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NASA detecta água líquida em Marte

Cientistas confirmam que estranhas faixas no Planeta Vermelho são formadas por água corrente

(SÃO PAULO) – O Santo Graal da exploração espacial é a descoberta de vida extraterrestre. Um importante precursor dessa descoberta é a água líquida – e foi justamente isso que a NASA anunciou que cientistas descobriram em Marte.

As descobertas, descritas no jornal Nature Geoscience, fornecem uma explicação para faixas longas e peculiares que eventualmente aparecem no território marciano. Os elementos escuros, que podem chegar a 5 metros de largura e mais de 100 metros de extensão, foram vistas pela primeira vez em 2010. Ao analisar a luz refletida dessas faixas, uma equipe de oito cientistas concluiu que elas consistem de sais minerais que absorvem umidade facilmente – e que água corrente é a explicação mais provável para essa aparição.

O planeta vermelho é conhecido há muitos anos por possuir gelo, e sua superfície sustenta marcas topográficas de fluxo aquático primitivo. Essa última pesquisa, no entanto, é a primeira a fornecer evidências convincentes da existência atual de água corrente em Marte.

Em 2010, Lujendra Ojha, então graduando da Universidade do Arizona e agora autor principal dessa nova pesquisa, começou a analisar imagens de uma câmera poderosa da NASA que orbitava o planeta. Seu professor, Alfred McEwen, é outro autor da pesquisa e cientista principal dessa câmera na NASA. “Havia essas características lineares, rígidas e estreitas em formação” em todo o planeta, disse Ojha, “e elas formavam-se apenas quando a temperatura era ideal para a água líquida”. No inverno marciano, as estruturas, chamadas de “recurring slope lineae”, desapareciam.

Outro instrumento, chamado de Espectrômetro Compacto de Reconhecimento de Imagem para Marte (CRISM, na sigla em inglês), relatou os comprimentos de ondas de luzes refletidas na superfície de Marte. Os cientistas usaram o CRISM para coletar o espectro da luz, compará-lo às características luminosas de minerais e então concluir, por exemplo, o tipo de solo que pode ser construído em outro planeta.

Agora um estudante de pós-graduação do Georgia Institute of Technology, Ohja começou a analisar os dados do CRISM para as faixas inclinadas de Marte no final do ano passado, pixel por pixel. Usando essas imagens, ele e seus colegas confirmaram o que já suspeitavam: a presença de sais chamados percloratos que são ótimos na absorção de água.

O significado da descoberta vai além da alegria usual da descoberta de quaisquer semelhanças com a Terra no espaço. A água líquida é um precursor necessário à vida. Então, se Marte tem água, também deve ter...

Bom, vamos com calma.

As novas imagens não mostram exatamente água corrente, que não dura muito tempo na superfície marciana. Ela evapora rapidamente, e a atmosfera refinada mantém essa água longe. O orbitador coleta os dados aproximadamente às 15h do horário marciano. Esse é um momento ruim para observar água, porque a umidade relativa é baixa. Oito horas antes ou depois, os cientistas poderiam ter encontrado água de fato, disse Ojha.

Em vez disso, o que sobrou são esses padrões de sais hidratados recentemente, que se misturam com água quando há água, o que forma essas faixas escuras. É isso o que Ojha e os colegas veem nas imagens, e como eles sabem que há água em Marte. Está dentro desses sais, e não poderia estar lá sem um fluxo recente.

A questão essencial, se Marte pode hospedar coisas vivas, pertence diretamente à astrobiologia, o estudo das origens da vida.

Ao final do novo relatório, Ohja, McEwen e os outros autores dizem que as condições em Marte – árido e rico em sais – são de certa forma semelhantes às do deserto do Atacama. Lá, camas de sais retêm água e fornecem um oásis para micróbios. Infelizmente para caçadores de ETs, em Marte, “a atividade aquática em soluções de perclorato podem ser fracas demais para sustentar a vida terrestre conhecida”, escreveram os autores.

Há algo irônico na procura por condições amigáveis de vida em Marte, ou em qualquer outro lugar. Quanto mais promissora a descoberta, mais cautelosos os humanos (ou nossos robôs) deveriam ser na aproximação. Áreas onde a vida pode se propagar são declaradas “regiões especiais” e tratadas com cuidado por cientistas. Isso porque quase qualquer coisa na Terra – seu smartphone, campainha, bananas, meias sujas – está cheia de micróbios. A NASA possui um Escritório de Proteção Planetária completo para garantir que a pesquisa por vida extraterrestre não expatrie a vida terrestre.

“Talvez no futuro tenhamos uma missão para ir até lá”, disse Ojha, “mas eu acho que temos que ter muito cuidado a respeito da transferência de vida entre a Terra e Marte. Podemos ser responsáveis por criar o segundo Gênesis”.

Por Eric Roston

Traduzido por Paula Zogbi

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