SÃO PAULO – A crise da dívida pública na zona do euro, que afetou fortemente os mercados globais durante o ano passado, deve continuar influenciando os investimentos no Brasil por um bom tempo, de acordo com o diretor da Apogeo Investimentos, Paulo Bittencourt.
O investidor deve se atentar para alguns pontos importantes para entender como as suas aplicações financeiras podem ser afetadas por problemas aparentemente (e fisicamente) tão distantes. “Nós estamos agora integrados em um sistema mundial de investimentos e o que acontece lá fora, rapidamente (em grau maior ou menor) afeta o Brasil de forma positiva ou negativa”, explica o executivo.
De acordo com ele, a crise europeia tem dois pilares fundamentais: o primeiro é financeiro. “Os países em pior situação precisam de um socorro imediato, para que bancos e outras instituições financeiras não entrem em um movimento de cascata”, diz. “Quando falamos de uma negociação que envolve apenas um país, é mais simples chegar a um consenso. No caso da União Europeia, vários países estão envolvidos, o que torna tudo mais complicado. São necessárias várias rodadas de reuniões”, continua.
Além disso, o outro ponto é o quanto essa crise afetará a economia real da Europa. “Quando existe um processo de ajuste financeiro, há um peso econômico negativo e a Europa terá de passar por isso. Menos emprego, menos crescimento econômico, tudo isso envolve o bem estar social das pessoas, que sempre foi uma promessa dos governos europeus na unificação. Por isso, há uma frustração entre a população europeia”, afirma Bittencourt.
E o Brasil com isso?
De acordo com o executivo, as questões envolvendo a Europa devem ter uma melhora gradual, mas o continente será afetado por pelo menos mais alguns anos. “Vai haver um rescaldo, como um incêndio que vai apagando lentamente. Até o final da década sentiremos os impactos, com uma melhora progressiva”, acredita.
Com isso, o Brasil também acaba afetado. “O mercado europeu sempre foi muito importante para o Brasil. Se o crescimento da Europa vai ser menor, a capacidade que temos de exportar para eles também é menor. Por outro lado, como há uma injeção de dinheiro muito forte para resolver o problema do ponto de vista financeiro, acaba havendo um excedente de dinheiro na economia global que automaticamente aumenta a inflação, inclusive no Brasil”, afirma.
Onde investir
Com uma inflação maior e ainda muita incerteza externa, o diretor da Apogeo aconselha que o investidor tenha cautela para entrar na bolsa de valores e monte uma estratégia para se proteger das possíveis oscilações do mercado de renda variável.
Uma das alternativas é investir em ações que pagam bons dividendos (distribuição do lucro da empresa entre os acionistas minoritários), que costumam ter um desempenho melhor em épocas turbulentas. “Com a bolsa para baixo, a rentabilidade dos fundos de dividendos é melhor do que a média”, afirma.
O analista chefe da SLW corretora, Pedro Galdi, também alerta para a possível volatilidade do mercado acionário global em 2012, mas acredita que deve haver uma evolução a partir do segundo trimestre, sustentada pela melhora dos indicadores internacionais. “Aqui no Brasil, para quem investe em ações, o sobe e desce continua, mas no final, a expectativa é positiva. O início do ano deve ser mais difícil, seguido de uma melhora a partir do segundo trimestre”, aponta.
Além de ações que pagam bons dividendos, ele também indica papéis relacionados ao mercado doméstico e pouco em commodities. “Isso porque quando o cenário econômico não é positivo, as ações de empresas relacionadas a commodities são as mais afetadas negativamente e aquelas relacionadas ao consumo local costumam ter um resultado melhor”, pontua.
No mercado de renda fixa, por conta da alta dos preços, o diretor da Apogeo aconselha que os investidores olhem para aplicações atreladas à inflação. “Com esta trajetória declinante dos juros, o investidor precisa olhar para outras aplicações de renda fixa, não apenas aquelas indexadas à Selic”, diz Bittencourt.
Além dos fundos de investimento, também é possível adquirir títulos atrelados à inflação (NTN-B) diretamente, por meio do programa Tesouro Direto.