A importância de diversificar a sua carteira em diferentes moedas

A diversificação em ativos denominados em outras moedas pode diminuir o risco de uma carteira de investimentos e deixá-la mais resiliente.
Blog por Leandro Ruschel  

 

Uma das primeiras lições que qualquer investidor precisa aprender é sobre a diversificação. Já diziam os nossos avós: não coloque todos os ovos na mesma cesta. Apesar de Warren Buffet dar um conselho diferente, dizendo para colocar os ovos na mesma cesta, paradoxalmente numa visão de especulador, sabemos que na prática a grande maioria dos investidores não tem o tempo e os recurso e tampouco o apetite pelo risco para concentrar recursos num mesmo investimento.

Mesmo Buffet tem uma carteira diversificada de ativos no seu fundo. E quando pensamos em diversificação quase sempre temos em mente a alocação em ativos de diferente natureza, uma composição entre renda fixa e renda variável. No Brasil, onde as alternativas são mais limitadas que em outros mercados, isso representa a divisão entre ativos referenciados no CDI e no Ibovespa.

É o velho mantra, se você é mais jovem, deixe um percentual maior em renda variável e vá diminuindo a exposição ao risco conforme você tem um patrimônio maior e mais idade e responsabilidades. Faz sentido para a maioria dos casos.

Mas poucas vezes é mencionada a estratégia de diversificação em outras moedas, apesar de culturalmente o brasileiro ter embaixo do colchão alguns Dólares, em cash mesmo. Tal escolha não pode ser considerada um investimento, visto que existe inflação mesmo em Dólar. Nos últimos 20 anos, por exemplos, o Dólar perdeu mais de 50% do poder de compra. Sem contar o claro risco de ter valores em casa, especialmente num país violento como o Brasil.

Hoje em dia existe uma forma mais interessante de diversificar a sua carteira em outras moedas, que é investindo em ativos denominados em Dólares, que geram renda ou aumentam de valor ao longo do tempo. São as ações, títulos imobiliários ou títulos de dívida denominados em Dólares, euros, francos suíços entre outras moedas.

A política de diversificação em outras moedas associada ao rebalanceamento da carteira pode gerar resultados interessantes. Essa estratégia é especialmente consistente pois ela não depende de um comportamento esperado dos preços, apenas aproveita os movimentos de alta e baixa que ocorrerão ao longo do tempo.

Você pode traçar um cenário para o comportamento do preço do Dólar em relação ao Real no curto, médio e longo prazo. O mercado pode produzir o cenário esperado ou não. A única certeza que temos é o que o mercado oscilará para cima e para baixo nos próximos dias, semanas e meses. E isso é o suficiente para a estratégia gerar ganhos.

Por exemplo, digamos que você tivesse uma carteira de R$ 100.000,00 e resolvesse dividir essa carteira, 50% em Real e 50% em Dólar. Vamos pegar como exemplo o comportamento do mercado desde 2007:

 

 

Valor Dolar

Real

dolar

%Real

%dolar

total

2,14

50000,00

23364,49

50,00%

50,00%

100000,00

1,75

50000,00

23364,49

55,01%

44,99%

90887,86

1,75

45443,93

25967,96

50,00%

50,00%

90887,86

1,56

45443,93

25967,96

52,87%

47,13%

85953,95

2,19

45443,93

25967,96

44,42%

55,58%

102313,76

2,19

51156,88

23359,31

50,00%

50,00%

102313,76

1,8

51156,88

23359,31

54,89%

45,11%

93203,63

1,8

46601,82

25889,90

50,00%

50,00%

93203,63

2,19

46601,82

25889,90

45,11%

54,89%

103300,70

2,19

51650,35

23584,63

50,00%

50,00%

103300,70

2,45

51650,35

23584,63

47,20%

52,80%

109432,70

2,28

54716,35

23584,63

50,43%

49,57%

108489,32

 

Depois de alocar 50% em Dólar no início de 2007, a regra utilizada foi rebalancear a carteira sempre que a proporção chegasse a 55%/45% numa das moedas. Por exemplo, depois da primeira operação, o mercado corrigiu e o Dólar chegou a R$ 1,75. Nesse momento a posição em Dólares foi aumentada e a posição em reais diminuída para se chegar a composição 50%/50% novamente.

No gráfico abaixo estão marcados os pontos em que os ajustes foram feitos com pequenas setas em verde.

DOLPT.PNG

Veja que o resultado de R$ 8.489,32 teria sido alcançado sem considerar a remuneração sobre as carteiras alocadas em Reais e em Dólares. Se considerarmos uma rentabilidade média de 10% ao ano em Real e 5% ao ano em Dólar, teríamos um valor final de R$ 173.500,00.

Você pode estar pensando: mas se eu tivesse deixado tudo em Reais, com um juro maior, a minha carteira chegaria a R$ 195.000,00, o resultado teria sido melhor. É verdade, mas por conta da não diversificação o risco também seria maior. Também seria possível alcançar um resultado maior pelas realocações caso o intervalo utilizado para rebalanceamento fosse 52,5%/47,5%, por exemplo, mas com maiores custos e esforços operacionais. Ou então aumentar a rentabilidade da carteira em Dólar com exposição a renda variável ou alavancagem em renda fixa.

O mais importante aqui é a ideia de proteção. Ninguém sabe o que acontecerá no futuro, mas possuir uma carteira diversificada diminui o risco no longo prazo. Imagine situações extremas, como ocorreu na Venezuela por exemplo. Ter uma diversificação em outra moeda para investidores venezuelanos significou simplesmente a diferença entre a riqueza e a pobreza.

Quando apresento esse assunto, muitos perguntam como aplicar essa estratégia na prática. Já vimos que a alternativa de manter o percentual da moeda estrangeira em cash não é uma boa ideia. Outra alternativa seria manter uma posição comprada em Dólar futuro, operado em bolsa. O problema nesse caso é o custo do carrego, já que o contrato futuro embute uma taxa de juros, além do problema de liquidez em contratos de longo prazo. Há ainda a alternativa de fundos cambiais, que ainda são poucos no país e muitas vezes dependem de uma estrutura de derivativos mais complexa de ser avaliada por um cotista.

Hoje em dia, com a Internet e outras ferramentas é muito simples abrir uma conta numa corretora ou banco em outro país e fazer os investimentos dessa forma, com uma fração do custo que havia no passado.

 

Abordei o Dólar como alternativa pois apesar do declínio do poder americano nos últimos anos, ainda é a moeda global de reserva sem uma alternativa realmente consistente que a subsitua. Temos como segunda alternativa o Euro. Sem contar o Franco Suíco , Libra esterlina, Yen e o Yuan. Lembrando que quanto maior o número de moedas, maior precisa ser o capital e o conhecimento do investidor para justificar custos maiores de operações e manutenção de posições, além da complexidade de controle da carteira. O mais importante é o brasileiro perceber a possibilidade de diversificar a sua carteira, com uma alocação global e resiliente a qualquer cenário. 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Opera no mercado há 15 anos com estratégias desenvolvidas a partir da análise técnica e de métodos quantitativos. É fundador da Escola de Traders Leandro & Stormer, que já treinou mais de 40 mil alunos nos últimos 10 anos. leandro@leandrostormer.com.br