A visão dos americanos sobre a situação atual do mercado brasileiro

Fomos até Nova Iorque com um grupo de alunos para conversar com participantes do mercado. Na própria NYSE tivemos a oportunidade de conversar com Jim Cramer e ele resumiu bem a percepção dos investidores americanos sobre o Brasil:
Blog por Leandro Ruschel  

Era um dia cinza e frio em Nova Iorque, com o inverno teimando em não sair de cena e dar espaço a temperatura mais amena da primavera.  Estávamos aguardando os últimos dois alunos do grupo chegarem para entrarmos no templo do capitalismo, a Bolsa de Valores de Nova Iorque, a NYSE. O esquema de segurança é fortíssimo, graças aos atentados de 11 de setembro. Desde então as visitas estão fechadas ao público e só acontecem por convites especiais.

Era o quarto dia de um curso presencial sobre o mercado americano promovido pela Liberta Global (www.libertaglobal.com), onde um grupo de 10 alunos estava prestes a conhecer o interior da NYSE, a Bolsa com mais de 200 anos de história.

Às 09 horas entramos no prédio após as checagens de documentos. Aguardamos um pouco até ter acesso ao floor, onde dezenas de market makers recebiam ordens e preparavam os leilões de aberturas para os seus papéis, antes da campainha esperada para às 09 horas e 30 minutos.

A equipe da NYSE que nos recepcionou apresentou a estrutura de negociação e falava de alguns dados da bolsa: mais de três mil ações listadas, 30 bilhões de dólares negociados por dia e  a crença da empresa na importância do controle humano sobre as negociações eletrônicas, diferentemente de outras bolsas.

O clima é positivo. Depois do crash de 2008, o mercado americano engatou 6 anos de bull market (tendência de alta) e duas semanas antes os principais índices haviam alcançado seus recordes históricos novamente.

Começamos a conversar sobre o mercado lantino-americano, que não poderia estar numa situação pior. Numa rodinha com funcionários da NYSE e brokers o rosto retorcido deles ao receberem a minha pergunta sobre Brasil dispensava palavras para explicar a opinião deles. O primeiro a falar foi direto ao ponto: “O populismo está acabando com o continente”. Outro colocou: “A grande questão é saber se o Brasil seguirá o caminho da Argentina e da Venezuela”. Os únicos elogios foram para o Peru e para a Colômbia, de qualquer forma mercados muito pequenos comparados ao Brasil.

Perguntei sobre Petrobrás. Novas expressões de desaprovação e colocações de surpresa sobre o tamanho da corrupção. Um broker resumiu: “...creio que todos sabiam que existia alguma corrupção na Petrobrás, mas ninguém imaginava que esses esquemas eram tão grandes.” De qualquer forma, não há expectativa de interrupção do programa de ADR’s da empresa, possibilidade que foi ventilada algumas vezes nos últimos meses.

Perguntei aos representantes da NYSE sobre a possibilidade de abertura de uma nova bolsa no Brasil. Eles colocaram que não se fala mais nisso há alguns meses e acreditam que esse projeto depende de uma retomada do mercado brasileiro. Várias empresas que haviam iniciado o seu programa de listagem na NYSE acabaram deixando o processo em stand-by.

Depois dessas conversas iniciais paramos de conversar para acompanhar a abertura do mercado. Estávamos a frente do estúdio da rede de TV CNBC, com apresentação ao vivo do âncora Jim Cramer, um dos apresentadores mais famosos em programas sobre o mercado financeiro, assunto que tem popularidade gigantesca nos EUA.

Após o sino de abertura, estávamos nos preparando para sair quando o nosso grupo é abordado pelo próprio Jim que estava saindo do estúdio. Aparentemente ele percebeu que estávamos conversando em português e perguntou se éramos brasileiros.

Após a afirmativa teve início um papo animado, onde ele disse que tinha descoberto que possuía muitos parentes no Brasil, mas nunca tinha conseguido ir ao país para encontrá-los. E emendou que pensa em talvez ir morar no Brasil quando se aposentasse.

Aproveitei o momento de descontração para fazer uma pergunta séria: se ele achava que estava na hora de comprar Brasil.

 

Novamente identifiquei a mesma expressão de negativa no seu rosto, com a confirmação verbal: “ainda não”. Mencionou os problemas da Petrobrás, em especial a sua necessidade de financiamento e elogiou a gestão da Vale, apesar de colocar o grande problema que a empresa enfrenta pelas fortes quedas no minério de ferro. Mesmo assim ele colocou que alguns anos atrás ninguém apostaria no México e o país tinha conseguido reencontrar o caminho do crescimento. Falou que ninguém acreditaria numa Colômbia com graves problemas de segurança e hoje é um país ótimo para investir. Ou seja, não seria tão improvável para o Brasil dar a volta por cima.

A opinião dele reforça a opinião de portfolio managers com que eu e os alunos da Liberta Global conversamos em NY. Nessas conversas ficou claro que o Brasil é visto como um mercado bem limitado e que serve para diversificar uma parte pequena da carteira dos grandes fundos.

E que em comparação a outros emergentes, estamos comendo poeira. Eles ressaltaram o tamanho do mercado interno brasileiro, mas os graves problemas de ineficiência econômica e falta de instituições.

Como bem disse uma das gestoras especializada em América Latina: “...o meu chefe perguntou por que o Brasil não seguiria o caminho da Venezuela. Apesar de saber que tal caminho ainda é pouco provável no país, não tive a mesma convicção e argumentos para defender o Brasil como já tive no passado.”

A instabilidade política é a gota da água para afastar os gringos. Vários colocaram que alocam no país aquilo que “precisam” alocar, pela diversificação das suas carteiras internacionais. Além disso, existe uma percepção que o país está barato, mas não barato o suficiente para correr um risco grande em termos de moeda.

Todos também colocaram que a saída de Dilma da presidência seria vista como algo muito positivo para o país se ocorresse dentro do ordenamento jurídico, como uma renúncia, impeachment ou cassação. E mais importante ainda:  o grande fiador desse governo é o Joaquim Levy e o seu ajuste fiscal. A saída dele do governo ou uma falha em produzir esses ajustes poderiam criar o fim das esperanças de dias um pouco melhores para a economia e para o mercado financeiro brasileiro.

Depois dessas conversas com os gringos aumentou a minha crença que apesar de talvez estarmos mais próximos do fim do que do início de um mercado de baixa para as ações brasileiras, ainda teria que piorar mais para poder melhorar. Usando a velha frase do Rotschild, ainda falta sangue nas ruas para que o mercado faça o seu fundo.

E dependendo dos desdobramentos da grave crise política, social e econômica que o país vive nem todo o sangue do mundo produziria uma melhora. É só olhar para a Venezuela para tirar tal conclusão. Por lá o sangue não é apenas metafórico e o bolivarianismo tão festejado pelo partido da presidente Dilma conseguiu alcançar um grau de destruição econômica e institucional que seria difícil de imaginar há alguns anos atrás. E para combater taxas altíssimas de rejeição o governo institui uma ditadura.

Dependendo do que acontecerá no Brasil daqui para a frente, ficará cada vez mais difícil para a gestora americana defender investimentos no país para o seu chefe. E quanto mais essa for a percepção dos gringos sobre os investimentos em ações verde e amarelas, menores as chances de uma retomada da nossa Bolsa.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Opera no mercado há 15 anos com estratégias desenvolvidas a partir da análise técnica e de métodos quantitativos. É fundador da Escola de Traders Leandro & Stormer, que já treinou mais de 40 mil alunos nos últimos 10 anos. leandro@leandrostormer.com.br