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Como as impressoras 3D estão salvando artesãos italianos

Italianos se voltaram a uma nova ferramenta em sua competição contra os produtos chineses mais baratos

(SÃO PAULO) – O coração industrial da Itália se estende praticamente de Milão a Veneza, junto com a planície aluvial do rio Po até o Adriático. Nos anos 1960, fazendeiros da região começaram a estabelecer pequenos negócios familiares, cada um deles especializado em uma parte específica de um produto final. Depois de uma geração, muitas dessas companhias tornaram-se líderes mundiais em seus respectivos campos, e pequenas cidades italianas viraram centros manufatureiros. A cidade de Montebelluna, ao norte de Veneza, chegou a produzir cerca de três quartos de todas as botas de esqui do mundo, com diferentes companhias especializadas em fivelas, revestimentos e cascos. Cerca de 70% das cadeiras da Europa foram desenhadas e produzidas em 1.200 pequenos locais ao redor de Manzano, perto da fronteira italiana com a Eslovênia – sendo cada parte do processo de produção realizada em uma companhia altamente especializada diferente.

Como boa parte do resto doa país, entretanto, a região passa por tempos difíceis. Artesãos italianos sofrem com a competição da China e outras partes da Ásia. Desde o início da crise econômica global, o setor industrial do nordeste do país cortou aproximadamente 135.000 empregos – cerca de 17% de sua força de trabalho total. “Nós precisávamos encontrar uma rota de escape”, diz Ignazio Pomini, presidente do HSL, fabricante de protótipos automotivos de 27 anos de idade localizada em Trento, nordeste de Veneza. “Para usar a mesma tecnologia, as mesmas habilidades, o mesmo espaço, os investimentos existentes, mas para um novo negócio”.

Alguns anos atrás, em uma tentativa de diversificar as ofertas da companhia, Pomini fez um acordo com Selvaggia Armani, um designer e artista. Os dois começaram a trabalhar em uma série de abajures desenhados por Armani e fabricados sob encomenda nas impressoras 3D de Pomini. As peças – algumas das quais continham detalhes difíceis de produzir usando métodos tradicionais – demoram para ficar prontas, sendo cada camada montada em nylon por um laser de alta potência. O projeto obteve um sucesso surpreendente: Pomini agora trabalha com mais de uma dúzia de designers; ele lançou as joias impressas em 3D em 2012. “Essa é a beleza dessa tecnologia”, diz Armani, 47. “Você pode construir coisas que são impossíveis”.

Técnaicas como essa ajudaram o nordeste da Itália a transformar-se em uma estufa de inovações. O crescimento do ano passado na região foi positivo pela primeira vez desde 2007, em 0,5%. As exportações cresceram em 3,5% em 2014 e a expectativa é de que continuem crescendo. Na província de Trento, por exemplo, os setores público e privado investem juntos cerca de 2% do produto interno bruto em pesquisa e desenvolvimento. Na Centro Moda Canossa – escola de comércio em Trento para crianças de 14 a 18 anos de idade se especializarem em design de moda e costura – a faculdade recentemente abriu turmas para uma aula na qual os estudantes incorporam impressões 3D, cortes a laser e chips de microcontrole a seus designs. “Não podemos oferecer trabalhos do passado. Ninguém vai se interessar”, diz Michele Bommassar, 36, vice-diretor da escola. “Você precisa oferecer empregos do futuro”. Ele fala sobre o projeto de um estudante, uma volsa com um padrão desenhado a laser que acende quando está aberta. “É lindo, mas acreditamos que também é necessário. A alternativa a isso é ser massacrado pelos outros”.

De acordo com analistas da companhia de pesquisas italiana Prometeia, o uso de impressoras 3D e outras tecnologias tem o potencial de impulsionar receitas de manufatureiras de pequena escala em 15%, ou ao menos 16 bilhões de euros. Na melhor das hipóteses, essas tecnologias injetam elementos da economia digital no mundo físico, permitindo que uma galáxia de pequenas companhias compitam com multinacionais, basicamente da mesma maneira que vídeos do YouTube se posicionam frente à produção tradicional de vídeo.

O advento de rápidos protótipos e outras inovações significa que “você pode compensar suas desvantagens com variedade, customização e respostas rápidas às demandas do mercado”, diz Paolo Collini, professor de negócios e reitor da universidade de Trento. Ou, como diz Armani, “se algo não funcionar, você simplesmente para de produzir. Para um designer, isso é um sonho: você apode arriscar mais”.

O espírito de experimentação é palpável em Verona, o centro tradicional do negócio de impressões da Itália. Como boa parte do resto do país, a indústria de lá foi eviscerada – os locais de trabalho de pequena escala não conseguem competir com as impressoras e com concorrentes mais baratos e rápidos. “As gráficas tradicionais trabalhavam com suas cabeças baixas por 30 anos, e quando olharam para cima, o mundo havia mudado”, diz Nicola Zago, 33, um dos fundadores da Lyno’s Type, uma rara startup no universo tradicional das gráficas. Com seu parceiro de negócios, Tommaso Cinti, 33, Zago comprou um conjunto de prensas dos anos 1950 de um artesão que costumava realizar a maior parte de suas impressões a mão. Para um projeto complexo, ele pode ter passado dias organizando cartas encontradas em gavetas, usando uma tecnologia que pouco mudou desde os tempos de Gutenberg.

Zago e Cinti ainda usam essas prensas, mas eles as integraram em um processo de manufatura que inclui design moderno, marketing atual e uma produção controlada por computadores. “O que as gráficas de Verona nunca entenderam é que nesse mundo, trabalhar duro não é mais o suficiente”, diz Cinti. “Você precisa compreender o novo mercado, a nova dinâmica”.

Novos processos de produção não são as únicas tecnologias nivelando o campo de produção de produtores de baixa escala italianos. O poder da internet abre possibilidades para pequenas empresas encontrarem rapidamente novos mercados, mesmo que a demanda italiana permaneça baixa. Na cidade de Mestre, Simone Segalin, sapateiro de terceira geração, possui clientes regulares que vêm à sua loja de lugares como China, Rússia e Estados Unidos. Boa parte da tecnologia que ele usa seria familiar a seu avô. “Eu estive próximo a sapatos desde quando era uma criança”.

Recentemente, Seagalin adquiriu uma tecnologia decididamente mais moderna, com o custo de 15.000 euros: scanners de pés a laser. Usando-os, Segalin consegue criar um modelo computadorizado dos pés de um cliente, que fornece as medidas exatas para o trabalho. O mais importante: agora essas medidas podem ser realizadas de qualquer lugar do mundo. “Um site permite que você mostre seu produto ao redor do mundo, isso permite que você venda esse produto e ainda consiga fazê-lo sob medida”.

De volta à Trento, Pomini recentemente passou a fabricar óculos de sol customizáveis, lentes redondas coam acessórios intercambiáveis que podem ser grudados e retirados. Desde outubro, a HSL recebeu consultas espontâneas sobre os óculos de distribuidores na Ucrânia, Grécia, Estados Unidos e Brasil. A designer que os criou, a arquiteta Rosa Topputo, inspirou-se em temas tradicionais italianos: arquitetura, planícies e uma ilha. Para Topputo, “mesmo quando você cria algo com tecnologias recentes, você não consegue esquecer as estéticas do passado”.

Traduzido por Paula Zogbi

HSL - Bloomberg
(Luca Locatelli for Bloomberg Businessweek)

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