Mais Bolsa de Valores, menos bolsa família

As eleições de 2014 demonstram não apenas uma divisão política do país, mas a persistência de uma visão ideológica ultrapassada e perigosa. É preciso entender as raízes dessa visão e como ela pode ser modificada, favorecendo a criação da riqueza.
Blog por Leandro Ruschel  

O maior problema que o Brasil enfrenta não é a pobreza, a criminalidade, a falta de infra-estrutura, de atendimento médico ou de escolas. Essa situação caótica brasileira é apenas a evidência de algo mais complexo de resolver.

O nosso maior problema é cultural.

As nossas raízes são latinas. Carregamos no nosso DNA o gosto por um governo paternalista, que basicamente é decorrente da falta de responsabilidade pessoal. Até a nossa religiosidade coloca maior peso dos acontecimentos numa figura superior e oferece várias possibilidades de pedir perdão pelas falhas. “Se Deus quiser” isso muda algum dia.

Somos um povo “alegre” e “pacato” alguns dizem. Na verdade agimos de forma mais emocional e menos racional. Um povo pacato não produz 60 mil mortos por ano. A falta de responsabilidade e o medo de assumi-las pode ser visualizada nas leis que regem a sociedade, criadas milimetricamente para darem espaço a fuga das obrigações.

Observamos em países desenvolvidos uma cultura oposta, baseado na ordem e na responsabilidade individual. "Deus ajuda a quem se ajuda” é o lema. É um dever moral criar riqueza e a sua distribuição é uma decisão pessoal e louvável. É a moral protestante, o espírito do capitalismo.

Não é de se impressionar portanto que nesse tipo de sociedade tenha surgido a ideia de criar empresas e dividir a sua posse entre diversos donos, os acionistas. Desde os primórdios do capitalismo estava presente o risco. Rapidamente foi identificada a possibilidade de dividir os riscos entre investidores, assim dando condições ao surgimento de diversos projetos que de outra forma seriam impossíveis de serem realizados. Em caso do projeto dar certo, esses ganhos poderiam ser divididos entre os seus sócios.

Nasceu a Bolsa de Valores para facilitar a negociação desses títulos de propriedade. Muitos negociadores desses títulos não estavam interessados em investir de fato nas empresas, apenas em gerar ganhos através da negociação dos seus títulos. Mesmo com um objetivo não tão nobre, a especulação permitiu um grande crescimento do mercado, visto que agora os investidores poderiam a qualquer momento transformar as suas ações em dinheiro em caso de necessidade. Isso acabou trazendo mais investidores ao mercado, permitindo que ele cumprisse a sua missão principal: aproximar os investidores, aqueles que possuem poupança disponível aos empreendedores que viabilizam assim os seus projetos, criando produtos e serviços que revolucionam o seu tempo.

O livre mercado garante que nesse processo de competição constante aqueles que conseguem oferecer os melhores produtos e serviços aos consumidores ao menor preço possível sejam os grandes ganhadores, enquanto aqueles que falham nessa missão sejam deixados de lado. Por mais que um empreendedor esteja simplesmente buscando um objetivo pessoal, o lucro, num ambiente verdadeiro de livre mercado ele só alcançará esse objetivo se entregar a sociedade algum valor.

No mesmo momento que ocorreu o nascimento do capitalismo de mãos dadas com a Revolução Industrial Inglesa, surgiu também o seu maior opositor, o comunismo. Karl Mark observou o sofrimento dos trabalhadores daquela época, com longas jornadas de trabalho e mesmo o uso de crianças nas fábricas em contraste a crescente riqueza dos donos desses estabelecimentos e desenvolveu a sua filosofia com base na guerra entre as classes e na exploração. Fundamentalmente a sua visão de mundo sugere que a riqueza pode apenas ser alcançada pela exploração dos mais pobres através da concentração dos meios de produção e da bem-valia, a diferença entre o preço que o proletário vende a sua força de trabalho e o preço que o proprietário dos meios de produção consegue na venda do produto ou serviço produzido pelo proletário. Marx defende que o capitalismo representa uma fase da existência humana, que seria seguido por uma revolução do proletariado, que instauraria uma ditadura que posteriormente seria seguida pelo fim dos governos e a igualdade entre os homens, que viveriam portanto em paz para todo o sempre.

Muitos esquecem que apesar de realmente a vida nas fábricas inglesas no início da Revolução Industrial ser horrível, as pessoas do interior se direcionavam por livre e espontânea vontade as cidades industriais, fugindo da vida do campo que era muito pior.

A vida pré-revolução industrial era horrível, a expectativa de vida mal chegava aos 25 anos e começou a crescer fortemente após a industrialização. A verdade é que a partir da dinâmica de livre mercado, com a existência de um conjunto de regras claras e estáveis, gerando estabilidade política e certeza de cumprimento de contratos, os empreendedores conseguiram produzir de maneira cada vez mais eficiente. O princípio básico da Economia é que os recursos são escassos. A única forma de aumentar a riqueza da sociedade é aumentando a eficiência econômica, produzindo mais bens e serviços com os mesmos recursos. O gráfico abaixo mostra a evolução de expectativa ao longo da história. O ponto de inflexão basicamente marca o início da Revolução Industrial.

 

Já tivemos várias provas da inviabilidade da sociedade marxista e mesmo a falsidade das suas premissas. Por exemplo, se um empreendedor explora o trabalho dos proletários, por que existem tantos exemplos de empresas que quebram mesmo que os seus trabalhadores tenham recebido os seus salários ao longo do tempo de existência da empresa? E na economia moderna, onde um sujeito sozinho pode vender o produto do seu trabalho diretamente ao consumidor, sem nenhuma estrutura de empresa? Como explicar a criação de um software por um sujeito que o vende por bilhões de dólares? Quem ele explorou?

Sem contar a prova final e simples que Mises produziu, demonstrando que uma economia totalmente planejada é inviável. Como os dirigentes poderão definir alocação de recursos e metas de produção sem o mercado para determinar os preços corretos? Sem definição de preço final, não há como decidir de maneira eficiente a melhor alocação de recursos.

É por isso mesmo que um regime 100% marxista nunca tenha existido até hoje. Ele é inviável. O que existiu até hoje foram várias iniciativas para tentar chegar a esse regime, através de um capitalismo de estado, acompanhado de autoritarismo, mortes, pobreza e sofrimento generalizado. Foi assim na URSS, na China Maoísta, no Camboja, em Cuba e recentemente na Venezuela. Será que essa prova histórica não seria o suficiente para abandonarmos o projeto?

Mas o marxismo tem uma base psicológica e sociológica fortíssima: desde sempre houve uma diferença gigantesca entre as pessoas. Em qualquer época da história humana tivemos pessoas mais capazes que outras. Naturalmente essas pessoas são aquelas que concentram o poder e conseguem produzir mais riqueza.

O marxismo oferece uma válvula de escape aqueles que se sentem inferiorizados, pois assim eles podem colocar a culpa pela sua própria incapacidade no sistema. Sem contar o sentimento de inveja em relação aqueles que acumularam mais recursos e poder e o medo de ter que competir com eles.

Surge então um grupo na sociedade que se aproveita desse sentimento popular para oferecer uma solução: a revolução! A sua base de sustentação é a indicação dos ricos como os responsáveis pela existência dos pobres. O passo número um é a busca da “redistribuição” da riqueza através da retirada de recursos dos ricos para dar aos pobres. Quando esse processe é tentado, ele pode dar certo por um período, até ficar claro que não é a quantidade de moeda numa conta que define verdadeiramente a riqueza, mas a capacidade de criar algo útil aos demais.

Todo o sistema “democrático” moderno é baseado nessa premissa, através da cobrança de impostos. No final das contas percentualmente os pobres acabam pagando mais impostos, apesar disso não ficar evidente. E aqueles que realmente ganham com o arranjo são aqueles que sobrevivem de cargos que a máquina estatal oferece, especialmente os políticos, que são os que menos produzem para a sociedade em relação ao que oferecem em retorno. Obviamente que o Estado tem uma função estabilizadora, mas o seu tamanho é totalmente desproporcional hoje em dia.

Para quem está no poder e controla o estado, a tentação é muito grande. Por que não aumentar os impostos um pouco mais, para aumentar um pouco mais a influência e poder, para sugar um pouco mais daqueles que realmente produzem a riqueza? E o povão cai na falácia, especialmente se recebe algum benefício direto como o bolsa família. Criamos dessa forma um ciclo nefasto, onde quem não produz nada (políticos) , concentram mais poder e riqueza extraídos dos empreendedores (empresários, artistas, pensadores, inventores, cientistas ou qualquer cidadão que cria valor) e distribuem algumas migalhas para o povão (dependentes de bolsas de todo o tipo).

Nesse processo contam com ajuda de grandes empresários que se ligam ao governo para ter acesso ao dinheiro barato sem necessidade de passar pelo crivo do livre mercado (Bolsa BNDES, prestadores de serviços a estatais) e dos iluminados influentes que também contam com verbas estatais (artistas e jornalistas financiados com verbas públicas).

Apesar de termos exemplos de pessoas que usam o estímulo de bolsas e outros créditos subsidiados para se educarem e criarem uma condição melhor de vida através da sua capacitação, uma grande maioria segue na dependência eterna e viram massa de manobra.

Obviamente que uma melhora de vida sem a evolução individual não é sustentável e por isso observamos em todo o lugar que esse tipo de política foi adotada o crescimento da pobreza e a fuga daqueles que realmente criam a riqueza para outro lugar. A sociedade como um todo empobrece e alguns poucos ligados ao poder ficam super-ricos e cada vez mais poderosos. Cuba é um belo exemplo.

Se quisermos mudar o país de fato precisamos acabar com essas crenças equivocadas. Os pobres não existem por causa dos ricos. A pobreza é a condição básica do ser humano desde o início dos tempos. A riqueza é algo extraordinário que só ocorre quando um ser livre usa o seu esforço individual para criar algo novo e considerado útil e valioso por outras pessoas também livres. Geralmente isso só pode ser produzido por muito esforço individual dentro de um sistema onde o criador do “algo novo” possa ser recompensado pelo seu esforço, através de leis que garantam a sua propriedade num ambiente de moralidade.

Ao invés de incentivar o roubo (tirar de um sujeito para dar a outro), precisamos incentivar o esforço individual, o trabalho duro, a criatividade, o empreendedorismo. Idealmente os benefícios sociais devem ser baseados na caridade e reforçadas pelo mérito, não apenas uma forma de conseguir votos.

Precisamos de mais Bolsa de Valores e menos bolsa família.

Sei que serei acusado de “insensível” com os mais necessitados ou de falar a partir de uma condição confortável por ter mais posses, mas creio que o que ocorre é justamente o contrário. Cada vez que temos um empreendedor abrindo um negócio ou desenvolvendo um projeto de qualquer natureza, aí sim temos um sujeito combatendo a pobreza. Sempre que ouvir um sujeito falando em “justiça social”, há uma boa chance de ocorrer exatamente o contrário, pois ele está defendendo um sistema que até hoje na história só fez criar pobreza. O desastre só não acontece totalmente quando ele quer roubar dos empreendedores até o ponto de quase sufocá-los, como ocorre hoje.

O problema é que o partido no poder dá sinais de querer ir adiante na revolução marxista. O futuro do país depende do fracasso desse projeto.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Opera no mercado há 15 anos com estratégias desenvolvidas a partir da análise técnica e de métodos quantitativos. É fundador da Escola de Traders Leandro & Stormer, que já treinou mais de 40 mil alunos nos últimos 10 anos. leandro@leandrostormer.com.br