Você, Investidor, Seu Maior Inimigo

Gestão de longo prazo exige rigor na alocação e rebalanceamento. Aqui começamos a entender como o comportamento do investidor pode ser o maior obstáculo ao bom rendimento de seu portfólio.
Blog por Olhar obliquo  

Parece redundante refletir sobre os medos e dúvidas que hoje dominam o brasileiro. O que o investidor quer, depois de meses de preocupação e volatilidade nos diversos ativos financeiros, é saber o que fazer com seus recursos em prolongado ambiente de risco. Enquanto muitos repetem o mantra das altas taxas de juros como única solução viável para a proteção de um portfólio, continuo a oferecer outra abordagem: a verdadeira proteção somente é atingida com uma carteira diversificada e ajustada ao seu perfil de risco.

Em um mercado financeiro de fortes oscilações, é na alocação diversificada que encontramos a mitigação de risco, até porque classes de ativos distintas muitas vezes apresentam entre elas baixa ou negativa correlação, negando assim suas volatilidades implícitas.

Trabalhos extensivos mostram como a escolha dessas classes se torna o principal fator de rentabilidade de um portfólio no longo prazo. Momento (ou tendência) e definição de ativos específicos são importantes mas secundários, e há claras indicações de que o efeito do trading constante seja nocivo, como veremos mais abaixo. Ideal seria o investidor fazer a alocação na fronteira eficiente de seu perfil de risco, e a partir daí apenas trabalhar no rebalanceamento destas posições periodicamente.

Rebalanceamento este que é conceito pouco seguido por aqui, mas importantíssimo para a rentabilidade de uma estratégia. Comprovado ao longo de décadas nos EUA e Europa, o rebalanceamento de posições também se provou valioso em estudo que a Rio Bravo realizou para o período de 20 anos desde o lançamento do Real em 1994. (mais detalhes deste trabalho em posts futuros)

Bem, uma vez definidos os percentuais investidos em cada classe, oscilações naturais acontecem. Periodicamente deve ser feito o ajuste para que o portfólio volte a refletir sua alocação original. Na prática, o investidor acaba comprando mais dos ativos que ficaram para trás e vendendo os que subiram. Para evitar custos elevados, o rebalanceamento deve ser feito semestral ou anualmente e apenas quando observadas variações significativas (ex.: +- 5%).

A gestão de uma carteira precisa deixar de lado a emoção, respeitando limites e métodos. Daí o valor que gestores profissionais e seus fundos trazem ao mercado. Infelizmente, o investidor individual, mesmo aquele que racionalmente entende a necessidade de rigor na condução de seus investimentos, enfrenta um grande obstáculo - seu próprio ego. Sim, o investidor individual é seu maior inimigo e em muitos casos deixa de fazer o correto por imaginar saber melhor.

Na seção que trata do comportamento desses investidores no Handbook of the Economics of Finance (2013 Elsevier B.V.), os professores de finanças Brad Barber (UC Davis) e Terrance Odean (UC Berkeley) observam dados empíricos que mostram como se perde dinheiro realizando operações demais e fugindo do roteiro ideal para gestão de uma carteira de investimentos. E oferecem explicações. O ‘mau’ comportamento não é exceção. É comum em mercados eficientes e ainda mais prevalecente em mercados em desenvolvimento, como Taiwan e China.

Em minha opinião, dois aspectos chamam atenção: excesso de confiança e baixa diversificação. Lembro bem de uma viagem que fiz com um grupo de americanos e canadenses na virada de 1999 para 2000. Estávamos na Patagônia Chilena e de lá eles continuariam a viajar pelo mundo por alguns meses para comemorar suas respectivas habilidades na compra de ações das mais variadas empresas, em particular a então líder Yahoo. Tentei convence-los de que algo não parecia certo quando o seu valor de mercado era maior do que a combinação dos quatro principais grupos de mídia dos EUA, e que momento e tendência eram os verdadeiros responsáveis pelo sucesso dos seus investimentos em renda variável. Virei motivo de desdém. Afinal, disseram todos, a prova do conhecimento estava no resultado observado. Viramos o ano juntos enquanto YHOO.US negociava acima de $108. Quando voltaram para casa a ação já havia caído 50%, e não iria parar até bater $15 no ano seguinte. Não acredito que tenham feito outra viagem.

Há, também, o aspecto de familiaridade, mascarado como simetria de informação para ser aceitável em círculos profissionais. Esse é um problema que me preocupa muito nos dias de hoje. Investidores de todos os perfis - e aí incluo os esforços recentes dos fundos de pensão no exterior - diversificam ao alocar parte de seus portfólios no exterior e em dólares, é verdade, mas o destino dos recursos tem sido invariavelmente um mesmo grupo de poucas companhias com as quais temos maior familiaridade. Quem não fica mais tranquilo investindo em IBM, Google e Apple?

Não estou dizendo que são maus investimentos. Longe disso. Mas essa aparente familiaridade leva à concentração da carteira, e a baixa diversificação aumenta a volatilidade e fere sua relação risco/retorno ao longo do tempo.

Por muitos anos meu mandato profissional demandava uma agressiva gestão de ativos no exterior, com foco em renda fixa e renda variável de países emergentes na América Latina e Leste Europeu. Meus investimentos pessoais, então, sempre foram conservadores e mantinham baixa correlação com aqueles mercados. Por necessidade. Sempre acreditei saber melhor do que a grande maioria. Afinal, era minha função. Mas se errasse, seria prudente não perder dos dois lados.

Não ganhei tanto em períodos de alta, não perdi muito nos períodos de baixa, e ao longo de mais de 20 anos a performance desses investimentos foi significativamente melhor do que o CDI. Food for thought agora que o brasileiro começa a desbravar o mundo financeiro.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Após 11 anos no exterior, Eduardo Levy voltou ao Brasil em 2013 e juntou-se à Rio Bravo Investimentos, onde é responsável pelas áreas de multi-assets e estratégias de diversificação. Começou a carreira na Price Waterhouse, e, após 13 anos na indústria financeira, 11 dos quais como operador sênior e diretor do portfólio de crédito internacional do CSFB Garantia, mudou-se para Los Angeles em 2002. Depois de completar o mestrado, consolidou sua experiência estruturando projetos de investimento nos setores financeiro e de varejo em mercados emergentes para empresas canadenses e americanas.   olharobliquo@riobravo.com.br