Por Parceiros InfoMoney Em conteudo-patrocinado  09 fev, 2017 11h55

Crédito subsidiado atrapalha eficiência da política monetária, diz ex-diretor do BC

Alexandre Schwartsman explica que efeitos de mudança na taxa Selic são minimizados por atingir parcela relativamente pequena do crédito total

Por Parceiros InfoMoney Em conteudo-patrocinado  09 fev, 2017 11h55

O crédito subsidiado distribuído em larga escala representa um importante empecilho para a eficiência da política monetária, impedindo que o Brasil tenha taxas de juros mais normalizadas. Essa é a opinião de Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central e membro do Comitê de Política Monetária (Copom) entre novembro de 2003 e abril de 2006.

Para o economista, essa particularidade do Brasil demanda que a taxa básica de juros, a taxa Selic, seja mais elevada para produzir os efeitos desejados de controle sobre a inflação. Schwartsman, que abordará mais sobre o assunto durante suas aulas de Sistema Financeiro Nacional e Macroeconomia no curso de pós-graduação da PUCRS, também fala sobre os bastidores das reuniões do Copom e oferece uma visão sobre o cenário atual. Confira a entrevista completa abaixo:

InfoMoney: Desde a primeira reunião do Banco Central em 2017, os economistas passaram a projetar uma taxa de juros de um dígito ainda para este ano. Qual o principal risco que há para esse cenário? Os fatores externos podem prejudicar essas projeções?

Alexandre Schwartsman
Alexandre Schwartsman/Divulgação

Alexandre Schwartsman: Um risco importante, que nós e o BC estamos partindo do pressuposto, é que o processo de reformas do Brasil vai andar bem. Eu imagino que realmente vá, mas de repente não passa a questão da previdência, ou passa uma reforma muito mutilada, e isso daria um problema. Outro risco possível é descobrir que a Lava Jato afeta o núcleo do governo Temer, o que iria paralisar tudo e teríamos uma certa dificuldade de levar adiante reformas e ajuste fiscal. Risco não falta. Em alguma medida os fatores externos também podem impactar, de repente com o cenário em que se tem um aperto de juro muito mais forte lá fora do que se antecipa hoje, o que poderia ter algum impacto sobre dólar, mas acho que isso é relativamente modesto.

IM: Então os riscos então são, basicamente, internos?

AS: Acho que são mais internos do que externos. E mais do lado político do que do lado econômico. Obviamente, as coisas estão muito entrelaçadas hoje, mas o risco político é relevante, não por si só, mas porque muito da capacidade do BC de prosseguir num corte de juros está ancorada na noção de que vamos conseguir passar um conjunto de reformas que vão melhorar a situação fiscal, e daí o BC pode cortar juros.

IM: E pensando no médio ao longo prazo, qual é o maior empecilho para que o Brasil tenha taxas de juros mais próximas daquelas praticadas por mercados desenvolvidos?

AS: Essa é uma pergunta que todo mundo está tentando responder há muito tempo. Tem duas coisas que atrapalham muito: uma é a questão fiscal, em alguma medida se tem uma política fiscal que tem sido muito expansionista, mas isso explica apenas um pedaço, afinal temos muitos países que não têm exatamente um desempenho estelar no que diz respeito às finanças públicas. Algo talvez mais relevante para entender esse assunto é a existência do crédito subsidiado no país, numa medida muito maior do que em qualquer outro país que eu conheço, o que sugere que a política monetária acaba afetando uma parcela relativamente pequena do credito total. Por conta disso, acaba tendo que fazer mais do ponto de vista da taxa Selic do que precisaria fazer em outras circunstâncias. Concretamente, um exemplo é o BNDES, que representa uma parcela muito grande do crédito no país, e a taxa de juros cobrada pelo BNDES é bem mais baixa: a TJLP. Quando se tem isso, temos duas consequências: mesmo que a taxa Selic seja mais alta, normalmente um pedaço do gasto não vai ser sensível porque há o acesso ao BNDES, e a outra é que quando você sobe a Selic e não sobe a TJLP, isso significa que você aperta por um lado, mas o outro lado está parado, então tem que fazer apertos muito maiores.

IM: Política monetária é, na realidade, um exercício para projetar o futuro...

AS: Em qualquer lugar do mundo, política monetária é inerentemente sobre o futuro. Tanto que algumas pessoas chamam, em vez de regime de metas de inflação, de regime de metas para a inflação esperada, porque há defasagens entre as decisões de política monetária e o efeito sobre a inflação.

Se subiu o juro hoje, isso vai afetar a atividade com uma certa defasagem, de 9 a 12 meses. Mas eu não sei qual é a inflação daqui a 12 meses, então tenho que tentar projetar a inflação com base no que eu tenho disponível hoje. Então há uma certa trajetória do que se espera de taxa de câmbio, fazemos algumas hipóteses sobre qual vai ser o comportamento das contas públicas, temos muitas variáveis. A única forma de juntar essas variáveis de uma maneira que faça sentido é através de um modelo, na verdade são vários modelos, e cada família de modelo tem algumas versões.

Nós olhamos para o conjunto dos modelos e dizemos: está apontando para uma inflação dessa magnitude. Então, o que estamos fazendo de política monetária vai trazer a inflação de volta para a meta? Não, então precisa fazer mais. Vai trazer muito pra baixo da meta? Sim, então tem que fazer menos. Estamos o tempo todo projetando o futuro da melhor maneira possível, obviamente que não é qualquer resultado que o modelo oferece que você aceita, não é assim que funciona. Ele pode indicar algo, mas eu sei que tem certas dificuldades, aqui eu sei que o modelo captura bem ou não, e temos que pensar e se a política fiscal for mais ou menos apertada? Isso exercita o seu julgamento, e o exercício do julgamento acontece na reunião do Copom.

Aliás, basicamente, a reunião do Copom existe para isso. Caso contrário, basicamente rodava o modelo e ele dava a resposta. Na reunião trabalhamos com cenários, vemos que o risco é esse ou aquele, os membros discutem qual o grau de confiança com relação a essas projeções, se a economia está mais forte ou mais fraca do que estão supondo, etc. A reunião do Copom basicamente é em cima desses dados, projeções, modelos, e vamos exercitando o julgamento. Temos diversos economistas ao redor da mesa, e esses economistas vão ter que achar um meio termo comum e decidir: é isso aqui que temos que fazer.

IM: Os membros do Copom já vão para a reunião com o voto de certo modo definido?

AS: Posso falar por mim e pela época em que atuei [de 2003 a 2006]. Alguns dias antes apresentamos pelo menos as primeiras versões dos modelos, as versões finais só aparecem no dia. Temos alguma ideia sobre o voto, mas depende do que o staff do banco apresentar naquele momento. Tem uma discussão, às vezes sabemos que vamos ter que subir ou baixar. Se eu estava com a cabeça de subir 50 pontos, talvez vale a pena ir em um ritmo mais devagar.

Não vamos despreparados para a reunião, não olhamos os dados pela primeira vez na reunião, tem um encontro na véspera em que apresentam os dados, o que permite ter uma visão mais ampla e colocar todo mundo no mesmo pé no que diz respeito às principais variáveis. Pela experiência que eu tive, todo mundo ia com a cabeça bastante aberta para discutir as alternativas sobre a mesa.

IM: Principalmente durante as eleições presidenciais, sempre retorna o tema de independência do Banco Central. Até que ponto há interferência política?

AS: Na minha época, não tinha. Tinha uma composição do banco tal que, se alguém falasse “você tem que fazer isso”, a gente diria: então coloca alguém para fazer isso e vamos embora. Agora, me parece que durante o período Tombini [2011 a 2016] foi bastante sujeito a interferências políticas. É uma especulação minha com base no que conseguimos observar. Tiveram coisas muito suspeitas. Em 2011, por exemplo, inventaram uma história de que iríamos passar por uma crise internacional equivalente a 1/4 da crise de 2008, e por isso iriam cortar os juros. Cortaram, e perdemos o pé da inflação. Mais recentemente, estava tudo preparado para um aumento de juro no início do ano passado, mas na véspera da reunião do Copom o Tombini divulgou um comunicado no site do BC dizendo que o FMI rebaixou a nossa perspectiva de crescimento, mais ou menos para a mesma perspectiva do Relatório Focus, diga-se de passagem.

IM: Você vai lecionar a disciplina de Sistema Financeiro Nacional e Macroeconomia no curso de pós-graduação da PUCRS, qual vai ser a linha principal de abordagem?

AS: Quero dar uma ideia do que é a economia monetária hoje, mostrando qual a base teórica por trás dos modelos de metas de inflação, o que significa a determinação da taxa de juros, o que você espera se houver piora no desempenho fiscal, o que esperar se tiver uma alteração na meta de inflação ou se tiver um choque que eleve a taxa de câmbio, etc. Iremos dotar os alunos de um instrumental que os permita analisar esses tipos de problemas.

IM: O que você espera de um profissional do mercado financeiro hoje?

AS: Uma formação muito sólida, uma curiosidade muito grande e um certo montante de insubordinação, pelo menos intelectualmente. Eu particularmente sempre gostei de ter pessoas que perguntam: por que você acha isso? Acho que o entendimento nasce do desafio permanente. Se você não é desafiado, a tendência é acomodar. Se basicamente o que você fala os seus subordinados repetem, você não vai a lugar nenhum, precisa ter essa interação. De repente alguém aparece com alguma ideia que você não teve e isso muda a cabeça.

Alexandre Schwartsman é um dos professores do curso de pós-graduação em Finanças, Investimentos e Banking da PUCRS. Outros nomes incluem Ricardo Amorim, Alexandre Assaf Neto, Sérgio Moro e muitos mais. Clique aqui para conhecer a relação completa de professores e inscreva-se na modalidade presencial ou online.

 

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