Uma nova leitura para dupla medo e ganância

Algumas reações emocionais que desafiam os traders já foram desvendadas por psicólogos e outros pesquisadores. Agora são os neurocientistas que estão desvendando as reações hormonais causadas pelas altas e baixas do mercado.
Blog por Leandro Ruschel  

Ultimamente a ciência evolui bastante no entendimento dos motivos que fazem os preços de ativos e derivativos financeiros passaram por ciclos de alta e baixa. Como os analistas técnicos já sabiam, o componente chave é o comportamento dos participantes do mercado e do público em geral. Essa nova área do conhecimento é chamada de finanças comportamentais. Sabemos que as pessoas são irracionais ao investirem por conta da sua auto-confiança excessiva, das respostas emocionais ao próprio movimento do mercado, da busca por padrões e sentido onde não há e do uso de crenças pré-estabelecidas para avaliar situações entre outras características psicológicas.

Agora temos uma nova área surgindo, com estudos feitos por sujeitos como John Coates, neurocientista e escritor do The Hour Between Dog and Wolf: How Risk Taking Transforms Us, Body and Mind”. O foco é na resposta biológica do corpo diante de decisões que envolvem risco. Ele fez estudos com participantes do mercado e descobriu que mercados de alta geram um aumento dos níveis de testosterona no sangue dos operadores, fazendo com que eles tomem mais risco. Quanto maior a recompensa após cada operação, maiores os níveis de testosterona, gerando um ciclo autoalimentado.

Quando o mercado passa por um crash, com fortes perdas dos participantes, um outro hormônio tem a sua concentração aumentada: o cortisol. Tal hormônio produzido pelas supra-renais tem efeito oposto, afastando as pessoas do risco de maneira excessiva, retardando a recuperação após crises.

Para um trader que opera de maneira mais frequente tais níveis hormonais podem ter variações brutais num curto espaço de tempo, impedindo a correta tomada de decisões no mercado.

O autor acredita que o mercado seria mais equilibrado caso houvesse um aumento da participação de mulheres e de homens mais velhos, pessoas que tem uma fração da testosterona que homens jovens têm. E também crê que nos próximos anos veremos mais dispositivos que farão o monitoramento em tempo real dos níveis hormonais, impedindo traders de tomarem decisões quando tais níveis atingem patamares elevados demais.

Além disso, ele sugere que traders e gestores em geral sejam remunerados não pelo resultado líquido das suas operações, mas sim pelo seu índice Sharpe. Ou seja, pelo retorno que eles obtêm em relação ao risco que tomaram.

Inclusive o autor participou de um longo estudo que mostrou que traders com menor índice Sharpe produziam resultados melhores sistematicamente, além de terem uma expectativa de vida maior no mercado. Além disso o autor percebeu que esse tipo de operador incrementava o seu resultado com a experiência, refutando inclusive a teoria dos mercados eficientes.

A minha experiência pessoal, operando o mercado há mais de 15 anos e observando de perto pessoas das mais diversas personalidades operando sugere que o estudo de Coates faz muito sentido. Também acredito que o controle mental pode ajudar a controlar tais níveis hormonais. Práticas como meditação, além do desenvolvimento de hábitos saudáveis, como exercícios e boa alimentação ajudam muito a obtenção do equilíbrio emocional necessário.

Um outro fato curioso surgiu dos estudos: pessoas casadas costumam ter uma oscilação menor nos seus níveis hormonais, especialmente nos níveis de testosterona. Portanto, se você quer melhorar os seus trades, tenha um relacionamento estável!

Cada vez mais podemos perceber que o sucesso no mercado não depende apenas de conhecimento profundo das possíveis estratégias mas também da capacidade de colocá-las em prática da maneira correta. E antes que alguém diga que a automação de estratégias é o segredo para evitar esse problema, posso relatar que já vi muitos que utilizam robôs nas suas operações simplesmente desligá-los depois de uma sequência negativa de trades ou então aumentar a exposição depois de uma sequência positiva.

Por mais que a tecnologia possa nos ajudar, ela ainda não tem a capacidade de corrigir todos os nossos defeitos.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Opera no mercado há 15 anos com estratégias desenvolvidas a partir da análise técnica e de métodos quantitativos. É fundador da Escola de Traders Leandro & Stormer, que já treinou mais de 40 mil alunos nos últimos 10 anos. leandro@leandrostormer.com.br