Carros: O Sistema Atual está Definitivamente Esgotado

A queda nas vendas e a crise generalizada no setor automotivo tendem a se agravar ainda mais, caso não ocorram profundas mudanças na conjuntura brasileira
Blog por Leandro Mattera  

O colapso do setor automotivo brasileiro está caminhando em ritmo acelerado. De acordo com os últimos dados da Fenabrave, as vendas de carros caíram 24,3 % em abril, sendo que nos quatro primeiros meses do ano a queda acumulada foi de 18,03%.

Aliás, para mostrar o contraste entre o que acontece no Brasil comparando com o restante do mundo, acaba de ser divulgado, na mídia internacional, que as vendas de carros na Itália cresceram, coincidentemente, impressionantes 24% em abril. Portanto, qualquer desculpa relativa à suposta crise internacional deve ser afastada de imediato.

Atualmente, as notícias sobre a crise automotiva no Brasil proliferam no noticiário. Mas será que isso tudo não era previsível? Na minha visão, sempre foi bastante nítido que chegaríamos a esse cenário, e acredito que ainda estamos nos estágios iniciais de uma crise que deve se intensificar, caso sejam mantidos os atuais aspectos relacionados com a política e economia no Brasil, bem como o modelo de comercialização adotado pelas fabricantes.

A previsão que se concretizou

Aliás, mantenho esta opinião há bastante tempo e, num artigo publicado no Dinheirama.com em abril do ano passado (2014), eu já comentava os fundamentos da crise que viria. O título do texto era “Carros: o Mercado na Direção de uma Crise” ? (clique para ler)

Como essa análise ainda permanece, bastante atual, convido você a ler clicando no link acima. Naquela ocasião, eu mencionei que:

“Nesse cenário de mudanças que impactam diretamente nos hábitos de consumo, creio que serão necessárias significativas mudanças envolvendo os protagonistas do mercado, que são a indústria automotiva e o governo. Essa conclusão leva em conta o fato de que o atual modelo parece dar sinais de exaustão e meras promoções, incentivos, reduções pontuais de impostos e de taxas de financiamento, provavelmente não surtirão efeitos significativos para promover a retomada sustentável das vendas.”

Em rápida síntese, os principais aspectos que justificavam a minha visão estavam relacionados com as intervenções governamentais que seguiram a crise de 2008 e geraram, artificialmente, um sobreconsumo.

Com a redução do IPI e a diminuição dos juros, muitas pessoas anteciparam suas demandas futuras, endividando-se e criando um “boom” insustentável nas vendas. Por conta dessas distorções no mercado, também começaram a ocorrer elevados investimentos para o aumento da capacidade de produção, muitos dos quais podem ser classificados como “maus investimentos”, tendo em vista a tendência de aumento da capacidade ociosa.

Complementando, todas as tendências, que eu visualizava na época, se efetivaram e agora também ficam mais evidentes. Elas envolviam aumento da inflação, dos juros e dos preços dos carros novos, bem como maior procura por carros usados e tendência das pessoas ficaram por mais tempo com os carros.

A crise em andamento, rumo ao colapso:

Considerando os aspectos mencionados acima, é possível concluir que a queda nas vendas não é algo circunstancial. A tendência é de agravamento e não há, no horizonte, nenhuma perspectiva concreta de “gatilho” que possa alterar esse quadro (salvo se houver grandes mudanças conjunturais no Brasil).

No momento, estamos vendo as fábricas com elevada capacidade ociosa. Por exemplo, a Volkswagen acaba de anunciar que vai paralisar a produção na planta de São Bernardo do Campo por 10 dias e vai dar férias coletivas para 8 mil trabalhadores. Antes, a empresa já havia suspendido a produção na fábrica de Taubaté.

Outras fabricantes seguem o mesmo caminho, adotando várias modalidades possíveis para redução da produção e afastamento temporário dos empregados. Algumas já iniciaram demissões, inclusive. Aliás, o quadro de desemprego é mais acentuado nas empresas fornecedoras de componentes para as montadoras, bem como nas concessionárias. Na rede de vendas, pode ser inclusive que, até o fim do ano, 10% das concessionárias sejam fechadas, segundo a própria Fenabrave, ocasionando a demissão de 35 a 40 mil pessoas.

Em função desse contexto, já começam a surgir outros sinais. A idade média da frota, por exemplo, voltou a subir após sete anos de queda.

Do lado dos consumidores, a situação é bastante preocupante e as tendências acima citadas vão se intensificando. A venda de carros usados, por exemplo, registrou alta de 2,3% nas vendas no primeiro trimestre. Aproveitando para ampliar as comparações do Brasil com o exterior, confira também este vídeo surpreendente sobre os preços que os brasileiros pagam nos seus carros em Londres

Com o orçamento mais apertado, em função do endividamento (o percentual de famílias endividadas subiu para 61,6% em abril, de acordo com a CNC) e por conta do expressivo aumento da inflação, as pessoas começam a ter mais cautela na hora da escolha do carro. Isso fica bastante claro na postura dos clientes que atendo na minha consultoria automotiva pessoal.

Além disso, a alta da Selic impacta na concessão do crédito, que se torna mais caro e difícil de ser obtido. Com a economia em estagnação, também diminuem a confiança dos empresários e principalmente dos consumidores, que também começam a ser afetados pelo aumento do desemprego.

E para coroar todo esse processo, as fabricantes continuam reajustando os preços de tabela dos carros em ritmo forte, gerando alguns casos realmente impressionantes, como de carros compactos acima dos R$ 70 mil, populares 1.0 acima dos R$ 50 e sedans médios batendo na marca dos R$ 100 mil.

E sempre é bom lembrar que os demais custos relativos ao período de propriedade com o carro também estão em elevação, como destaquei no artigo “Carros: os preços estão explodindo. Você está preparado?”(clique para ler)

Conclusão:

Evidentemente, existem várias diferenças nas formas como determinados segmentos, marcas e regiões estão sendo afetados. Mas, considerando os fundamentos e aspectos históricos que levaram à atual crise, as perspectivas não são animadoras.

Levando em conta todos os pontos analisados no artigo, fica evidente que a crise só tende a se acentuar aceleradamente. O modelo de vendas dos carros no Brasil está exaurido, em grande parte por conta da total insustentabilidade do artificial crescimento das vendas que ocorreu desde o ano de 2008.

Somente mudanças drásticas podem alterar esse contexto, e novamente friso que atitudes pontuais, como descontos e promoções, não devem ter efeito significativo. Enquanto isso, reiterando o que defendo no meu livro digital, é cada vez mais importante que os consumidores realizem escolhas conscientes na hora de trocar ou manter seus carros, planejando com o máximo de eficiência os impactos financeiros.

Muito obrigado pela atenção, um grande abraço e até a próxima!

Leandro Mattera

Consultor automotivo pessoal na Carro e Dinheiro e autor do livro digital “Como Escolher o Seu Carro Ideal”.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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