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Abalone vivo viaja 8.000 km para pratos de US$ 161 na China

Vivo, esse molusco marinho que custa 40 dólares australianos o quilo na Austrália muda de mãos por 60 dólares australianos o quilo em Hong Kong

Nas águas infestadas de tubarões ao largo da ilha australiana da Tasmânia, Dean Lisson passa cinco horas por dia mergulhando em busca de abalone.

Driblar os tubarões é o seu primeiro desafio. Levar a presa viva para os famintos consumidores chineses é o segundo.

Vivo, esse molusco marinho que custa 40 dólares australianos o quilo na Austrália muda de mãos por 60 dólares australianos o quilo em Hong Kong, disse Lisson. Sua carne fibrosa é um ingrediente cobiçado na tradicional culinária chinesa. A Cathay Pacific Airways Ltd., a Singapore Airlines Ltd. e a Qantas Airways Ltd. estão lotando o bagageiro com o fruto do mar na viagem de 8.000 quilômetros.

“Nós queremos levar esse produto ao mercado com a melhor condição possível”, disse Lisson, 53, por telefone, de Hobart, capital da Tasmânia. “O produto vivo está no topo dos alimentos premium: é preciso cuidar dele”.

A Austrália envia cerca de 1,6 bilhão de dólares australianos (US$ 1,3 bilhão) em alimentos ao exterior por avião por ano, o que transforma a categoria na mais exportada do país por via aérea depois do ouro e dos medicamentos. O comércio de abalone e de lagosta, por si só, foi avaliado em cerca de 761 milhões de dólares australianos no período de 12 meses que terminou em junho, segundo dados do governo -- um incremento de cerca de 31 por cento em relação ao total de 581 milhões de dólares australianos registrado três anos antes. Aproximadamente 90 por cento dos frutos do mar do país são exportados por via aérea.

As exportações dos dois animais marinhos para a China têm um valor maior para a Austrália do que as de vinho ou produtos lácteos, segundo a Abalone Council, uma associação do setor. As empresas exportadoras se beneficiarão ainda mais com um acordo de livre comércio assinado em novembro, que até 2018 reduzirá a zero as tarifas de 15 por cento aplicadas pela China.

20 toneladas
O acordo “abrirá o mercado para nós”, disse Nigel Chynoweth, gerente de cargas da Cathay Pacific para a Austrália, em entrevista por telefone no dia 4 de dezembro, por permitir que a transportadora abasteça cidades menores nas regiões oeste e nordeste da China a partir do hub em Hong Kong.

Atualmente, a Cathay transporta, por voo, até 20 toneladas de lagostas com saída do aeroporto de Perth, segundo ele. Para transportar frutos do mar, a empresa cobra quatro a cinco vezes mais do que para transportar frutas ou vegetais, acrescentou. O crescimento das exportações vem sendo impulsionado pelo aumento da riqueza dos chineses, pela mudança dos gostos dos consumidores e pelas melhorias na cadeia de abastecimento por via aérea, disse ele.

O abalone é um ingrediente cobiçado na culinária chinesa -- juntamente com a barbatana de tubarão, o pepino-do-mar e a ova de choco, entre outros, é um dos nove frutos do mar descritos em “Jardim do Contentamento” (tradução livre), um clássico da culinária escrito por Yuan Mei, poeta e gourmet do século 18.

‘Processo complicado’
A variedade mais valorizada ainda é o abalone seco produzido perto do porto de Dalian, no norte da China, segundo Mark Wang, sub-chef-executivo de cozinha do Fairmont Peace Hotel, em Xangai.

O Fairmont Peace serve abalone australiano fresco marinado em óleo de soja e alho como parte de um cardápio de 1.000 yuans (US$ 161). É “como uma vieira, mas um pouco mais duro”, disse ele. Pratos individuais com abalone seco custam cerca de 800 yuans cada, disse Wang.

Na fábrica da Tasmanian Seafoods Pty. em Margate, ao sul de Hobart, o abalone fresco trazido da praia é colocado em tanques por alguns dias para se recuperar após ser capturado, disse Darvin Hansen, gerente-geral da empresa, por telefone no dia 4 de dezembro. Depois disso, é disposto em caixas de poliestireno com água e gelo e enviado ao aeroporto.

“Se você economiza tempo com o transporte, você tem como resultado uma mortandade menor”, disse Hansen. “É muito importante reduzir o tempo de viagem. Eles chegam no aeroporto apenas com tempo suficiente para serem embarcados no avião”.

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