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Tesla, o embuste da década

A minha visão negativa de Tesla é realmente 360º - De todos os pontos, ângulos e maneiras que eu olho, vejo problemas. Não podemos nos esquecer dos sucessivos problemas com o autopilot, que seria o maior diferencial da empresa, nem do imbróglio com a Panasonic. Há ainda potenciais passivos com os inúmeros acidentes ocorridos envolvendo seus carros, diversos relatos de clientes do Model 3 que voltam para consertar seu veículo com menos de uma semana, além de complicações com as máquinas e robôs que compõem as fábricas.

Elon Musk
(Reprodução/YouTube)

Essa semana fomos agraciados com a aparição do investidor Ron Baron na CNBC. O bilionário fundador da Baron Capital disse que a Tesla é uma das maiores posições da sua empresa e que pretende ganhar 20 vezes o capital investido nela (ou seja, ele acredita que a Tesla valerá US$1 trilhão!!!).

Segundo o investidor, que comprou as ações a um preço médio de US$220, a empresa está consumindo caixa porque está construindo fábricas. Ele também acredita que a Tesla não precisará levantar mais capital. Além disso, mencionou que as outras empresas vão gastar mais para construir os carros competidores, porque elas têm um custo trabalhista que a ela não tem.

Vamos lá novamente. A minha visão negativa de Tesla é realmente 360º - De todos os pontos, ângulos e maneiras que eu olho, vejo problemas.

Comecemos pelo CEO. É impressionante que o Musk, mesmo não entregando absolutamente nada do que promete, brigando com executivos, discutindo com analistas, ainda seja adorado por uma parcela do mercado.

Vejamos então a credibilidade do fanfarrão. Elon Musk, em fevereiro de 2012 disse que “a Tesla nunca mais precisará de uma rodada de financiamento”. Essa promessa foi quebrada algumas vezes. Naquele mesmo ano, em setembro, a Tesla levantou mais US$195 milhões. Em maio do ano seguinte, mais US$913 milhões. Em fevereiro de 2014, mais US$2 bilhões. Em agosto de 2015, mais US$652 milhões. Em maio de 2016, mais US$2 bilhões. Em março do ano passado, mais US$1.4 bilhão e, em agosto, de novo $1.4 bilhão. Será que ela precisará de mais capital, apesar do CEO ter dito que não? Minha resposta é SIM. Quanto capital ela vai levantar? Tanto quanto a SEC (CVM americana) deixar.

No relacionamento com executivos, o extravagante CEO também não deixa a desejar. Mais de 50 executivos deixaram a empresa nos últimos 6 anos. Só nesse começo de maio, dois importantes executivos saíram da empresa, um deles responsável pelo desenvolvimento de novos veículos e o outro era o principal contato da empresa com o NTSB, o regulador que está investigando a Tesla.

No que tange à produção, a empresa não consegue entregar a quantidade prometida de veículos. Há cerca de 2 anos, Musk disse que em julho de 2017 estaria produzindo 5 mil carros por semana. Essa promessa passou para dezembro, que passou para março de 2018, que agora passou para junho. Eventualmente ele chega lá. Lembrando que a Tesla tem capital aberto e que, por isso, deveria divulgar números e projeções com alguma credibilidade.

Ontem mesmo fui a uma loja da Tesla e me passei por um potencial cliente. Fui muito bem recebido (pelo menos isso) e informado de que meu carro, um Model 3, estará disponível no final de 2019. Sabendo que pelo menos 400 mil pessoas já efetuaram um depósito para entrar nessa lista de espera, isso significa teriam que ser produzidos 22.200 carros por mês todos os meses até o final do ano que vem. Ou seja, uma impossibilidade!

Model 3 foi prometido a US$35,000, mas esse não é esse o preço de sua etiqueta ao sair das fábricas. Na verdade, o preço médio do veículo está bem acima disso. E a má notícia não termina aí: no terceiro trimestre desse ano devem acabar os subsídios para a empresa, justamente quando começarão para competidores de peso e qualidade, como Jaguar, Audi, Mercedes e Porsche. Imagina quantas pessoas que já efetuaram um depósito para garantir o recebimento do Model 3 vão pedir o dinheiro de volta para comprar um carro melhor, mais barato e com disponibilidade imediata.

Os problemas não param por aí. Não podemos nos esquecer dos sucessivos problemas com o autopilot, que seria o maior diferencial da empresa, nem do imbróglio com a Panasonic. Há ainda potenciais passivos com os inúmeros acidentes ocorridos envolvendo seus carros, diversos relatos de clientes do Model 3 que voltam para consertar seu veículo com menos de uma semana, além de complicações com as máquinas e robôs que compõem as fábricas.

Somado a isso, ainda temos o fato de o CEO receber potencialmente a maior remuneração da história (mais do que a de todos os CEOs do S&P500 juntos), mesmo ele não dedicando 100% de seu tempo a empresa, que tem que dividi-lo com a The Boring Co, SpaceX, Neuralink, etc.  

Como se não fosse suficiente, há também a questão da manipulação absurda de ações com declarações falsas e irrealizáveis e da compra de ações na margem para tentar dar um short squeeze nos que estão vendidos à descoberto – será que um CEO não tem nada melhor pra fazer?

Baron é famoso e bilionário por mérito, mas acredito que o call de Tesla não poderia estar mais errado. Um aviso aos descuidados. O preço médio do Baron é de US$220. US$220 é também o preço da última emissão de ações da empresa e coincide com a marca para iniciar as chamadas de margem do Elon Musk. US$220 pode ser o número mágico.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

perfil do autor

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Marcelo López

Marcelo López tem certificação CFA, é gestor de recursos na L2 Capital Partners, com MBA pelo Instituto de Empresa (Madrid, Espanha) e especialização em finanças pela principal escola de negócios da Finlândia (Helsinki School of Economics and Business Administration). Atuou como Gestor de Carteiras e de Fundos em grandes gestoras internacionais, tais como London & Capital e Gartmore Investment Management.

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