Carros 1.0 custando mais de R$ 50 mil: início de uma (triste) tendência?

Depois de uma sequênica de reajustes, os preços dos carros começam a atingir patamares ainda mais preocupantes. O que vem pela frente?
Blog por Leandro Mattera  

Historicamente os carros são caríssimos no Brasil, tanto para comprar como para manter. Como se isso não bastasse, o atual cenário econômico e automotivo pode trazer ainda mais significativos impactos financeiros nos bolsos dos brasileiros.

Nesse sentido, recentemente tivemos a divulgação de uma notícia emblemática acerca do preço do Volkswagen Up! 1.0, que em algumas de suas versões mais completas pode superar a marca dos R$ 50 mil. Essa notícia causou muitas discussões e, como pode indicar o início de uma tendência, é importante refletir a respeito.

Inicialmente, vale lembrar que a onda dos carros 1.0, considerados “populares”, começou no governo Fernando Collor, por conta de incentivos tributários com a redução do IPI para carros com essa cilindrada. O Uno Mille foi o pioneiro e outras marcas seguiram a tendência, mesmo sendo evidente que carros mais pesados como Escort e Chevette teriam desempenho sofrível.

Além disso, as condições de rodagem no Brasil nunca foram favoráveis a esses motores, levando em conta a topografia variada e as precárias condições de nossas vias.

Em função do preço de compra mais acessível, no entanto, os carros 1.0 foram ganhando cada vez mais espaço. Em 2002, o presidente Fernando Henrique estabeleceu um novo escalonamento tributário, mas ainda assim permaneceram bastante atrativos, mesmo com muitos modelos apresentando projetos defasados e uma ruim relação peso/potência.

Aliás, em determinadas épocas surgiram boatos de que novos projetos, como o "Arara Azul" que deu origem ao Celta, estabeleceriam novos marcos de preços bem mais acessíveis. Como sabemos, porém, isso nunca se concretizou na prática.

Com o (artificial) crescimento do nosso mercado após a crise de 2008, aos poucos, os 1.0 foram perdendo um pouco do mercado em função das novas exigências de consumidores em suposta ascensão social.

A partir de 2014, muitos projetos obsoletos de carros 1.0 foram obrigados a deixar o mercado em função da exigência legal de airbag duplo e freios ABS. A partir daí e com a chegada de outras marcas no segmento, começaram a surgir projetos mais modernos, inclusive contando com motores de 3 cilindros. As inovações têm contribuído, ainda que timidamente, para o oferecimento de mais segurança e economia, como é o caso do próprio VW Up!.

Agora será que isso justifica o preço de um carro 1.0 acima dos R$ 50 mil?

Como já foi exposto aqui no Blog Seu Carro e Seu Bolso, no artigo "Carros: por que eles pesam tanto no seu bolso?", há uma série de fatores que influenciam nos altos preços aqui praticados.

Aliás, quando realizamos a correção dos preços praticados no passado, é comum percebermos que em alguns casos eram ainda mais caros, por mais surpreendente que isso possa parecer.

Mas analisando apenas o contexto atual e a renda do povo brasileiro, é evidente que os preços estão em níveis estratosféricos. Mais do que isso, é bastante provável que, infelizmente, estejamos presenciando o início de uma nova era com preços de carros populares 1.0 superando a faixa dos R$ 50 mil.

Os leitores bem informados sabem que o cenário e as perspectivas econômicas não são favoráveis. Afinal, temos dólar, juros e inflação em alta. Outro custo que também está em elevação refere-se à energia elétrica, que impacta bastante no processo produtivo do veículo. Isso pode ser ainda mais grave na hipótese de racionamento.

Levando em conta que até aqui a maioria das fabricantes têm optado pela preservação de suas margens e promovido reajustes consecutivos (mesmo com o quadro de queda nas vendas), a princípio provavelemnte teremos novas elevações de preços. Como já existe um carro pioneiro nessa nova faixa de valor, talvez esse precedente poderá servir como referência para outras marcas.

Finalmente, é fundamental destacar que o segmento dos populares, que é o de entrada e com maior participação nas vendas, também serve como balizador para o posicionamento dos carros de segmentos superiores. Por conta disso, também poderemos presenciar em breve carros médios superando a marca dos R$ 100 mil reais, o que é extremamente preocupante.

Conclusão:

A cada dia torna-se mais fundamental a existência de um consistente planejamento financeiro para a escolha de qual carro comprar, considerando que cada categoria e cada veículo específico trazem impactos muito diferentes. Para as pessoas que já possuem um automóvel, é recomendável manter um sólido controle financeiro, até por conta do fato de que os demais custos não param de subir, como destaquei em detalhes no artigo: “Carros: os Gastos estão Explodindo! Você está preparado?”

Nos últimos anos, por conta de incentivos governamentais e ausência de educação financeira, muitos consumidores adquiriram veículos além de suas condições, o que vai ficando cada vez mais nítido. Na maioria das vezes, o foco apenas no preço da parcela agora se traduz numa "ginástica financeira" para manter o veículo.

Esse tipo de comportamento torna-se cada vez mais insustentável e inapropriado diante do cenário atual. Afinal é altamente provável que outros carros 1.0 comecem a atingir o patamar dos R$ 50 mil.

Apenas para dar uma noção de perspectiva, isso se torna ainda mais alarmante quando lembramos que “quase 70% dos brasileiros têm renda de até 790 reais por mês”, tal como noticiado na Revista Exame.

As decisões de consumo que trazem grandes impactos financeiros precisam ser conscientes e de acordo com prioridades bem definidas, tal como procuro detalhar no meu livro digital, o “Como Escolher o Seu Carro Ideal”. O momento requer inteligência automotiva e financeira.

Muito obrigado pela atenção, um grande abraço e até a próxima!

Leandro Mattera

Consultor automotivo pessoal na Carro e Dinheiro e autor do livro digital “Como Escolher o Seu Carro Ideal”.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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