A dinâmica de formação de preços nos mercados de bolsa

Para poder de fato entender o comportamento dos mercado é preciso compreender o comportamento dos seus principais agentes.
Blog por Leandro Ruschel  

Muitas vezes na tentativa de melhorar a estratégia utilizada para operar o mercado, acabamos utilizando um número maior de indicadores ou outras ferramentas complexas, sem um entendimento da dinâmica de preço por trás de uma leitura específica. O que realmente representa um IFR em 90? Ou um P/L de 5?

Tal postura gera falta de confiança na estratégia, já que as suas bases não são compreendidas, além de uma incapacidade de evoluir o sistema. Imaginem um engenheiro encarregado de construir um foguete utilizando apenas as equações necessárias sem conhecimentos básicos de física, dos materiais utilizados ou das limitações tecnológicas? Esse seria o trader que utiliza apenas os números que aparecem nos seu monitor sem entender o que está por trás dos mesmos.

Os agentes

O primeiro passo é visualizar os agentes que operam no mercado e o seu comportamento. O primeiro tipo de agente que podemos identificar, especialmente nos dias atuais, é o governo e os seus tentáculos, o mais importante deles para os mercados são os bancos centrais. O banco central tem o poder de emitir moeda, definir as taxas de juros e influenciar direta ou indiretamente as taxas de câmbio. Além disso, no mundo dominado pelo keynesianismo, os governos tem o poder de criar ou reprimir demanda, taxar, regulamentar e deixar a economia mais ou menos livre no processo.

Em segundo lugar temos os maiores investidores. No mundo moderno são representados pelos grandes fundos de pensão, fundos hedge ou outros grandes gestores de recursos, como Pimco e Blackrocks da vida.

O terceiro grupo seria aquele formado por investidores/especuladores individuais além dos gestores de recursos de menor monta. De uma maneira geral a grande desvantagem em relação ao grupo anterior é o menor conhecimento de mercado além de um acesso prejudicado em relação as informações e as ferramentas de análise.

O quarto grupo é formado pelos emissores de títulos como ações e bonds. Apesar deles oferecerem um retorno aos investidores através de juros ou de uma participação na empresa, muitas vezes seus interesses são contrários aos dos credores ou acionistas.

No quinto grupo temos os grandes intermediários dos mercados: as bolsas, corretoras e bancos de investimento. Eles oferecem seus serviços por comissões. Através de operações proprietárias, muitos intermediários criaram sérios conflitos de interesse com os seus clientes. O fato é que esses agentes simplesmente tem informações super privilegiadas, o que pode gerar uma vantagem injusta na hora de ser um intermediário e a contraparte ao mesmo tempo.

A atividade dos agentes

O objetivo do agente um, o governo, deveria ser de “estabilizar” o sistema e garantir uma inflação baixa com crescimento econômico e pleno emprego. Na prática o que vemos é a utilização política dessas prerrogativas para garantir a permanência do grupo do momento no poder, mesmo ao custo de inflação alta e perda de eficiência. Talvez o melhor exemplo desse tipo de atuação seja o Brasil da era Lula/Dilma.

O segundo agente tem como objetivo alocar grandes somas de capital nos mercados. Os seus movimentos via de regra precisam ser feitos aos poucos, seja na entrada ou na saída das posições. Costumam utilizar a avaliação dos fundamentos para tomar decisões de investimentos, mas nas grandes quedas podem ser forçados a sair dos mercados para fazer frente ao saque dos cotistas dos seus fundos.

O terceiro grupo é de comportamento mais complexo e diferenciado. Temos desde especialistas com grande capacidade de gerar retornos acima do mercado quanto um mar de amadores e apostadores que na maioria dos casos usam apenas as reações emocionais para tomar decisões.

O quarto grupo (emissores de títulos) tem uma atuação mais passiva após a colocação dos títulos no mercado, mas a sua proximidade com as informações privilegiadas gera uma atividade quase inevitável de operações no mercado, que apesar de serem ilegais são muito difíceis de serem identificadas pelos reguladores.

O quinto grupo também conta com informações ainda mais privilegiadas, já que tem como clientes não só os emissores dos títulos, mas também os outros agentes!

O que faz os preços se movimentarem

O preço de algum ativo negociado em bolsa é gerado pelo consenso entre duas partes num determinado momento. Para que um negócio sai, o comprador e o vendedor precisam entrar em acordo. São dois sujeitos que acordam com o preço mas não com a direção do mercado. O comprador via de regra acredita no aumento de preço do ativo em questão, enquanto o vendedor na queda dos preços. Temos nesse caso as principais variáveis que influenciam os agentes:

A primeira variável que afeta os preços são os desdobramentos da realidade. Por exemplo, se uma empresa tem um contrato com outra empresa que representa 50% da sua receita e em algum momento esse contrato é cancelado, obviamente tal fato muda o valor de ambas as empresas. Os agentes de mercado costumam receber essas atualizações através das notícias. A tecnologia da informação criou um fluxo intenso e instantâneo de notícias, que produz maior volatilidade nos preços e também diminui a vantagem dos agentes com informações privilegiadas.

A segunda variável importante diz respeito a reação emocional dos agentes. O comportamento das pessoas que operam o mercado muda de um momento para outro. Por exemplo, se há um sentimento otimista, uma determinada notícia pode ter uma influência mais positiva do que se fosse recebida num ambiente pessimista. Além disso, há uma dinâmica de comportamento de massa, onde os excessos de pessimismo e otimismo são repetidos ao longo do tempo, criando bolhas especulativas e as suas posteriores depressões.

O terceiro componente é o mais complexo, pois é ainda mais quântico que o segundo: o próprio movimento do preço gera mais desdobramentos auto-alimentados. Por exemplo, quando o preço de uma ação sobe consideravelmente gera atenção dos outros agentes, criando um novo fluxo de compras. O mesmo efeito ocorre nas quedas. Esse componente fica ainda mais importante à luz dos sistemas automatizados de trade, que em última análise são derivados em sua grande maioria do comportamento passado dos preços. Com isso temos mercados cada vez mais “rápidos”, como tivemos a chance de experimentar durante o inovador “flash-crash”.

Como quarto componente cito a simples oferta ou demanda criada pela decisão de um grande player de entrar ou sair do mercado. Claro que o quarto componente está ligado há algum ou a soma dos três anteriores, mas como traders precisamos saber que um movimento pode ser iniciado sem nenhum “motivo aparente”, apenas pela decisão discricionária de algum agente a qualquer tempo. Quanto maior for esse agente, maior será o seu impacto no mercado em questão.

As três formas de encarar o mercado

Através da categorização dos agentes e do que os leva a tomar decisões podemos adotar três posturas básica.

A primeira talvez seja a mais simples e bastante defendida pela academia: a tese dos mercados eficientes. Nesse caso, há uma crença de que é virtualmente impossível “bater” o mercado, pois o preço atual já leva em conta todas as informações pertinentes. Ou seja, o mercado estaria sempre negociando no preço “correto”. Portanto, a melhor estratégia de investimento seria comprar algum fundo passivo com benchmark num índice amplo e pagar a menor taxa de administração possível.

A segunda abordagem utiliza como base o pensamento oposto: as oscilações de mercado criam situações onde os preços são erroneamente precificados pelos agentes. Através do estudo dos fundamentos dos ativos, seria possível comprar ativos baratos e vender ativos caros. No longo prazo os preços tenderiam a buscar seu preço “correto”, pagando um prêmio aqueles que tenham percebido a oportunidade antes dos demais.

A terceira abordagem talvez seja a mais difícil e arriscada mas com o maior potencial de retorno: a identificação da dinâmica dos preços através da análise técnica ou quantitativa. Através de uma série de ferramentas seria possível isolar tendências e viradas de mercado. E num processo de erros e acertos, com controle do risco e correta gestão das operações, seria possível criar retornos em excesso.

No uso dessa terceira via tento concentrar os meus esforços em identificar o fluxo de entrada e saída de recursos num mercado, utilizando o momentum gerado para “surfar” uma onda, sabendo que ela pode durar menos que o esperado ou mesmo inverter a direção sem avisos. É uma luta permanente, tanto do ponto de vista intelectual quanto emocional.

O que deixa a Análise Técnica extremamente interessante é a sua base do que efetivamente está acontecendo no preço e não naquilo que o mercado “deveria fazer”. Pois qualquer um dos agentes mencionados anteriormente pode esconder as suas intenções ou conhecimentos sobre um determinado mercado, mas não consegue esconder as suas operações. Além disso, é a única forma de enxergar o mercado que leva em consideração o efeito quântico dos preços sobre os agentes, através da repetição de comportamentos passados ou reforço de comportamento nas grandes altas ou baixas.

Por exemplo, o movimento do ouro no mercado internacional. No final do ano o mercado testou duas vezes a mínima de vários meses em 114,62. Por que o fundo foi formado exatamente ali? Porque há um suporte, definido pela memória recente dos agentes que lucraram a última vez que fizeram ali uma compra. Depois o mercado começou a ganhar força, fazendo topos e fundos mais altos. Alguém estava comprando pesado. Será que esse alguém sabia o que estava acontecendo na geopolítica mundial e prevendo uma invasão da Ucrânia? Ou seria o próprio governo russo comprando? Difícil saber, mas o fato é que não é necessário saber exatamente o que está por trás de um movimento, apenas identificar um fluxo positivo ou negativo num mercado de forma organizada. Pela própria complexidade do que foi exposto, sabemos que uma compra no ouro poderia não ter dado certo, mas na maioria das vezes que for utilizada uma correta identificação das forças, maiores as chances de acerto nas decisões de trade.

 

GLD

Conclusão

Para desenvolver uma estratégia vencedora é preciso mapear o mercado, seus agentes e processos. Tal conhecimento ajudará a selecionar ou desenvolver as ferramentas corretas de trabalho.

Nesse processo é muito importante desenvolver um alto grau de humildade, pois enfrentamos um sistema muito complexo e quase impossível de prever. Como bem definiu Nate Silver, o mercado se encontra num mundo desconfortável do ponto de vista estatístico, entre o sinal (que gera previsibilidade) e o ruído (totalmente imprevisível).

Nesse caso, vale a pena sempre estar com a mente aberta para reavaliar as crenças e refinar a estratégia, dependendo dos resultados colhidos de tempos em tempos.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Opera no mercado há 15 anos com estratégias desenvolvidas a partir da análise técnica e de métodos quantitativos. É fundador da Escola de Traders Leandro & Stormer, que já treinou mais de 40 mil alunos nos últimos 10 anos. leandro@leandrostormer.com.br