Não existe bolha imobiliária e setor ganhará força após a Copa, diz Ricardo Amorim

Economista também acredita que o próximo governo terá de parcelar o reajuste represado das tarifas públicas porque, do contrário, a inflação das tarifas chegaria a 14% em 2015

Por João Sandrini
 25 jun, 2014 16h52
Ricardo Amorim, em evento de lançamento da parceria entre InfoMoney e Bloomberg
(Luiz Messici / InfoMoney)

(SÃO PAULO) – O economista Ricardo Amorim, apresentador do programa “Manhattan Connection” da GloboNews, acredita que as pessoas que estão esperando pelo estouro de uma possível bolha imobiliária para comprar uma residência por um preço mais atrativo estão adotando uma estratégia equivocada. Durante o evento de lançamento da parceria entre a Bloomberg e o InfoMoney em São Paulo, Amorim disse que o setor imobiliário – e os preços dos imóveis – tendem a ganhar força após a Copa, já que muita gente que está adiando a decisão de compra por causa desse tipo de temor terá de rever essa posição, o que vai reforçar ainda mais a demanda. Leia a seguir os principais trechos da palestra realizada no escritório da Bloomberg, em São Paulo:

IMÓVEIS

Temos a sensação de que há uma bolha imobiliária no Brasil porque os preços subiram quatro ou cinco vezes desde o início da década passada. Mas não dá para comparar os preços atuais com os antigos porque antes não havia crédito. Naquela época, só comprava imóvel quem tinha dinheiro para pagar à vista – ou seja, pouca gente. Mas agora há condições de financiamento bem mais favoráveis. Quando comparamos os preços brasileiros com os internacionais, a gente percebe que não há uma grande distorção. Comparei o preço dos imóveis com a renda da população e constatei que um brasileiro precisa gastar 13 anos de salário para comprar uma casa atualmente. Em uma lista com 123 países, o Brasil aparece apenas na 48ª posição nesse quesito. Outro forte indicador de que não há bolha imobiliária é que estudei quase 100 casos e percebi que nunca houve um estouro de bolha em um país onde o crédito imobiliário representasse menos de 50% do PIB. No Brasil, não chega nem a 10% do PIB. Há três anos que muita gente fala que a bolha imobiliária vai estourar depois da Copa. Então há uma enorme quantidade de brasileiros que está segurando a compra, pensando em aproveitar a queda dos preços quando ela ocorrer. Mas isso não vai acontecer. Depois da Copa vai ter a demanda natural de quem é comprador e vai ter a demanda de quem esperou o estouro de bolha que não veio. Então acho que o mercado imobiliário vai, na verdade, ganhar força depois da Copa – e isso não está na conta de ninguém.

CHINA

As pessoas falam muito da bolha imobiliária no Brasil, mas, nos próximos dois anos, a bolha que pode estourar é a chinesa. O Brasil constrói cerca de 400 mil residências por ano. Os Estados Unidos faziam cerca de 2,1 milhões de residências por ano antes do estouro da bolha imobiliária. Já a China construiu 22 milhões de moradias no ano passado. O número de chineses é 6,5 vezes maior que o de brasileiros, mas eles fazem 55 vezes mais casas. A outra bolha chinesa é a do crédito. No ano passado, 40% de todos os financiamentos via mercado de capitais foram para a China. Não sei quando essas bolhas vão estourar, mas uma hora vai acontecer e os impactos serão sentidos no mundo inteiro.

EUA

Os EUA podem se tornar o único motor da economia mundial se os emergentes continuarem desacelerando. O problema é que o número de companhias americanas que estão revisando suas projeções de lucro para baixo é o maior da história. Também não sei exatamente quando vai acontecer, mas acho que as Bolsas americanas, que estão quebrando recordes históricos, vão entregar os pontos no segundo semestre, ou no máximo no ano que vem.

BRASIL

O crescimento da economia brasileira decepciona há quatro anos. Mas não tem crise, tem letargia. A capa da “Economist” com o foguetinho brasileiro em parafuso foi mais uma correção do exagero anterior do Cristo Redentor decolando do que o prenúncio de uma grave crise. O FMI prevê que o Brasil vai crescer 1,8% neste ano. Eu acho que se chegar a 1% já será muito.

SETOR ELÉTRICO

O Brasil tem criado seus próprios problemas. O setor elétrico brasileiro ia bem. O governo fez um diagnóstico correto de que a energia era cara. Mas a forma escolhida para enfrentar o problema foi equivocada. O governo poderia baixar um pouco todos os impostos e encargos sobre a conta de luz. Eles até fizeram um pouquinho disso. Mas a principal medida foi baixar na marra o valor das tarifas. Só que isso reduziu a rentabilidade do setor. Os empresários engavetaram novos investimentos, e a oferta parou de crescer no ritmo de antigamente. Paralelamente a demanda aumentou devido aos preços mais baixos. Para piorar, não choveu. Agora quem pode salvar é o El Niño, que tem 70% de chance de ocorrer nos próximos meses e levar a mais chuvas no Sul e no Sudeste. A Dilma deu tanta sorte que já está chovendo mais no Sul, mas não no Sudeste. Então a falta de água em São Paulo vai ficar toda na conta do governador Geraldo Alckmin.

GOVERNO

O governo deu sinais de que acha que o empresário ganha demais. Ele usou os bancos públicos para forçar a queda dos juros nos bancos privados. Ele obriga a Petrobras a trabalhar com prejuízo na área de abastecimento. Ele quer que as empresas de mineração paguem mais impostos. Só que aí o empresário se retrai. Como o consumo continua em alta, as importações sobem. Então o dólar sobe. Quando há aumento de demanda sem aumento de oferta, os preços ficam pressionados. Aí o Banco Central eleva os juros, o crédito fica mais caro, o consumo perde força e a expectativa de crescimento do PIB diminui.

INFLAÇÃO

A inflação está alta e grávida. Os preços administrados terão de subir após as eleições porque os governos vêm represando todo tipo de tarifa pública há dois anos. A conta deverá ser parcelada porque, se subir tudo de uma vez, a inflação das tarifas pode chegar a 14% em 2015.

INDÚSTRIA E VAREJO

O bicho está pegando principalmente na indústria. Temos problemas de qualificação de mão de obra, infraestrutura, ambiente de negócios e burocracia. Já o varejo vai bem. Desde 2004, a indústria cresce abaixo do PIB e o varejo se expande a um ritmo superior ao do PIB. Desde 2008, a indústria não consegue sustentar seu crescimento. A produção da indústria hoje é menor do que era em 2008.

ELEIÇÃO

A política econômica terá de mudar, independente de quem ganhe a eleição. Será necessário adotar medidas que favoreçam a produção. O resultado da eleição está completamente em aberto. Uma pesquisa recente mostrou que 40% dos eleitores não conhecem o Eduardo Campos [pré-candidato do PSB] e que 22% nunca ouviram falar do Aécio Neves [PSDB]. Até a Dilma 1% dos brasileiros diz desconhecer. Eu não sei em que país essas pessoas vivem.

MAIS ESTRANGEIROS

Vamos ver cada vez mais estrangeiros trabalhando no Brasil. Já temos visto o aumento até mesmo do número de imigrantes trabalhando ilegalmente no Brasil. Pode parecer que não faz sentido um gringo acordar um belo dia e chegar à conclusão que a solução para seus problemas é trabalhar no Brasil. Mas o país criou 18 milhões de empregos formais nos últimos 10 anos. É muito mais do que os Estados Unidos criaram no período. Na Grécia, 85% dos jovens entre 18 e 25 anos não têm emprego. Na Itália e na Espanha, esses indicadores também são altíssimos. São pessoas que ganham menos que a gente e que estão mais bem preparados que nós. Então haverá um grande fluxo não apenas de trabalhadores mas também de empresas e produtos para o Brasil.

EMPREGO

O mercado de trabalho virou. O número de empregos formais criados em maio foi o menor para o mês em 22 anos. Mas a imprensa faz um trabalho muito ruim ao divulgar os números de desemprego no Brasil. De cada 100 brasileiros em idade economicamente ativa, 44 não trabalham nem procuram emprego. Três procuram emprego e não acham. E os outros 53 trabalham. Mas a taxa de desemprego que a gente vê nos índices oficiais é de 3 a cada 53 brasileiros, 5%, o que parece ótimo. Mas o que a mídia deveria falar e o que o governo deveria fazer é trabalhar para que parte dos outros 44 que não trabalham nem procuram fossem incorporados ao mercado de trabalho. É lógico que, entre esses 44, há gente que está estudando ou aposentado e que não deveria trabalhar mesmo. Mas deveria haver incentivo para que uma parte dos demais se transformasse em trabalhadores.

10 PONTOS DE OTIMISMO E OPORTUNIDADES SOBRE O FUTURO DO BRASIL

Provavelmente, a economia do Brasil tenha que piorar antes de melhorar. Mas não faltam motivos para ser otimista com o futuro do país no longo prazo:

1) A infraestrutura tem muito a crescer. A China constrói a cada ano mais infraestrutura que toda infraestrutura que o Brasil possui;

2) Temos o pré-sal, mas a Petrobras está com a corda no pescoço. Vamos resolver isso porque a Petrobras precisa explorar logo essas reservas. O consumo de petróleo nos países desenvolvidos cai a cada ano. A demanda é sustentada pelos emergentes. Então o governo vai ter que criar condições para acelerar a produção;

3) O consumo das famílias cresce mais do que o PIB quase todo ano desde 2004, fazendo com que o comércio também cresça mais do que PIB. Neste ano o aumento das vendas do varejo deve desacelerar para algo próximo a 3%. Mas ainda assim é um crescimento acima do PIB;

4) O superávit do agronegócio aumentou de US$ 10 bilhões para US$ 90 bilhões nos últimos 10 anos. Nenhum país tem mais área cultivável disponível que o Brasil. E o mundo quer consumir os alimentos que a gente pode produzir;

5) O interior do país deve continuar crescendo acima da média principalmente devido ao agronegócio e à mineração;

6) A educação vai continuar crescendo mais que o PIB no Brasil porque as pessoas agora têm mais condições para estudar. Todo o setor de saúde também vai crescer em ritmo mas acelerado que a média da economia brasileira, incluindo hospitais, laboratórios, redes de farmácias e planos de saúde. O que o governo não entrega o setor privado faz;

7) 20 milhões de brasileiros ingressaram nas classes A e B e 40 milhões de brasileiros ascenderam para a classe C nos últimos 8 anos. Essas pessoas não querem só comida. Elas vão consumir mais serviços de saúde, educação, transporte, energia e lazer.

8) Quase 30% das famílias brasileiras recebem o Bolsa-Família. No Maranhão, esse percentual chega a quase 60%. Então as regiões mais pobres do Brasil vão continuar crescendo acima da média das áreas mais ricas.

9) O setor de serviços consegue repassar preços porque ninguém aqui vai cortar cabelo na China mesmo que lá custe um décimo do que é cobrado aqui. Então esse segmento, que não importa competição externa, vai continuar crescendo mais rápido e com melhores margens que os demais.

10) O setor imobiliário vai continuar em alta de preços, ainda que não no ritmo dos últimos anos, e o volume de vendas deve se recuperar no segundo semestre, no ano que vem e, principalmente, a partir de 2016.

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