Economia em crise e bolsas subindo. Como pode?

Um erro comum cometido por muitos agentes de mercado é utiulizar dados atuais da economia para tentar prever o comportamento do mercado de ações no futuro. Veja porque é possível fazer o contrário: utilizar o comportamento das ações para prever a situação econômica futura. Além disso, comento as estratégias possíveis para utilizar num ambiente tão complexo e caótico.
Blog por Leandro Ruschel  

Tenho recebido dos meus alunos e leitores essa pergunta com frequência nos últimos dias, por isso resolvi escrever sobre o tema. Para compreender esse fenômeno temos em primeiro lugar entender a dinâmica dos preços em bolsa.

Enquanto os dados econômicos representam a situação da economia hoje ou até mesmo a situação da economia com alguns meses de atraso, os preços das ações negociadas em bolsa representam a expectativa dos agentes para o futuro. É muito comum que os índices de preço dessas ações caminhem à frente da economia real, causando essa dissonância.

Aí está um dos grandes perigos em utilizar notícias e dados do AGORA para tomar decisões de trade, visto que o mercado está precificando os acontecimentos mais prováveis no FUTURO. Em outras palavras, o mercado de ações brasileiro está precificando uma situação econômica melhor em alguns meses! Simples assim.

Claro que o AGORA pode influenciar a expectativa FUTURA, especialmente quando ocorrem fatos totalmente inesperados como um desastre natural, uma guerra ou a morte de um candidato presidencial, por exemplo. Charles Dow chamava esses fatos inesperados de atos de Deus.  E mesmo nesses casos o mercado pode fazer movimentos contrários ao que seria esperado. Por exemplo, uma guerra pode ser o trigger de um mercado de alta ou de um mercado de baixa.

Isso ocorre porque nós temos as melhores mentes do mundo e hoje os melhores softwares analisando cenários, traçando as maiores probabilidades e tomando decisões sobre o preço atual ser atrativo ou não em relação a um provável cenário futuro. Sem contar a atuação daqueles que tem uma informação privilegiada.

Além disso tudo, temos o efeito que o próprio movimento de preço exerce nos agentes. Explico: quando uma grande alta dos preços ocorre ela chama a atenção dos agentes e produz mais interesse de compra, num ciclo auto-alimentado. A mesma lógica pode ser aplicada aos movimentos de baixa.

Como se posicionar num sistema complexo como esse?

Existem várias possibilidades.

Uma delas é desistir de fazer qualquer previsão sobre a movimentação dos preços e simplesmente diversificar a sua carteira com ativos não relacionados e que sigam um índice, com os pesos de cada alocação dependendo do seu grau de aceitação ao risco e do horizonte de tempo do investimento. Por exemplo, um sujeito de mais idade e conservador pode alocar 90% da sua carteira em renda fixa, com 10% em renda variável. Um sujeito um pouco mais novo e com maior apetite pelo risco pode alocar 50% em renda variável e 50% em renda fixa. Qualquer que seja o caso, o segredo está em buscar fundos com  gestores que façam esse trabalho de seguir um índice com o menor custo de administração possível. Outro segredo é manter uma realocação dessas participações ao longo do tempo. Se a sua carteira inicial é 50/50, você precisa fazer algum ajuste no tempo quando ela vire 40/60 por exemplo.

Outra possibilidade é buscar Alfa, como dizem os gestores, uma vantagem em relação ao índice de benchmark. Pode ser feita com uma estratégia de avaliação de ativos e do cenário para encontrar ativos desvalorizados/valorizados demais e fazer uma aposta de regularização desse preço. Em outras palavras, você precisa ser mais inteligente que o mercado. Essa é uma estratégia buscada por grandes players pois permite a formação de uma posição aos poucos, tantos nas entradas quanto nas saídas. Geralmente a ferramenta utilizada para isso é a análise fundamentalista.

A terceira possibilidade é operar o mercado em busca de tendências que se desenvolvem, sem buscar os motivos por trás daquele movimento. O sujeito que faz isso pode ser chamado de trader que utiliza a Análise Técnica ou outros métodos quantitativos para definir os ativos a serem operados, assim como o controle de risco das operações, tanto em tamanho de cada posição como as regras de entrada e saída. O objetivo final é ter uma estratégia que gere uma expectativa matemática positiva de retorno, pelo percentual de acerto nas operações e a relação ganho por operação positiva/perda por operação negativa. É a maneira que eu opero.

Existe ainda uma quarta estratégia, que é simplesmente não ter estratégia nenhuma e operar de forma emocional, em alguns momentos utilizando uma notícia para iniciar uma operação ou uma opinião de terceiro, as vezes com posições maiores outras vezes com posições menores, sem um plano de saída caso o preço não produza o movimento esperado. Alguns anos atrás, eu e o Stormer definimos uma expressão para essa forma de operar: a técnica do achismo. Também podemos definir o sujeito que opera assim como gambler, ou jogador de um jogo de azar. O problema é que numa tendência definida, geralmente de alta, o achismo dá certo, pois o sujeito que compra por qualquer motivo ganha dinheiro. Ele só perceberá o quanto não sabe sobre o mercado quando houver uma mudança na tendência, geralmente quando vendeu carro e apartamento para aproveitar os “ganhos fáceis” das operações em bolsa. Esse ciclo explica o boom de pessoas físicas operando perto de um topo de mercado e a sua quase inexistência nos fundos ou durante uma boa fase de correção do mercado (como no momento atual da bolsa brasileira).

Considero a primeira estratégia apresentada possível de ser seguida sem muito trabalho por qualquer sujeito, a segunda já é bem mais difícil e requer bastante estudo, a terceira ainda mais desafiadora, para um percentual pequeno de pessoas mas com um grande potencial de ganho e a última deve ser evitada a todo o custo. O problema é que geralmente um achista não sabe ou não quer aceitar o fato de sê-lo.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Opera no mercado há 15 anos com estratégias desenvolvidas a partir da análise técnica e de métodos quantitativos. É fundador da Escola de Traders Leandro & Stormer, que já treinou mais de 40 mil alunos nos últimos 10 anos. leandro@leandrostormer.com.br