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Em um século, o que não mudou para mulheres no mercado de trabalho

Há cem anos, mulheres protestavam contra más condições de trabalho; hoje, elas seguem ainda um longo caminho pela igualdade de oportunidades

SÃO PAULO – Conta a história que no dia 8 de março de 1917 (ou 23 de fevereiro, no calendário juliano) cerca de 90 mil operárias marcharam na Rússia contra o Czar Nicolau II, pela saída do país da guerra e, como ocorria em um movimento mundial, por melhores condições de trabalho. Em 1975, a ONU oficializou a data como Dia Internacional da Mulher.

Exatos cem anos depois da mais famosa manifestação dessa onda, mulheres percorrem uma curva ascendente - ao menos em número - dentro da força de trabalho. No Brasil, de acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), o número de postos ocupados pelo trabalho feminino quase dobrou nos dez anos entre 2004 e 2014, passando de 12,5 milhões de trabalhadoras com carteira assinada para 21,4 milhões, 43,25% do total. 

Isso, entretanto, está longe de significar equiparação dentro das empresas e chegada nos cargos de liderança. Para falar do Brasil, mostra o relatório mais recentemente disponibilizado pelo Instituto Ethos a respeito que o percentual de mulheres em cargos executivos nas 500 maiores empresas do país é de apenas 13,6%. Isso ocorre embora as mulheres somem 51,4% da população e tenham nível de instrução superior: 7,5 anos de estudo ante 7 dos homens, na média nacional. O Fórum Econômico Mundial lista o país na posição 79 em termos de igualdade de gênero, entre 144 pesquisados

No mesmo relatório, o Ethos aponta que parcela significativa dessas empresas não tem ações afirmativas para reverter essa situação. De acordo com o Peterson Institute for International Economics, todavia, essas ações seriam no mínimo interessantes do ponto de vista financeiro. Durante pesquisa, companhias que aumentaram a presença de mulheres em até 30% em cargos de alta hierarquia viram, em média, um crescimento de 15% na rentabilidade. 

Outras pesquisas, como a realizada por David Cuberes, da Universidade Clark, em Massachussetts, e Marc Teigner, da Universidade de Barcelona, indicam que a igualdade de gênero na força de trabalho poderia aumentar o PIB per capita da América Latina em cerca de 16%.

Para a consultora de recursos humanos da multinacional Randstad, Polyana Macedo, o mercado de recrutamento já viu uma melhora significativa no momento da contratação, mesmo para os cargos mais altos. “A gente não vê mais empresa pedindo para contratar apenas homens para determinados cargos, isso não existe mais”, afirma. Para ela, se ainda há um abismo, ele parte da questão cultural e da insegurança formada por uma desigualdade histórica: “as mulheres se colocam na posição da insegurança, imaginam que podem ficar grávidas e não poderão investir tanto na carreira, por exemplo”.

De fato, cuidar da família ainda é, culturalmente, tarefa para a qual se dedicam as mulheres. Conforme mostra o IBGE, na versão mais recente da Síntese dos Indicadores Sociais, a renda das mulheres equivale a 76% da renda dos homens. O motivo, diz o instituto, é que elas passam cerca de seis horas a menos por semana em seus empregos. 

No total, porém, as mulheres efetivamente trabalham mais, continua o IBGE. Elas passam duas vezes mais tempo que os homens se dedicando às tarefas domésticas relativas à família inteira, a ponto de somar 55,1 horas de trabalho por semana, contra 50,5 horas dos homens.

“A gente tem aí uma questão muito cultural”, diz Polyana. “Infelizmente, as pessoas ainda acham que as funções domésticas ainda têm muito a cara da mulher. Isso tem mudado um pouco, já está começando a aparecer um pouco do trabalho doméstico compartilhado, mas realmente o mais normal é as mulheres trabalharem fora e dentro de casa”, comenta a recrutadora e consultora, que também é mãe e garante que a divisão de tarefas dentro de casa foi essencial para que conseguisse retomar o trabalho normalmente após a gravidez. Mesmo assim, a família não pôde usufruir do auxílio creche disponibilizado pela empresa de seu marido “porque eles só dão para quem é mulher”.

Incentivos

A consultora acredita que, caso as empresas dessem incentivos para que homens se sentissem confortáveis para realizar trabalho doméstico, provavelmente haveria consequências nas disparidades culturais. “A licença paternidade, por exemplo, existe ampliada em alguns países. Por aqui, quase não vejo”, analisa. “Se o governo desse algum tipo de incentivo fiscal isso provavelmente seria mais visto”, diz.

No ano passado, o Brasil aumentou de 5 para 20 dias a licença paternidade apenas de companhias participantes do programa Empresa Cidadã. Dentro dessa regra, o governo Dilma, então vigente, passou a oferecer a dedução de imposto de renda no valor do salário referente ao período em que o funcionário estiver fora. Alguns especialistas ainda acham esse período de 20 dias muito pouco (leia mais aqui).

Trabalho “de mulher”?

Conforme mostra a RAIS, o trabalho feminino concentra-se em alguns setores, notoriamente serviços, comércio e indústria de transformação. O único setor em que as mulheres são maioria é o da Administração Pública, onde, de 9,5 milhões de postos de trabalho, 5,5 milhões estão ocupados por mulheres.

O LinkedIn lançou neste ano uma pesquisa mundial que mostra a ocupação de mulheres em diferentes setores e a porcentagem delas que chega a cargos de liderança em cada um deles. Os resultados podem ser vistos abaixo:

Setor Participação feminina geral Participação em cargos de liderança
Saúde e Farmacêutico 61,1% 45,8%
Governo / Educação / Terceiro Setor 53,6% 47,4%
Serviços 47,3% 33,6%
Varejo e Bens de Consumo 46,0% 33,1%
Mídia e Entretenimento 43,4% 33,1%
Serviços Financeiros e Seguros 42,8% 28,8%
Tecnologia 30,4% 20,6%
Telecomunicações 30,0% 21,7%
Indústria 28,0% 18,7%
Arquitetura e Engenharia 27,5% 19,1%
Petróleo e Energia 25,7% 19,1%
Aero/Auto/Transporte 25,7% 18,0%

Isso também é reflexo cultural, de acordo com pesquisas. Um estudo publicado pela Science Magazine mostrou que, desde crianças, meninas são levadas a acreditar que são menos inteligentes que meninos. Ao responder à afirmação “uma pessoa no meu escritório é muito, muito inteligente”, meninas de 5 anos tendiam a achar que essa pessoa é uma mulher. Aos 6, a probabilidade de atribuir a genialidade ao seu próprio gênero já cai entre 20% e 30%.

Talvez reflexo dessa discrepância, preconceito e situações até criminosas ocorrem ainda com frequência dentro do ambiente profissional. Muito recentemente, a ex-engenheira da Uber Susan Fowler fez barulho ao denunciar assédio dentro da companhia através do texto “Refletindo sobre um ano muito, muito estranho na Uber”. O CEO da empresa, Travis Kalanick, fez pedidos públicos de desculpas, abriu uma investigação a respeito e agora tenta impedir uma manifestação de usuários que querem deletar o aplicativo por conta dos episódios relatados.

As denúncias, porém, são menos comuns que as situações de assédio. Uma pesquisa do Vagas.com de 2016 mostrou que apenas 12,5% das mulheres que disseram ter sido vítimas de assédio fizeram denúncias, a maioria intimidada pelo risco de perder o emprego (40%), medo de represália (32%), vergonha (11%) ou temor de que achar que a culpa era delas (8%).

mulher engenheira
(Shutterstock)

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