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Delação causa estragos no Brasil, mas abre caminho para JBS

O acordo de delação premiada assinado por Joesley e Wesley Batista alivia pelo menos parte das preocupações que vinham perseguindo cada vez mais a empresa nos últimos meses

(Bloomberg) -- O acordo que lançou o Brasil em uma nova crise e deixou os investidores em apuros pode ser positivo para o frigorífico JBS (JBSS3) e seus proprietários, que são peça central desta última turbulência.

O acordo de delação premiada assinado por Joesley e Wesley Batista, os irmãos que comandam a maior produtora de carne do mundo, alivia pelo menos parte das preocupações que vinham perseguindo cada vez mais a empresa nos últimos meses. Os irmãos, ou as empresas que suas famílias possuem, foram citados em seis investigações diferentes em pouco mais de um ano, fazendo com que ações e títulos caíssem a cada novidade.

Na quinta-feira, quando os mercados brasileiros foram interrompidos por circuit breakers pela primeira vez desde a crise financeira global de 2008, a JBS não foi nem de perto a mais atingida. As ações da empresa caíram 9,7 por cento, enquanto seus títulos para 2024 tiveram declínio de cerca de 2 centavos de dólar no fechamento. As empresas estatais listadas, por sua vez, chegaram a mergulhar 21 por cento no fechamento porque os investidores se perguntavam sobre o futuro do governo do presidente Michel Temer e de sua agenda de reformas.

Os irmãos Batista, juntamente com outros executivos da JBS, fecharam acordo para pagar R$ 225 milhões (US$ 67 milhões) em multas e não enfrentarão julgamento na investigação sobre transações feitas com fundos de pensão. O acordo foi fechado depois que eles apresentaram ao Supremo Tribunal Federal supostas evidências de que Temer fazia parte de um esquema envolvendo o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que está preso, segundo o jornal O Globo. A companhia confirmou que assinou um acordo de delação premiada e o valor da multa em comunicado, na quinta-feira. Em comunicado à parte, Joesley admitiu a entrega de pagamentos ilícitos a funcionários públicos e prometeu cooperar com as autoridades para expor a corrupção no Brasil.

“A nuvem sobre a JBS pode começar a se dissipar”, disse Ian McCall, que gerencia US$ 185 milhões em ativos de mercados emergentes na Quesnell, em Genebra. As ações perderam um quarto de seu valor nos últimos 12 meses, ficando de fora do rali que abarcou todo o mercado de ações do Brasil e causando o adiamento de uma oferta planejada no mercado americano.

Apesar de a delação ter gerado uma nova crise no governo, com Temer negando veementemente irregularidades e prometendo permanecer no poder, as consequências para os irmãos e suas companhias parecem relativamente pequenas. As buscas frequentes da polícia nas sedes de São Paulo e as ordens judiciais provavelmente diminuirão, pelo menos. A multa é equivalente a apenas 2 por cento dos lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização obtido pela empresa no ano passado. É menor também que os R$ 328 milhões que os controladores da JBS receberam com a venda de uma participação de 1,2 por cento da companhia em abril, segundo comunicados ao mercado.

Mas nem todas as cartas estão sobre a mesa. Os termos da delação não são públicos e o jornal O Globo publicou que a companhia está buscando um acordo de leniência nos EUA. E embora o acordo com as autoridades possa ajudar as empresas a deixarem escândalos para trás, no caso da construtora Odebrecht -- que em dezembro concordou em pagar a maior multa da história em um acordo de corrupção em vários países -- ele ficou longe de ser o corretivo definitivo que alguns investidores esperavam.

A JBS também poderá enfrentar condições de crédito mais rígidas, porque os bancos poderão reduzir suas linhas de financiamento e ampliar os prêmios de risco até que se saiba com mais clareza a abrangência e a extensão do acordo de delação premiada, disse Marc Gautier, diretor-gerente da JP Trinity Capital em São Paulo. A empresa pode inclusive ter de vender alguns ativos, já que seu caixa é insuficiente para cobrir o serviço das dívidas a curto prazo, segundo Gautier.

“A longo prazo, isso pode vir a ser positivo para a JBS”, disse Gautier, em entrevista por telefone. “A curto prazo, a empresa vai sofrer.”

Apesar do escândalo, a JBS viu suas receitas se multiplicarem por sete desde 2007, quando abriu seu capital. A empresa se tornou a maior produtora mundial de carne após investir mais de US$ 20 bilhões em uma série de aquisições que incluiu a empresa americana Swift & Co., a unidade de carne bovina da Smithfield Foods e a fornecedora de carne de frango Pilgrim’s Pride.

“Trata-se de uma empresa real, uma líder global real do mercado de proteínas”, escreveu Ray Zucaro, diretor de investimento da RVX Asset Management, com sede em Miami, por e-mail. “Os escândalos podem estar sendo associados com os acionistas diretamente, mas a médio e longo prazo a empresa deverá ficar bem.”

 

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(Bloomberg)

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