Por Que Investir em Ações na Europa?

Uma das grandes discussões envolvendo gestoras e investidores no exterior hoje em dia diz respeito às bolsas européias. O objetivo deste post é dar uma clareza maior ao debate, uma vez que já existem no mercado brasileiro alternativas de investimento que permitem exposição aos índices europeus e mesmo diretamente em ações de empresas da região. Através de fundos de investimento ou notas estruturadas é vital para a saúde de seu portfólio de longo prazo entender a situação macroeconômica e os obstáculos ao retorno financeiro ótimo.
Blog por Olhar obliquo  

Uma das grandes discussões envolvendo gestoras e investidores no exterior hoje em dia diz respeito às bolsas européias. O objetivo deste post é dar uma clareza maior ao debate, uma vez que já existem no mercado brasileiro alternativas de investimento que permitem exposição aos índices europeus e mesmo diretamente em ações de empresas da região. Através de fundos de investimento ou notas estruturadas é vital para a saúde de seu portfólio de longo prazo entender a situação macroeconômica e os obstáculos ao retorno financeiro ótimo.

Pesquisa da Merrill Lynch realizada com gestores de fundos em abril último mostrou que 63% dos participantes esperavam posicionar suas carteiras em ativos de renda variável de empresas sediadas na Europa acima dos pesos de referência para ações globais (overweight), percentual surpreendente se comparado aos 18% que deram a mesma resposta no mês anterior, variação recorde na história desta pesquisa. Este é, então, o ponto de partida para o investidor brasileiro, já que o entusiasmo se materializou na forma de fluxo positivo para as bolsas e consequente valorização das mesmas. Ainda há espaço para ganhos, porém, e aqui faço a exposição das condições correntes para que isto aconteça e dos riscos ao cenário positivo.

Falemos primeiro de questão latente: Irlanda, Espanha, Portugal, Itália e Grécia, os chamados países periféricos. Apesar das altas generalizadas na classe de ativos, os mercados acionários na periferia não vêm produzindo resultados de forma consistente se comparados ao resto da zona europeia. Isto é surpreendente, porque as economias em questão não só devem superar as demais este ano, como os ganhos de produtividade com o enfraquecimento do Euro e esforços realizados pelo Banco Central Europeu (BCE) para fomentar crédito e consumo e espantar o perigo de deflação na região devem apresentar efeito acentuado exatamente nestes países.

A verdade é que muitos dos problemas enfrentados pela periferia foram resolvidos. Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia reduziram custo do trabalho significativamente desde o início da crise da Zona do Euro, o que efetivamente eliminou a diferença de competitividade observada ao longo da década anterior. Apenas a Itália não conseguiu resolver a situação, mas isto vem sendo endereçado com as reformas do atual governo.

O Banco Central Europeu iniciou seu programa de injeção de liquidez nos mercados europeus (QE ou Quantitative Easing) quando os demais - leia-se Fed Americano e Banco do Japão - terminavam os seus e começavam os preparativos para eventual elevação dos juros. Grande consequência da atuação do BCE tem sido o enfraquecimento da moeda. A desvalorização do Euro observada desde meados de 2014 fez com que as exportações dos países periféricos subissem para 26% do seu Produto Interno Bruto (PIB) contra 16% antes da crise da dívida que teve início no final de 2009. Cresceu assim a participação dos lucros das empresas em termos de percentual do PIB. O ganho de competitividade com a desvalorização da moeda é geral. Diversas empresas europeias, aqui então falamos da região toda, são empresas globais, com fortes receitas em Dólares. Todos pontos positivos e favoráveis à maior e contínua valorização das ações. E se, por outro lado, os investidores em Dólares tiveram seus ganhos em Euros reduzidos pela desvalorização, é importante notar que depois de cair 25% contra a moeda norte-americana, o Euro parece ter encontrado ponto de suporte importante, ao menos no curto prazo.

O aumento de liquidez comprimiu as taxas de juros na região a níveis historicamente baixos. A Nestlé chegou a fazer a primeira emissão de dívida com taxas negativas (!). E por 10 anos. Honestamente, é uma distorção, um exagero que não pode se manter. Mas é nítido hoje como o excesso de dinheiro acabou permeando para o crédito e empréstimos bancários, que voltaram a crescer. Se a desalavancagem do sistema não terminou, com acesso fácil e barato ao crédito deixa de ser obstáculo ao crescimento das empresas e economias, o que é favorável ao investimento em renda variável na Europa.

O impacto da consolidação fiscal, com as baixíssimas taxas de financiamento atuais, vem gerando uma substancial e bem-vinda redução do custo fiscal na zona do Euro. A maioria das economias europeias agora executa superávits primários.

Não fossem suficientes as condições acima, os países se beneficiaram de um custo 30% mais baixo do petróleo em relação ao mesmo período no ano passado, mesmo com o Dólar apreciando. Recentemente observamos uma alta do petróleo, mas o ganho ainda é importante. Os preços de energia mais baixos funcionam como fator de propulsão, gerando efeitos positivos, incluindo o consumo em grandes áreas economicamente avançadas, reduzindo os custos de entrada para novas empresas e levando a revisões significativas de planos de investimentos de longo prazo em setores industriais variados.

Olhando adiante, o caminho parece favorável à Europa e seus agentes econômicos. Respeitados especialistas acreditam que podemos ter surpresas positivas quando forem divulgados os lucros das empresas e crescimento econômico da região, como já indicam os números de vendas no varejo e de automóveis. O desemprego no geral cai, enquanto os salários reais finalmente sobem. O BCE afugenta a deflação e injeta recursos no sistema que alimenta empresas e consumidores.

Risco de relapso existe, principalmente nos periféricos. E se os preços de energia subirem repentinamente, uma pressão inflacionária poderia apagar a justificativa do BCE para continuar injetando liquidez nos mercados. Também não é possível deixar de lado a crise da dívida grega, que todos os dias está nos noticiários e ameaça a presença do país nos diversos acordos regionais (sua saída pode não ser ruim, mas é assunto complexo). Trabalhamos, assim, com um cenário-base que depende de equilíbrio sempre difícil. Mas há alta probabilidade de sucesso dentro de parâmetros razoáveis.

Para o investidor, a questão essencial é se, considerados cenário e riscos, o investimento faz sentido. Acredito que hoje há consenso de que uma diversificação no exterior faz parte de qualquer portfólio saudável. O ponto, então, passa a ser o valor que um investimento em renda variável na Europa tem quando comparado a outras regiões ou classes de ativos. E é possível afirmar que as projeções de retorno são mais interessantes, riscos existentes são mensuráveis e estão precificados nos prêmios excedentes que o investimento oferece. Também importante é a menor correlação que o investimento tem para os demais, o que, de forma simplificada, diminui ainda mais o risco corrido sem comprometer rentabilidade.

Com tudo o que menciono acima, é óbvio que houve forte fluxo de capital para ações europeias no primeiro trimestre de 2015, podendo ter chegado a mais de EUR 40 bilhões. Mas é possível determinar que foi feito de forma indiscriminada. É um erro entender esta alocação como homogênea, em que todo e qualquer recurso ligado à renda variável na Europa carrega o mesmo risco e apresenta as mesmas expectativas de retorno. Assim, acredito que o investimento passivo em índices, muitas vezes base para notas estruturadas, deve ser evitado, e que a melhor abordagem se dá através de fundos ativamente geridos, onde o gestor com bom histórico faz seu trabalho de pesquisa e alocação nas empresas e setores certos em ambiente de incertezas, mas com enorme potencial.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Após 11 anos no exterior, Eduardo Levy voltou ao Brasil em 2013 e juntou-se à Rio Bravo Investimentos, onde é responsável pelas áreas de multi-assets e estratégias de diversificação. Começou a carreira na Price Waterhouse, e, após 13 anos na indústria financeira, 11 dos quais como operador sênior e diretor do portfólio de crédito internacional do CSFB Garantia, mudou-se para Los Angeles em 2002. Depois de completar o mestrado, consolidou sua experiência estruturando projetos de investimento nos setores financeiro e de varejo em mercados emergentes para empresas canadenses e americanas.   olharobliquo@riobravo.com.br