Brasil: um bananal automotivo?

Carros que oferecem pouco e custam muito, tanto para comprar como para manter. Gastos em elevação. Exigências e complicações impostas pelo governo. Retrocessos impressionantes. Entenda mais a preocupante e caótica realidade dos veículos no Brasil.
Blog por Leandro Mattera  

O termo “República de Bananas” surgiu inicialmente para se referir, de modo pejorativo, a países da América Central marcados por instabilidade institucional, política e econômica, além de serem dependentes da exportação de produtos primários.

Focando no setor automotivo no Brasil atual, há vários fatores indicando que estamos presenciando uma situação caótica, marcada por retrocessos, complicações e aberrações que afetam brutalmente os consumidores. Neste artigo aqui no Blog seu Carro e seu Bolso, você vai descobrir, inclusive, um exemplo alarmante de como estamos vivendo algo parecido com o que aconteceu nos anos 70 (mesmo envolvendo carros considerados de luxo)!

Vamos, então, percorrer esse cenário surreal. Para começar, não há como ignorar que os preços para comprar e manter os carros continuam estratosféricos (ainda mais com a tendência de queda de renda e aumento do desemprego). Todos nós estamos sentindo isso na pele no dia a dia, e basta ler os comentários nas notícias automotivas para notar o justo grau de revolta da população.

Com a intensificação da crise econômica (que eu prefiro chamar de "colapso") as pressões decorrentes da alta da inflação, do dólar e dos juros estão dificultando cada vez mais as compras de veículos zero quilômetro.

Mesmo com a queda das vendas, o quadro acima descrito contribui para que as fabricantes permaneçam reajustando seus preços (embora tenham ocorrido algumas reduções meramente pontuais). Isso tem afastado os consumidores, que têm caminhado cada vez mais na direção dos carros usados, aquecendo esse mercado. 

Existe um outro aspecto a considerar. Além de caríssimos, a maioria dos carros zero quilômetro deixa bastante a desejar em termos de itens de série. Paga-se muito e leva-se pouco, e essa realidade foi brilhantemente satirizada neste vídeo humorístico (clique para assistir).

Como tem sido bastante noticiado, as taxas de juros seguem batendo recordes, o que compromete a vida de quem precisa de financiamentos para a compra.

O que dizer, então?

E o que dizer de situações como a que envolveu a exigência de extintores ABC, recentemente revogada depois de muitas pessoas terem pagado caro pelo equipamento? Lembrando que essa situação esdrúxula já havia ocorrido no passado em relação aos famigerados kits de primeiros socorros.

E o que dizer das novelas, com idas e vindas, envolvendo a inspeção veicular em algumas cidades como São Paulo?

E o que dizer das absurdas reduções de velocidade em ruas, avenidas e estradas, estabelecendo limites completamente impraticáveis e injustificáveis? E o que dizer do aumento no número de radares estrategicamente posicionados nesses casos?

E o que dizer da implementação sem planejamento (frise-se a falta de planejamento) de ciclovias e corredores de ônibus que inviabilizam e dificultam o trânsito de carros e pedestres, mesmo em cidades em que não existia a necessidade efetiva dessas medidas?

E o que dizer do estado de conservação das ruas e estradas, mesmo com os altíssimos valores referentes ao IPVA? Aliás, recentemente, alguns brasileiros mostraram as diferenças assustadoramente gigantescas entre os valores pagos no Brasil e nos Estados Unidos. Neste vídeo (clique para ver), você vai entender como um McLaren pode pagar bem menos de IPVA do que um simples carro popular no Brasil.

E o que dizer de carros que custam mais de R$ 100 mil reais e sequer oferecem controle de estabilidade (ESP), como o Toyota Corolla Altis, item obrigatório em grande parte dos países desenvolvidos?

E o que dizer de carros nacionalizados que perdem itens de segurança, como airbags laterais e de cortina, além de terem resultados inferiores em teste de colisão (como os promovidos pelo Latin NCAP)?

E o que dizer da substituição de carros com projetos globais (semelhantes aos vendidos nos países de primeiro mundo) por outros apenas destinados a mercados emergentes, como foi noticiado (link da matéria) em relação ao futuro do Ford Fiesta?

E o que dizer de carros que já possuem inclusive duas novas gerações comercializadas no exterior e ainda permanecem à venda no nosso mercado, como o Hyundai Tucson?

E o que dizer de concessionárias e outros estabelecimentos que, em muitos casos, tentam oferecer serviços desnecessários e cobram altíssimo por trabalhos que, muitas vezes, possuem qualidade duvidosa?

E o que dizer do fato de que, a cada 2,5 minutos, um carro é roubado no país, como foi recentemente divulgado?

Seria possível alongar bastante esses questionamentos, mas agora gostaria de comentar um caso que, na minha visão, é emblemático para mostrar o quanto estamos ficando (bem) para trás.

Algo dos anos 70 que se repete em 2015, 2016...

Conforme é relatado no site Best Cars, no início dos anos 70, a Ford estava decidindo entre alguns carros qual seria fabricado no Brasil. Na disputa estavam o Maverick e o Taunus. Em clínicas realizadas, os consumidores optaram pelo Taunus. Porém, esse carro necessitaria de um novo motor e utilizava suspensão traseira independente. Esse último item encarecia demais o projeto e, por conta desses fatores, optou-se pelo Maverick, que no início usava alguns componentes do Aero-Willys, possuindo a suspensão traseira por eixo rígido.

Pois bem, agora pegando o nosso Delorean e voltando para 2015, vamos ver como andam os projetos nacionais? De modo espantoso, as notícias revelam que as novas versões produzidas no Brasil do Volkswagen Golf e o Audi A3 (sim, um Audi) vão ser equipadas com suspensão traseira por eixo de torção no lugar da suspensão multilink existente nas respectivas versões importadas. É preciso falar algo mais? Talvez apenas que o primeiro carro nacional a ter suspensão por eixo de torção na traseira foi o VW Passat, em 1974.

Conclusão:

Os desafios envolvendo a escolha de qual carro comprar se multiplicam no Brasil, inclusive porque praticamente todos os gastos com manutenção estão em elevação. Com a redução de custos na produção e aumentos nos preços dos carros zero quilômetro, há muitos carros à venda que não valem, nem de longe, o que custam.

Para quem dá valor ao seu dinheiro, é essencial realizar compras baseadas em sólidos critérios, como por exemplo os que são apresentados no livro “Como Escolher o seu Carro Ideal”, de minha autoria. Além de focar em pontos como as reais necessidades, a qualidade do projeto e a segurança oferecida, é fundamental elaborar um bom planejamento financeiro, considerando todos os impactos que os carros trazem ao longo do tempo.

O cenário é realmente desafiador considerando todos os pontos comentados, mas também vale lembrar que mudanças de atitude, por parte de consumidores e cidadãos, poderão (ainda que gradativamente) gerar alterações no futuro. Por isso, nossas ações precisam ser cada vez mais responsáveis.

Foto: 123RF.com

PS: Para facilitar o controle de gastos do seu carro, atendendo a pedidos de leitores, eu elaborei uma planilha completa e de fácil preenchimento. Acredito que é uma ferramenta bem interessante para administrar o seu orçamento. Você pode baixá-la gratuitamente agora no seguinte link:

http://bit.ly/PlanilhaCarro

Muito obrigado pela atenção, um grande abraço e até a próxima!

Leandro Mattera

Consultor automotivo pessoal na Carro e Dinheiro e autor do livro digital “Como Escolher o Seu Carro Ideal”.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Fundador e consultor da Carro e Dinheiro - Consultoria Automotiva Pessoal. É autor do livro digital "Como Escolher o seu Carro Ideal" e acompanha os mercados automotivo e financeiro há mais de uma década.
consultor@carroedinheiro.com.br