fundamentos e que não estavam relacionadas diretamente a questões políticas tiveram caminho aberto para subir forte em 2014. É o caso dos papéis de empresas de educação e de segmentos ligados ao setor financeiro, como a administradora de cartões Cielo e o BB Seguridade.

5ª) O investidor precisa ter atitude

Um outro ponto bem importante é que o investidor precisa ter atitude se quiser ganhar dinheiro na Bolsa. "A maior lição de 2014 pode ser resumida na palavra atitude. E quando falo sobre isso é porque a inflexão do mercado foi muito forte e só sobreviveu quem teve atitude nas operações", comentou Raphael Figueredo, analista gráfico da Clear Corretora.

Ou seja, quem não agiu rapidamente no mercado no ano passado pode ter perdido muito dinheiro ou deixado passar várias oportunidades. As ações do Itaú Unibanco, por exemplo, caíram 5% de janeiro até março, e a partir dali subiram 56% até o início de setembro. Depois disso, os papéis chegaram a desabar 26% até meados de outubro e, na sequência, subiram 13,9% até dezembro. No acumulado do ano, as ações do banco encerraram o ano com alta de 25%. 

6ª) Bolsa antecipa tudo

Uma das teorias clássicas do mercado é que a Bolsa antecipa qualquer movimento, e isso não foi diferente no ano passado. "Essa ano foi, mais do que nunca, a prova real de que a Bolsa é o reflexo da economia real, só que seis meses à frente. Por mais elevada que seja a volatilidade, o Ibovespa pode captar todos os movimentos, inclusive prever a reeleição da Dilma", disse Figueredo. 

A partir de setembro, um mês antes do primeiro turno das eleições, o Ibovespa desabou 14% até 1° de outubro; considerando até o segundo turno, o recuo foi de 18,4%. 

7ª) Ainda odeia gráficos? Análise técnica funcionou muito bem

Quem deixou de canto os fundamentos e o noticiário e se focou mais nos gráficos pode ter ganhado muito dinheiro na Bolsa. "Não diria que os gráficos superaram os fundamentos, mas foi um ano que certamente os traders se deram melhor do que o investidor fundamentalista", disse Figueredo.

A forte volatilidade favoreceu os traders, enquanto aqueles com foco mais no longo prazo podem ter terminado o ano no "zero a zero" ou até no vermelho, dependendo da hora que entrou no ativo.

8ª) Saiba interpretar as mudanças do mercado (nada é para sempre)

Desapegar-se da ideia de perpetuidade de cenário foi um ótimo aprendizado para o investidor: o mercado está em constante transformação. Em maio no ano passado, Ben Bernanke, até o momento presidente do Federal Reserve, anunciou que o programa de estímulos à economia americana estava caminhando para seu fim. A partir daquele momento, as commodities começaram a cair, o que afetou diretamente as economias emergentes, comentou Conde. O movimento pressionou principalmente a mineradora Vale (VALE3, -34,81%; VALE5, -37,11%) e siderúrgicas CSN (CSNA3, -60,06%), Gerdau (GGBR4, -46,79%), Metalúrgica Gerdau (GOAU4, -50,79%) e Usiminas (USIM5, -64,46%). 

Por outro lado, as exportadoras foram uma das ganhadoras de 2014, com o movimento de valorização do dólar frente ao real, já que essas empresas têm suas receitas atreladas à moeda americana. "As exportadoras voltaram a ser atraentes, principalmente as empresas do setor de papel e celulose, já que ali a bolha da commodity não estourou e a demanda continuou aquecida". Nos destaques, Fibria (FIBR3, +17,58%), Suzano (SUZB5, +23,73%), e a fabricante de aeronaves Embraer (EMBR3, +31,31%).  

9ª) Um bom management faz toda a diferença

Além dos indicadores econômicos e sinalizações políticas, o investidor deve estar sempre atento à gestão das empresas. "O ano mostrou que um bom management faz todo a diferença em uma empresa e, consequentemente, em suas ações na Bolsa, como foi o caso da BRF (BRFS3, +30,93%)", disse Conde.

Segundo ele, as mudanças na BRF mostram como uma empresa madura pode sofrer mudanças na administração (citando a entrada de Abilio Diniz no conselho de administração da empresa, em 2013) e em sua estratégia de atuação mesmo depois de consolidadas. "Isso é importante e mostra para o mercado que não é somente PIB (Produto Interno Bruto) e dólar que determinam o sucesso de uma companhia", comentou.

10ª) BC não consegue segurar o dólar para sempre

Por fim, uma outra lição importante é que, por mais que tente, o Banco Central não consegue segurar o dólar para sempre. "O BC 'segurou' o câmbio até as eleições e depois o que se viu foi uma forte arrancada. Quem se posicionou em empresas voltadas às exportações teve um ano positivo", comentou Conde. Nos primeiros quatro anos do governo de Dilma Rousseff, o dólar subiu 60%, chegando a valer mais de R$ 2,70.

Para 2015, as projeções mostram a cotação da divisa nas alturas. Um relatório recente da NGO Corretora apontou que a moeda americana pode chegar a R$ 3,20 este ano, atingindo R$ 2,80 já no primeiro trimestre. Segundo a casa, o governo não pode perder o foco que terá que conviver ao mesmo tempo com um cenário externo que tende a piorar para os países emergentes, com o dólar em franco fortalecimento face à recuperação dos Estados Unidos, acentuada queda das commodities, volatilidade no mercado e fluxo financeiro. 

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