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O julgamento que faz o Vale do Silício estremecer

A vitória de Ellen Pao não está garantida, mas seu caso vai ecoar na indústria da tecnologia por muito tempo

(SÃO PAULO) – Atualmente, um julgamento de descriminação de gênero comum – ainda que seja um com personagens extraordinárias – revela seu significado. No dia 27 e fevereiro, Ted Schlein, sócio administrativo da firma de capital de risco Kleiner Perkins Caufield & Byers, testemunhava sobre a funcionária com sete anos de casa Ellen Pao, de 45 anos, antes sócia minoritária, que alega que seu avanço na companhia foi prejudicado por uma atmosfera de sexismo predatório.

O advogado de Kleiner perguntou: Pao não havia reclamado repetidas avezes de ser instruída a sentar-se na outra ponta da sala, ao invés do centro da mesa, durante reuniões importantes?

Schlein se esquivou da acusação, notando que a era uma mulher de fora da companhia que havia escolhido os lugares nas mesas para uma reunião na qual Pao se sentiu menosprezada. Ele acrescentou: “eu realmente não acredito que isso seja uma coisa importante para nós quem senta em uma mesa e quem não senta”.

Sempre há duas histórias em qualquer grande julgamento: o caso em si, com seus fatos conflituosos, e a narrativa mais ampla – a forma como os fatos cabem nas vidas de milhões de pessoas do lado de fora da corte. O caso de Ellen Pao, agora em sua quarta semana em um tribunal de San Francisco, ressoa amplamente em ambos os níveis.

O julgamento se tornou a versão do Vale do Silício do testemunho de Anita Hill durante a audição de confirmação de Clarence Thomas na Suprema Corte em 1991. O Caso de Pao gira em torno de acusações de formas mais sutis de sexismo e assédio do que pelos pubianos em latas de Coca-cola – jantares apenas para homens, conversas machistas em aviões privados, e promoções que podem ou não ter sido negadas porque Pao era o que há de mais raro no mundo do capital de risco: uma mulher.

Quando Pao apresentou seu caso em maio de 2012, pouca importância era dada ao desequilíbrio de gênero em companhias de alta tecnologia e na Sand Hill Road, onde se encontra a indústria poderosa do capital de risco. Agora, companhias de tecnologia como a Apple, o Google e a Intel publicam anualmente números sobre desigualdade interna e gênero e publicamente dizem que farão melhor. Programas de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) para garotas, juntamente com conferências para profissionais do sexo feminino, se proliferaram. Uma quantia considerável de crédito pela mudança vai a Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook, cujo best seller LEan In: Women, Work and the Will to Lead, explorou as tensões inconscientes e às vezes auto-inflingidas do sexismo que seguram as mulheres. Se Pao vencer o caso, ela pode agradecer a Sandberg. O livro, com títulos de capítulos sinceros como “sente-se na mesa”, oferece a resposta final para Scahlein: claro que é uma coisa importante saber onde mulheres se sentam em reuniões.

Pao pede por US$16 milhões em danos, mas os desafios vão muito além de dinheiro. Na balança, há a reputação de alguns investidores mais estimados do Vale do Silício, incluindo John Doerr, apoiador do Google e da Amazon desde o início de suas atividades. Doerr provavelmente fez mais do que qualquer outro investidor de risco para trazer mulheres à Kleiner e evangelizar a favo de empreendedoras; como resultado, o diretório de parceiros da Kleiner parece muito mais diversificado do que clubes indefensáveis de homens em outras grandes companhias. Também no céu está o futuro de Pao, que é agora “CEO interina” do painel de discussões online Reddit. Ela é a única requerente, diferentemente de casos em que mulheres se uniram em grupos organizados para assumir bancos de investimentos, firmas de contabilidade e novas organizações. Fotógrafos cobrindo o caso passaram a fazer imagens diárias de sua caminhada matinal. Ela sempre está sorrindo e confiante, mas as fotografias mostram um ponto importante: Ellen Pao permanece sozinha.

Para ganhar, de acordo com a legislação do estado da Califórnia, Pao deve persuadir um júri de 12 pessoas que “seu gênero foi uma motivação substancial na decisão de” não a promover a parceira sênior, e, derradeiramente, acabar com seu emprego. Em um movimento incomum, o juiz Harold Kahn permitiu que o júri submetesse perguntas por escrito a cada uma das testemunhas. Suas perguntas para Pao, após o término de seu testemunho em 13 de março, eram duros: “por que você continuou a trabalhar em um ambiente que não confiava desde o início?”

Mesmo que ela não prevaleça, o julgamento ilustrou em um detalhe desconfortável uma conversa que muitas pessoas no universo dos negócios vêm tendo desde a publicação de Lean In. Sandberg ensinou pessoas no mundo dos negócios a considerar com cautela se as ideias de mulheres estão sendo recebidas tão abertamente como as de homens, assim como a garantir que funcionárias do sexo feminino têm permissão para falar sem interrupções frequentes. Ela colocou um destaque nas contradições exasperadas e sutis do local de trabalho, assim como o quanto homens são descritos como “confiantes” e “com qualidades de liderança”, enquanto mulheres com o mesmo tipo de comportamento são vistas como “mandonas” e “espaçosas”.

Agora temos Pao acusando Keiner de agir com a maioria desses padrões. Ela diz que ele falou que ela era muito passiva em nos conselhos de startups e Kleiner e muito quieta em reuniões com os parceiros da companhia, que eram dominadas por investidores do sexo masculino com experiência em machismo. Ao mesmo tempo, em relatórios de desempenho, ela era acusada de ser muito impetuosa e competitiva com colegas, enquanto uma outra parceira júnior – que também não foi promovida – foi criticada por falar de mais.

“A frustração que eu tenho é que comportamentos como eram aceitáveis em homens não eram aceitos em mulheres”, Pao testemunhou em 13 de março, em resposta a um jurado que questionou como ela classificaria seu comportamento no local de trabalho.

Isso repetiu Sandberg, que em janeiro escreveu no New York Times, com o professor Adam Grant: “quando uma mulher fala em uma posição profissional, ela anda numa corda bamba. Ou ela mal é ouvida, ou ela é julgada como muito agressiva. Quando um homem diz exatamente a mesma coisa, cabeças balançam em aprovação”.

O caso de Pao ilustra outros pontos de Sandberg, talvez intencionalmente. Ela alega que em 2007, ela inclinou a empresa a um investimento no Twitter e foi rejeitada, o que fez com que a Kleiner fizesse um investimento consideravelmente menos lucrativo em 2010, liderado por um homem.

Pao também levantou um incidente em que um dos parceiros sênior da firma, o ex-chair da HP Ray Lane, perguntou a ela e a outra mulher para tomarem notas em uma reunião de parceiros. “Eu simplesmente congelei. Não sabia o que fazer”. Sandberg fala dessa tendência perturbadora de gerentes a deixar o “serviço de casa” a mulheres. “Essas atividades não apenas tomam tempo de valor; elas fazem com que mulheres percam oportunidades”, ela escreveu em um artigo. “A pessoa que toma notas quase nunca toma a decisão principal”.

Kleiner claramente cometeu erros, mesmo se a corte decidir que ele não quebrou nenhuma lei. (O caso deve ir ao júri em 23 de março). Kleiner esperou muito tempo para demitir um parceiro homem que parecia estar tratando a empresa como seu sute de namoros particular. Ele promoveu colegas homens de Pao, apesar de seus recordes de investimentos não serem melhores do que os dela. E os tomadores de decisão mais importantes da companhia – um grupo de seis chamado comitê operacional – era feito inteiramente de homens.

Com todos esses ecos na sociedade, o caso será decidido pelo júri, composto por seis homens e seis mulheres.

O exame cruzado, liderado pela advogada de Kleiner Lynne Hermle, não teve piedade. Pao estava em um caso consensual com um colega de trabalho casado o qual, ela acusa, tornou sua vida profissional difícil após o término. O testemunho mostrou, entretanto, que ela inexplicavelmente fez lobby para o colega não ser demitido, mesmo após seu mentor, Doerr, estar aparentemente decidido sobre a dispensa do homem. Pao inclusive sugeriu em um e-mail que duas mulheres fossem demitidas no lugar de seu ex-amante.

Advogados de Kleiner também insinuaram que Pao estava planejando levar a empresa aos tribunais o tempo inteiro. Eles apontaram centenas de milhares de páginas de mensagens e lembretes internos que ela enviou a seu email pessoal. Em conversas iniciais, a firma apontou, ela demandou um pagamento de oito números. Quando perguntada por um jurado por que ela não considerou seriamente ir à mediação com seu ex-empregador, Pao respondeu “parecia que Kleiner queria um processo quieto e confidencial. Eu queria uma corte aberta onde pudesse contar minha história”.

Para um júri, tudo isso pode parecer um esquema indecoroso, ao invés de uma cruzada por justiça. Em determinado momento, Hermle perguntou a Pao se ela havia feito algo para promover a causa das mulheres na Kleiner Perkins ou em qualquer outra companhia que tenha trabalhado. Pao não teve uma boa resposta.

Toda essa história e testemunho seria o suficiente para o Vale do Silício falar no assunto por meses. Mas para uma noção de como o caso se tornou um momento definitivo, vale a pena indicar o material que o juiz Kahn indicou como inadmissível. Pao casou-se com o ex-gerente de fundos de hedge Alphonse “Buddy” Fletcher Jr., que processou um ex-funcionário e seu complexo e apartamentos por discriminação racial. Sua companhia, a Fletcher Asset Management, buscou proteção contra falência. Fletcher esteve anteriormente em um relacionamento com um homem, o que adiciona uma camada extra de drama ao conto. Se Kleiner perder o caso, certamente atrairá às bases o fato de que as circunstâncias financeiras de Pao são na verdade bastante relevantes.

Dito isto, uma vitória de Kleiner é algo bom na medida do possível. Muitas mulheres na indústria da tecnologia estão preocupadas que o caso de Pao seja fraco e que suas acusações põem exacerbar o preconceito no ambiente de trabalho. “Eu me preocupo que isso faça com que mais homens sintam que – sendo gentis e ensinando e tentando ser uma pessoa boa para com as colegas mulheres – eles, também, serão colocados na justiça”, diz Melinda Riechert, sócia no escritório de advocacia do Vale do Silício Morgan Lewis. Por exemplo, uma alegação chave no caso é a de que um sócio da Kleiner, Randy Komisar, se comportou de maneira inapropriada quando deu a Pao um livro com poemas e desenhos de Leonard Cohen no dia de São Valentin, e a chamou para jantarem uma noite em que sua esposa não estava na cidade. Komisar diz que isso foi amigável e que sua própria esposa comprou o presente a Pao. Teria sido apenas um gesto de gentileza? Os homens deixarão de ser gentis com suas colegas de trabalho mulheres?

Tracy DiNunzio, diretora executiva da Tradesy, um site de moda no qual Perkins investiu, diz que recentemente ouviu de um diretor executivo homem que ele não sabia mais como falar com colegas mulheres, e que agora é muito fácil dizer a coisa errada. O caso “pode tornar mais difícil para homens se sentirem livres para darem às mulheres as críticas construtivas que homens recebem regularmente e das quais se beneficiam”, diz.

Isso é o que ninguém quer: um passo para trás sobre mulheres no universo da tecnologia. A maioria das grandes empresas de tecnologia diz que menos de 30% de sua força de trabalho é composta por mulheres. Apenas 6% dos investidores em capital de risco são mulheres, uma queda ante 10% em 1999, de acordo com um estudo da Babson College. E estudos da Harvard Business Review de 2008 e 2014 descobriram que 50% das mulheres trabalhando em ciência, engenharia ou tecnologia sairão prematuramente por conta de ambientes de trabalho que consideram hostis.

Esses números são desencorajadores. Enquanto isso, mulheres que falam na internet, em painéis como o Reddit, operados pela companhia de Pao, continuam sendo assediadas e inundadas por abuso, incluindo ameaças de estupro anônimas, principalmente quando falam em igualdade de gênero.

O Vale do Silício vendeu ao mundo a promessa de igualdade na internet e emoldurou companhias que ajudaram a construir essa igualdade em meritocracias onde as melhores ideias ganham. O caso de Pao – e os anos em que ele se desenrolou gradualmente – puseram em dúvida essa noção e revelaram a tecnologia como uma indústria suscetível a preconceitos. Pao tentou ir contra essas contradições e isso a levou ao tribunal.

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