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Caso de preconceito de gênero no Vale do Silício é divisor de águas para mulheres

Julgamento, que ocorre na corte estadual de San Francisco, é assunto entre muitas grandes companhias

(SÃO PAULO) – O julgamento do caso de preconceito de gênero de Ellen Pao contra a Kleiner Perkins Caufield & Byers é um momento divisor de águas, de acordo com várias mulheres executivas. E elas disseram que mesmo uma derrota não mudaria isso.

“Esse pode ser um evento catalizador”, disse Mary Cranston, ex-presidente e parceira sênior na Pillsburry Winthrop Shaw Pittman LLP, firma global de advocacia de San Francisco. Ela falou que o processo de Pao e o testemunho sobre as alegações chamaram atenção para a discriminação e preconceito inconsciente que as mulheres enfrentam na indústria de tecnologia, que é dominada por homens.

O julgamento, que ocorre na corte estadual de San Francisco, faz estremecer o Vale do Silício. Pao alega que a Kleiner pagou a ela menos que a colegas homens, não a promoveu e a demitiu após ela reclamar de comportamento inapropriado por parte de um colega que teria a pressionado para terem um caso. Ela busca US$16 milhões em salários e compensações. A deliberação do júri começou na quarta-feira.

A discussão lançada pelo julgamento fará com que funcionários e diretores tenham mais consciência do preconceito que mulheres sofrem em seus empregos, segundo Elba Pareja-Gallagher, fundadora de uma organização sem fins lucrativos que promove igualdade de gênero no ambiente de trabalho.

Muitas mulheres “têm medo de falar”, e a decisão de Pao de processar a companhia pode fazer a diferença, segundo Pareja-Gallagher. “Ela foi muito corajosa em fazer isso”.

O número de mulheres ante homens está crescendo em muitas indústrias, mas elas ainda são minoria na área da tecnologia, a qual cada vez mais conduz a economia e onde o potencial financeiro é um dos maiores.

Esgotamento

Grandes companhias de tecnologia, incluindo o Google e a Apple, lançaram detalhes de suas folhas de pagamento no ano passado que mostraram que cerca de 30% de seus funcionários são mulheres, sendo que homens brancos e asiáticos estavam em maior número em cargos técnicos. A cultura de startups e investimentos no Vale do Silício também é altamente masculina: o número de mulheres sócias em capital de risco encolheu para 6% no ano passado, ante 10% em 1999, de acordo com uma pesquisa do Babson College.

“A paciência das mulheres está se esgotando”, disse Cranston.

O processo de Pao contra uma companhia de capital de risco é importante “porque vai atrás de um segmento de companhias que tipicamente não carrega tanta responsabilidade como as empresas maiores”, disse Rayona Sharpnack, diretora executiva do Institute for Women’s Leadership em San Rafael, na California.

“Isso pode ser uma porta de entrada para inovações lideradas pela próxima geração”, ela disse.

Sem perceber

Sharpnack e as outras mulheres estiveram em uma conferência em Nova York organizada pela Catalyst, uma organização sem fins lucrativos que luta por mais oportunidades para mulheres nos negócios. Em uma das sessões do evento, Mike Wirth, um vice-presidente executivo da Chevron, contou como uma vez havia selecionado homens brancos para uma equipe de nove gerentes. Ele simplesmente não percebeu a ausência de diversidade do grupo, ele disse, até funcionários de minorias e do sexo feminino apontarem.

Algumas das aacusações de Pao “não apontam a um comportamento inadequado recorrente”, disse Betsy Van Heckr, advogada corporativa de Minneapolis. Isso reflete “onde estamos como sociedade”, em uma época onde o preconceito é frequentemente inconsciente ou não-intencional, ela disse. “Isso leva a outras perguntas, como ‘as pessoas se encaixam?’”

Em vez de uma reclamação ou processo, muitas mulheres simplesmente mudam de emprego, frequentemente para outras indústrias. Isso certamente vai continuar a acontecer, disse Cranston.

“Mulheres têm opções hoje em dia”, ela disse.

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