Para onde vão o FED e os mercados globais?

Após a sinalização da ADP, de quarta feira, de que o mercado de trabalho havia criado menos de 200 mil vagas, o resultado apurado pelo Departamento do Trabalho dos EUA surpreendeu, com 255 mil vagas criadas. Se, de um lado, melhora a percepção em relação à saúde da maior economia do planeta, por outro, também aumenta a aposta de que o FED poderá subir os juros no mês que vem.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Após a sinalização da ADP, de quarta feira, de que o mercado de trabalho havia criado menos de 200 mil vagas, o resultado apurado pelo Departamento do Trabalho dos EUA surpreendeu, com 255 mil vagas criadas. Se, de um lado, melhora a percepção em relação à saúde da maior economia do planeta, por outro, também aumenta a aposta de que o FED poderá subir os juros no mês que vem.

O Departamento do Trabalho dos EUA divulgou hoje que foram criadas em julho 255 mil vagas de trabalho. Somente as vagas do setor privado foram de 175 mil[i] e as estimativas de Wall Street foram amplamente superadas. A taxa de desemprego, no entanto, subiu, de 4,8%, para 4,9%, refletindo que, se as vagas aumentaram, a quantidade de gentes procurando emprego também aumentou. Veja o gráfico abaixo, da Força de Trabalho dos EUA:

O percentual de pessoas trabalhando ou procurando emprego, Força de Trabalho, em relação ao total de pessoas em idade de trabalhar, caiu fortemente desde a crise de 2008-2009. De um total de 66% na Força de Trabalho, hoje temos 62,8% no mês passado. Mas esse percentual estava pior em maio e junho, melhorando no mês passado. Esse número é importante porque indica a disposição das pessoas em procurar trabalho quando estão desempregadas. Se o mercado de trabalho está muito ruim, as pessoas tendem a desistir de procurar emprego. Se, ao contrário, o mercado melhora, elas voltam a procurar uma vaga de trabalho. E é o que está acontecendo desde o pior momento, em maio. E se esse número sobe, a taxa de desemprego tende a subir.

Mas também é verdade que se a taxa de desemprego caiu de 10% em 2009, para os atuais 4,9%, parte importante dessa queda é devida é queda da participação da Força de Trabalho. Ela caiu 3,5% nesses anos, nos dizendo que se todos os que estavam trabalhando ou procurando emprego em 2008, estivessem presentes no mercado de trabalho atual, a taxa de desemprego seria de 8,4% e não de 4,9%. Os números, olhando por esse ângulo, não são tão animadores assim. As coisas pioram se levarmos em conta que boa parte das vagas criadas a partir da crise foram em empregos de baixa qualidade, com jornadas parciais e baixa produtividade.

Assim, ainda que a criação de trabalho seja robusta, ela não deu conta de repor à economia dos EUA todo o vigor que tinha antes da crise e, tampouco, permitiu ao mercado de trabalho criar pressões inflacionárias na economia.

Mas, mesmo diante dessa constatação, que vem das análises de uma parte importante da diretoria do FED, o mercado vai ler essa melhora na criação de vagas como um incentivo à alta dos juros no mês que vem. E se os juros subirem no mês que vem, podem causar algum transtorno nos mercados acionários, de títulos e de moedas (https://www.newf.com.br/analises/posts/os-mercados-estao-realizando-e-devem-voltar-a-subir ).

A melhora do mercado de trabalho implica em uma visão ambígua por parte dos analistas e traders: de um lado mostra melhores condições da economia e, portanto, maiores lucros, mas, de outro, sinaliza a possibilidade de elevação dos juros, o que aumenta o desconto sobre os preços atuais.

A situação global coloca desafios constantes para a configuração de cenários. É isso que gera mudanças constantes das expectativas e, com elas, variações nos preços praticados nos mercados financeiros e de capitais. Em um ambiente como o atual - que junta a possibilidade do fim de crise em algumas economias (EUA e emergentes) e seu aprofundamento em outras (União Europeia e Japão) – a alternância constante do otimismo e do pessimismo podem aumentar. Essa alternância produz fortes oscilações dos preços e isso significa aumento da volatilidade e também dos riscos percebidos pelos agentes. Porém, com taxas de juros próximas de zero, esses riscos percebidos não podem aumentar muito, já que a enorme oferta de moeda impede que os preços caiam em espiral. Olhando o índice VIX, que mede a variação dos preços das ações[ii] é é um dos melhores indicadores de risco do mercado acionário dos EUA, notamos o trabalho feito pelos juros baixos:

Note que ela está em quase 12%, um patamar historicamente baixo. E não está aí porque os agentes estão muito confiantes, vendo poucos riscos. Está aí porque os juros baixos não dão espaço para queda dos preços.

Enquanto os BC´s se mantiverem na limite mais baixo dos juros, ainda que o FED suba um pouco os seus, é difícil imaginar uma mudança brusca do cenário.

 


[i] Note que as vagas do setor privado representaram 85% do total de vagas. O setor público é um grande empregador, sendo que o Departamento de Defesa é o maior empregador global, com de 3,2 milhões de empregos diretos. Isso representa cerca de 2,2% do total de trabalhadores empregados no país. Se considerarmos que cada emprego direto tem a capacidade de geração de outros dois empregos no setor privado (serviços e indústria), 6,6% da força de trabalho dos EUA é dedicada à Defesa.

[ii] Ele é um indicador sintético da variação dos preços das ações, calculado a partir da volatilidade das opções das principais ações dos EUA.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com