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10 erros que o Brasil inteiro comete ao investir para a aposentadoria

A maioria dos planos PGBL e VGBL oferece uma combinação ruim de retornos baixos, liquidez restrita, informações imprecisas fornecidas nos bancos e escolhas erradas dos investidores; veja como escapar dessas armadilhas e garantir uma aposentadoria confortável

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(Shutterstock)

(SÃO PAULO) – Nos últimos dois anos, nenhuma categoria de fundo de investimento recebeu mais dinheiro dos brasileiros que a de previdência. Somente nos últimos 12 meses, esses produtos captaram mais de R$ 40 bilhões, segundo dados da Anbima (a associação de bancos e fundos de investimento). O curioso é que os PGBL e os VGBL costumam garantir uma das menores rentabilidades médias da indústria de fundos. Para a imensa maioria dos clientes, os planos garantem benefícios tributários muito menores que investimentos isentos de Imposto de Renda, como LCI, LCA ou debêntures de infraestrutura. A punição aos investidores que resgatarem o dinheiro após um curto período de tempo é severa. Os produtos possuem regras que os tornam adequados a nichos muito restritos de pessoas, mas são vendidos de forma massificada nos bancos, onde os gerentes possuem metas agressivas de distribuição dessas aplicações. Além disso, os PGBL e os VGBL são produtos complexos o suficiente para complicar até os especialistas – não é incomum ler nos jornais de maior circulação no país artigos escritos por planejadores financeiros profissionais com graves equívocos sobre o produto.

Ao mesmo tempo, a diferença entre investir bem e mal em previdência é brutal porque, no longo prazo, um rendimento de 2% ou 3% a mais por ano vai significar milhões de reais a mais na sua conta quando você parar de trabalhar. Você leu direito, são milhões de reais a mais mesmo. Imagine, por exemplo, que você vai começar a poupar agora para a aposentadoria e que vai guardar R$ 1.000 por mês durante 30 anos. No cenário 1, você recebe o retorno médio do mercado para PGBL e VGBL, que é de 87,6% do CDI, segundo um estudo feito pela XP Investimentos a partir de consulta à base de dados da consultoria Economatica que incluiu 926 fundos de previdência brasileiros. Considerando que o CDI atual de 14,13% ao ano ficará estável pelos próximos 30 anos, você terá acumulado R$ 3.289.333 no final do período. Já se você escolher um dos melhores produtos de previdência do mercado brasileiro e conseguir obter um retorno de 110% do CDI, conseguirá juntar R$ 6.210.073 daqui a 30 anos.

 Previdência projeções

Percebeu que decisões corretas que você possa tomar agora poderão lhe garantir R$ 3 milhões a mais quando você se aposentar? Então conheça a seguir as 10 principais armadilhas dos planos de previdência e aprenda a evitá-las:

Erro #1 - Investir em produtos que rendem pouco

Milhões de brasileiros perderão qualidade de vida quando pararem de trabalhar porque investem em PGBL e VGBL que rendem pouco. Os produtos de previdência privada vendidos no Brasil geralmente possuem um rendimento médio inferior ao dos fundos de investimento por três motivos: 1) as taxas cobradas são maiores (em média 1,35% ao ano) porque é preciso remunerar também uma seguradora que estrutura o produto; 2) o gestor tem menos liberdade para investir por decisão do regulador, o que reduz as possibilidades de ganho; e 3) os maiores produtos de previdência do Brasil são geridos por bancos, onde o gestor não faz uma gestão muito ativa, limitando-se a comprar sempre a mesma cesta de títulos públicos ou as ações de um índice como o Ibovespa, independente do cenário econômico.

O resultado final costuma ser um produto muito rentável para o banco, mas pouco vantajoso para o cliente. Segundo números da Anbima, só 8% dos 926 fundos de previdência brasileiros renderam mais que o CDI no período de 12 meses encerrado em maio. Isso revela que, para virar esse jogo, o investidor precisa selecionar os melhores fundos do mercado. O problema é que os produtos que estão mais próximos dos brasileiros são aqueles distribuídos por seguradoras de bancos, que geralmente são os mais caros e os que rendem menos. Segundo números da Anbima, 94,5% do patrimônio aplicado em fundos de previdência é gerido pelas sete maiores instituições financeiras do país: Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Caixa, Santander, HSBC e Safra. Na tabela abaixo, é possível verificar o rendimento dos 10 maiores fundos de previdência do Brasil – todos são do BB, Itaú e Bradesco. Apenas esses fundos concentram quase a metade de todo o dinheiro investido em PGBL e VGBL no país. Agora popularidade não tem nada a ver com rentabilidade. Nos últimos 36 meses, é possível encontrar um produto que rendeu apenas 68,72% do CDI, o Bradesco FIC RF VGBL Fix.

Previdência, maiores fundos

Ok, entendi, o produto bancário é ruim, mas qual seria então a solução? Procurar os melhores produtos do mercado. Eu fiz esse trabalho e selecionei dois fundos em que já invisto ou investiria meu dinheiro. O primeiro é o Verde AM Icatu Previdência FIC FIM Previdenciário. Esse produto é praticamente a única chance disponível para a maior parte dos brasileiros investir em um produto da Verde Asset, a empresa de Luis Stuhlberger, o mais renomado gestor de fundos do Brasil. Stuhlberger é o gestor do Fundo Verde FIC FIM, que acumula retorno de 12.579% desde que foi criado em 1997, o que equivale a 783% do CDI no período. O Fundo Verde está fechado para captação – então você não vai conseguir investir nele. A Verde Asset tem alguns poucos produtos abertos, como os voltados a investimentos internacionais, mas a aplicação inicial mínima é de R$ 500.000. Já o Verde AM Icatu Previdência não somente está aberto como permite um investimento inicial mínimo muito baixo. O investimento no Verde Previdência não pode ser feito diretamente pela Verde Asset. Interessados devem procurar corretoras como a XP ou corretores de seguros da Icatu. Para começar a investir, basta aplicar R$ 500 por mês. Se você já tiver PGBL ou VGBL e quiser trocar para o Verde AM Icatu Previdência, basta ter ao menos R$ 30.000 nesse produto de previdência para solicitar a portabilidade. A Verde Asset não tem – e provavelmente nunca terá – nenhum outro produto tão acessível ao varejo.

O Verde AM Icatu Previdência tende a seguir a linha mestre de alocação definida por Stulhberger para o Fundo Verde, mas é preciso fazer algumas adaptações para atender à legislação do setor de previdência. Como não pode comprar ativos nos EUA, por exemplo, para ter exposição ao mercado acionário americano o Verde Previdência monta uma posição em S&P 500 na BM&FBovespa. Cerca de 15% do patrimônio do fundo está em S&P 500 em reais. A maior posição, no entanto, está em NTN-B, os títulos do governo brasileiro que pagam juros reais. Luiz Parreiras, o gestor do Verde Previdência, diz que o prazo médio desses papéis é de 5 a 7 anos. Para a Verde Asset, os juros desses papéis, que hoje estão em cerca de IPCA + 6% ao ano, poderão cair para IPCA + 5% ou menos nos próximos dois anos, gerando ganhos bem acima do CDI para os investidores. Ele não sente confiança em comprar papéis com vencimentos mais longos. A visão é que, apesar de o governo Temer já ter começado a endereçar soluções para o problema fiscal brasileiro, nada está perto de ser resolvido. O fundo também tem uma posição de 6% do patrimônio em ações brasileiras, principalmente dos setores de energia e financeiro, que também tendem a se valorizar caso os juros caiam. Por último, o fundo possui 8% do patrimônio em dólar, que funciona como hedge – se algo der errado no Brasil ou no mundo e os ativos de risco se desvalorizarem, o dólar tende a subir e amortecer a queda da carteira.

O produto de previdência foi criado em dezembro de 2015 e já captou R$ 300 milhões. Até 19 de julho, o rendimento acumulado era de 10,25% - o equivalente a 124% do CDI no período. A taxa de administração também é a mais comum para os multimercados: 2% ao ano. O fundo só tem uma característica que o investidor deve se atentar: trata-se de um produto com volatilidade. Em um determinado mês, o fundo pode ficar bem abaixo do CDI ou até mesmo registrar cota negativa. Foi o que aconteceu em junho, quando rendeu -0,01%. O gráfico abaixo revela a volatilidade do fundo – veja como os retornos não são lineares, o que torna o produto pouco indicado a investidores conservadores:

Previdência Verde

Se você busca um produto com menos risco para poupar para a aposentadoria, um produto que gosto bastante é o XP Horizonte Prev FC FI RF – inclusive esse é o plano de previdência onde invisto meu próprio dinheiro. Esse fundo tem um perfil de alocação bem mais conservador que o da Verde Asset, limitando-se basicamente a comprar títulos de renda fixa – até 49% pode ser alocado em crédito privado e o resto fica em papéis do governo. Outras características que mostram que é um produto bem adequado para investidores avessos a risco é que o fundo não pode operar alavancado nem fazer day trade. Nos últimos 12 meses, o fundo registra uma rentabilidade de 112% do CDI. O gráfico abaixo mostra que se trata de um fundo com baixíssima volatilidade e que sempre vai seguir de perto o CDI, tentando superá-lo levemente no longo prazo:

Previdência XP

Com taxa de administração de 1% ao ano e R$ 150 milhões em patrimônio, o XP Horizonte é outro produto bastante acessível ao varejo. Você pode fazer a portabilidade de seu atual produto de previdência com a partir de R$ 30.000. Já se quiser começar a investir do zero, é possível programar aportes mensais de só R$ 500 ao mês. O produto é distribuído exclusivamente para clientes da XP.

Erro #2 - Taxa de carregamento é cilada e você deve fugir dela

Além de oferecerem baixos retornos médios, os fundos de previdência possuem uma característica muito peculiar: a cobrança de taxa de carregamento. Nos PGBL e VGBL distribuídos pelas seguradoras dos grandes bancos, geralmente é cobrada logo no início do investimento uma taxa de carregamento que corresponde a um percentual do dinheiro aplicado. Por exemplo, imagine que você vai investir R$ 1.000 por mês em um PGBL ou VGBL e que sobre esse dinheiro será cobrada uma taxa de carregamento de 5% para remunerar o corretor que lhe vendeu o produto de previdência. Na prática o investidor será bastante punido porque, ao invés de aplicar R$ 1.000 como em qualquer outra aplicação, só vão lhe sobrar R$ 950 para investir após a cobrança do carregamento. Quando cobrada na entrada, essa taxa é muito punitiva porque o investidor já parte de um retorno de -5% nesse exemplo.

Então o ideal é o investidor procurar produtos de previdência que não cobrem taxa de carregamento ou que ao menos deixem para cobrar na saída. Os dois produtos de previdência que citei acima, o Verde Previdência e o XP Horizonte, são isentos de taxa de carregamento na entrada e também se tornam isentos de taxa de carregamento na saída sempre que o investidor deixar o dinheiro aplicado por mais de 3 anos. Como o investimento em previdência não deve ser feito se o investidor tiver um horizonte de curto prazo para o resgate, na prática com um desses fundos você fugirá do carregamento.

Erro #3 - PGBL é só para quem entrega a declaração completa do IR

PGBL é um produto que aparece na carteira de todo tipo de investidor quando faço consultorias financeiras. Mas a verdade é que esse produto só deveria ser consumido por um nicho muito específico de brasileiros: aqueles que entregam a declaração completa do Imposto de Renda – na prática, são as pessoas que têm muitas deduções. Para os demais, eu nunca indicaria o produto. A explicação: quem entrega a declaração completa do IR e aplica em PGBL reduz em até 12% a base de cálculo desse imposto e consegue garantir uma restituição mais gorda no ano seguinte. Já para os demais, o PGBL vai aumentar o IR a ser pago ao governo e não faz sentido mandar mais dinheiro para Brasília.

Vou dar um exemplo: imagine que sua renda bruta tributável foi de R$ 100.000 em 2015. Se você é funcionário formal na empresa onde trabalha, sua empresa já recolheu na fonte o IR que você tinha que pagar com base na sua renda de R$ 100.000. Só que se você já entrega a declaração completa do IR e investiu R$ 12.000 em um PGBL no ano passado, na prática a base de cálculo de seu IR vai cair para R$ 88.000 (R$ 100.000 – R$ 12.000). Como esses R$ 12.000 foram taxados na fonte com a alíquota de 27,5% e deveriam ser isentos, você vai economizar R$ 3.300 em IR, que lhe serão devolvidos na próxima restituição. Vou ilustrar isso com minhas próprias finanças. Há dois anos comecei a entregar a declaração completa do IR. Por esse motivo, decidi passar a depositar R$ 15.000 por ano em um PGBL. Isso engordou minha restituição do IR em R$ 4.125 neste ano. Veja abaixo o recibo da minha declaração do IR 2016 onde é possível verificar que tenho a receber R$ 4.609,02 neste ano – quase tudo isso é por causa do PGBL.

Resumo da declaração do IR

Se você entrega a declaração completa do IR e ainda não investe em PGBL, recomendo que comece a fazer isso se deseja garantir uma aposentadoria mais confortável. Já se você já investe em PGBL de banco, mas entrega a declaração simplificada do IR, nem sempre a saída é resgatar tudo e escolher outra aplicação. Vou explicar melhor o que faria em seu lugar no item 7 deste texto.

Erro #4 - VGBL é só para planejamento sucessório

O outro tipo de plano de previdência privada muito vendido no Brasil é o VGBL. Se você entrar em uma agência bancária, dizer que entrega a declaração simplificada do IR e perguntar ao gerente qual seria a recomendação dele para investimento para a aposentadoria, provavelmente vai ouvir que deveria investir em um VGBL. Ainda que para um caso como esse o VGBL seja mesmo mais indicado que o PGBL, há uma série de outras aplicações financeiras que são muito mais adequadas que ambos para poupar para a aposentadoria. A explicação é que planos de previdência geralmente são mais caros que outras aplicações financeiras. As taxas mais elevadas cobradas por gestores e seguradoras só seriam compensadas se houvesse um grande benefício tributário nesses produtos. Só que, em termos de Imposto de Renda, o benefício tributário do VGBL é ínfimo. Basicamente você não pagar antecipadamente o IR duas vezes ao ano porque sobre os VGBL não há cobrança de come-cotas.

Agora vamos pensar um pouquinho: no Brasil há investimentos isentos de IR, como LCI, LCA, debêntures de infraestrutura e muitos outros, certo? Então por que você vai investir em um VGBL, aceitar diversos tipos de carência para resgate, ficar praticamente impedido de mexer naquele dinheiro por vários anos e receber um rendimento bem mediano ao investir em um VGBL sem come-cotas se poderia ter um benefício tributário bem maior, rentabilidades bastante superiores e carências bem mais brandas comprando LCI, LCA e debêntures? O VGBL até fazia sentido no tempo em que foi criado porque naquela época não havia tantos produtos isentos de IR à disposição dos investidores nas corretoras. Mas isso é passado.

Hoje só vejo uma hipótese em que o VGBL é interessante: como produto de planejamento sucessório. Dependendo do Estado onde você vive, alguém que já está em idade avançada e gostaria de deixar algum dinheiro com liquidez imediata para seus herdeiros deveria pensar em investir uma parcela do patrimônio em VGBL. Isso porque o titular do plano indica os beneficiários e esse dinheiro não vai entrar no inventário do falecido, podendo ser resgatado rapidamente pelos herdeiros. Em alguns casos, sobre o VGBL também não é cobrado o ITCMD (Imposto sobre a Transmissão Causa Mortis e Doações), cuja alíquota varia de acordo com o Estado e pode chegar a até 8% da herança. Em São Paulo, por exemplo, não há cobrança de ITCMD sobre VGBL. Mas no Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Amazonas, Goiás e Acre o VGBL será tributado como qualquer outro bem do falecido.

Considerando todas as regras do VGBL, eu diria que o produto é a melhor opção para poucos milhares de brasileiros. Mas isso está na carteira de milhões de pessoas. A quem me contrata como consultor financeiro, meu conselho é quase sempre o mesmo: resgate esse dinheiro o quanto antes e invista em outra aplicação mais rentável, com tratamento tributário mais favorável ou com menores penalidades para resgates no médio prazo e não volte a investir nisso a menos que você entenda que já é hora de planejar a transmissão de seus bens a seus herdeiros.

Erro #5 - Tabela progressiva só é indicada a pessoas de baixa renda

Quem investe em PGBL ou VGBL sempre será perguntado se quer ser taxado de acordo com a tabela progressiva ou a tabela regressiva do IR. Essa resposta é muito importante porque vai definir a forma como sua aplicação será tributada no momento do resgate. E aqui o gerente do banco geralmente não vai lhe ajudar – e não é por má-fé, não. Infelizmente pouquíssimos distribuidores do produto têm conhecimento tributário suficiente para dar explicações mais precisas aos clientes. Vamos analisar inicialmente a tabela progressiva, que mostra qual é a alíquota de IR que você pagará quando resgatar um investimento em previdência privada para quem fizer essa opção:

Imposto de Renda - tabela progressiva

Em tese, você até pode ser isento de IR se optar pela tabela progressiva porque, se resgatar menos de R$ 1.903,98 por mês de seu PGBL ou VGBL quando se aposentar, não deverá imposto nenhum à Receita Federal. Já na tabela regressiva a alíquota mínima de imposto será de 10%. Então a tabela progressiva não é tão ruim assim, certo? Errado. Vamos ver como a coisa funciona na prática. Imagine que você se aposenta com 60 anos e começa a receber um benefício de R$ 2.000 por mês do INSS. Nesse caso, vai pagar R$ 7,20 por mês de IR ((R$ 2.000 * 7,5%) – R$ 142,80). Só que para complementar sua renda você também decide resgatar R$ 3.000 por mês de seu PGBL ou VGBL. Sua renda total, portanto, será de R$ 5.000 (R$ 2.000 do INNS + R$ 3.000 da previdência privada). Nesse caso, você pagará todos os meses de IR um total de R$ 505,64 ((R$ 5.000 * 27,5%) – R$ 869,36). Portanto, ao sacar R$ 3.000 de sua previdência privada, você vai pagar R$ 498,44 a mais por mês de IR (R$ 505,64 – R$ 7,20) e sua alíquota efetiva de IR sobre esses R$ 3.000 da previdência privada será de 16,61% (R$ 498,44 / R$ 3.000). Ou seja, você vai pagar 16,61% de IR e poderia pagar 10% se tivesse feito a opção pela tabela regressiva.

Aqui existe um detalhe importante que muita gente desconhece. Aposentados com 65 anos ou mais possuem um benefício tributário interessante, lembra o advogado Marcos Ferraz de Paiva, sócio do escritório Choaib, Paiva e Justo. Considerando o mesmo exemplo acima de investidor que recebe R$ 2.000 do INSS e R$ 3.000 da previdência privada, mas que no nosso novo exemplo agora tem mais de 65 anos, ele será isento até R$ 1.903,98 no INSS e também isento até R$ 1.903,98 na previdência privada. Então agora a tabela progressiva poderia valer a pena, certo? Em minha opinião, nem assim. O problema da tabela progressiva é que o governo tem corrigido as alíquotas anualmente em 4,5% enquanto a inflação chega a ultrapassar 10% em alguns anos como em 2015. Essa sequência de defasagens na correção faz com que o poder de compra do montantes isentos vá caindo gradativamente ao longo dos anos. Então vamos imaginar que que você comece a poupar hoje para se aposentar daqui a 30 anos. Se o governo continuar a corrigir a tabela do IR a percentuais abaixo da inflação, a isenção de R$ 1.903,98 que você tem hoje será equivalente em poder de compra a talvez menos de R$ 1.000 daqui a 30 anos. Como já sabemos que a tabela progressiva ficará menos e menos interessante à medida que o tempo passa porque o governo não vai perder essa chance de arrecadar mais impostos, meu conselho é para que você pule fora de imediato para ir reduzindo desse já sua alíquota na tabela regressiva.

Erro #6 - Tabela regressiva é melhor, mas você vai se dar muito mal se resgatar no curto prazo

O quadro a seguir explica como funciona a tabela regressiva do IR, em que a alíquota cai à medida que o tempo de aplicação aumenta:

Imposto de Renda - tabela regressiva da previdência

A tabela deixa claro que o investimento em previdência pode ser muito vantajoso do ponto de vista tributário – mas apenas para quem tem perfil de longo prazo. Alguém que investe por dois anos em um fundo qualquer paga 15% de IR. Para conseguir essa alíquota com um plano de previdência, você vai ter que esperar ao menos 8 anos. Repare também que a alíquota mínima de IR paga para investimentos de até 4 anos é de 30%. Como a renda do salário no Brasil é tributada com até 27,5%, você faz péssimo negócio se investir em PGBL para aumentar sua restituição de IR no ano seguinte e permanecer com o dinheiro investido por menos de 4 anos porque pagará uma alíquota ainda maior que os 27,5% quando resgatar os recursos. Eu mesmo fiz isso quando tinha 20 e poucos anos. Comecei a investir em um plano de previdência por sugestão da gerente do banco. Só que três anos depois apareceu uma oportunidade de comprar a casa própria e tive que raspar todas minhas economias para realizar esse sonho. Como havia aplicado em um PGBL na tabela regressiva, um produto totalmente inadequado para meu perfil, acabei pagando 30% de IR sobre todo o dinheiro aplicado (o que investi e também os juros). Um baita prejuízo.

Ali aprendi a nunca mais cometer esse erro. Desde então tenho recomendado planos de previdência apenas a quem tem um horizonte mínimo de investimento de 10 anos, que permite aumentar a restituição de IR no ano seguinte, ter mais dinheiro para investir e pagar lá na frente uma alíquota de IR mais baixa que nos investimentos mais comuns – ou 10% ao invés de 15%.

Erro #7 - Se você errou, pode corrigir

Se ao longo desse texto você percebeu que está investindo errado em previdência, é hora de consertar. Os produtos de previdência em geral têm regras muito punitivas para quem fizer um resgate poucos anos depois de investir o dinheiro. Mas você sempre terá o direito de fazer a portabilidade, que permite, entre outras coisas, que você troque um plano de previdência que rende pouco por outro com melhor desempenho sem ter de pagar IR agora nem ter de esperar mais pela redução dos prazos para a queda do imposto. Você também poderá trocar a tabela progressiva pela regressiva. Nesse caso, entretanto, o prazo de carência será zerado. Isso quer dizer que ao trocar a tabela progressiva pela regressiva hoje, você vai ter de esperar 10 anos para chegar na alíquota de 10% de IR.

Já a opção pelo tipo de plano é definitiva e não há como fazer alteração. Se você investe em PGBL, terá de continuar em PGBL. O mesmo vale para VGBL – você não consegue trocar para PGBL no meio do caminho. Caso esteja insatisfeito com o produto que contratou, a melhor solução varia de caso a caso. Meus 3 conselhos mais comuns são: 1) se você tem um PGBL na tabela regressiva e não se beneficia com o aumento da restituição do IR, interrompa os aportes, faça a portabilidade para um dos melhores produtos do mercado e espere até o prazo de investimento completar ao menos 10 anos para resgatar com a alíquota de 10%; 2) se você tem um PGBL na tabela progressiva, mude para a regressiva e para um dos melhores planos do mercado e espere o investimento completar ao menos 10 anos para ser resgatado com a alíquota de 10%; e 3) se você tem um VGBL na tabela progressiva ou regressiva que não foi contratado com fins de planejamento sucessório e não está contente com os resultados, resgate tudo, pague o IR sobre os juros e invista em bons produtos de renda fixa.

Erro #8 - Não pense em PGBL e VGBL como únicas opções para a aposentadoria

Um erro muito comum das pessoas que começam a planejar a aposentadoria é entrar no banco e perguntar qual é o melhor produto para investir. É óbvio que nesse caso o gerente indicará um PGBL ou um VGBL porque esses produtos são caros e vão garantir bons lucros para o banco durante décadas. Não é à toa que os gerentes geralmente têm metas esticadas de distribuição desses produtos. E como VGBL e PGBL são produtos desenvolvidos para o fim específico de previdência, quem ouve as explicações do gerente parece estar diante da melhor opção. Mas, como explicado acima, o único produto de previdência privada realmente diferenciado para o cliente é o PGBL no caso de pessoas que entregam a declaração completa do IR e não vão mexer naquele dinheiro por ao menos 10 anos. Todas as outras pessoas podem olhar para o mercado de investimentos como um todo antes de decidir em qual produto investir para a aposentadoria. Você pode escolher Tesouro Direto, CDB, LCI, LCA, fundos de investimento, debêntures, ações, etc. Todas essas aplicações podem servir muito bem para o planejamento de sua aposentadoria e a melhor opção é uma carteira diversificada.

Agora existe uma aplicação que os planejadores financeiros recomendam especialmente para a aposentadoria. Trata-se um título público vendido pelo Tesouro Direto chamado Tesouro IPCA+ ou NTN-B Principal. Esse papel sempre paga uma taxa de juros acima da inflação medida pelo IPCA. Então seu dinheiro sempre estará sendo corrigido acima da inflação e você ganhará poder de compra ao longo dos anos – algo ótimo para quem planeja poupar para o longo prazo. Gosto de Tesouro Direto porque o risco de crédito é muito baixo – a possibilidade de calote do Brasil é ínfima porque o governo sempre pode imprimir reais na Casa da Moeda para pagar os investidores. E há títulos longos o suficiente para você casar o prazo de vencimento do título com a data esperada da sua aposentadoria, adiando o pagamento de IR só para a data do resgate. Então se você planeja se aposentar daqui a 20 anos, pode comprar um Tesouro IPCA+ 2035 e manter o investimento até o vencimento que estará fazendo um bom negócio – a não ser que haja um bastante improvável calote do governo brasileiro.

Erro #9 - Prefira o fundo de previdência de sua empresa a um produto bancário

Melhor que todos os produtos de investimento oferecidos nas instituições financeiras pode ser o investimento no fundo de pensão da empresa onde você trabalha. Algumas grandes empresas oferecem a possibilidade de investir para a aposentadoria com um ganho de até 100% logo no momento de cada aporte. Vou ilustrar isso com outra experiência pessoal. Em 2007, comecei a trabalhar na Editora Abril, que publica a revista Exame. A empresa oferecia a seus funcionários a possibilidade de investir em seu fundo de pensão fechado, chamado Abrilprev. A regra básica é que eu podia investir 4,5% de meu salário nesse fundo que a empresa faria um aporte igual em minha conta. Por exemplo se eu colocasse R$ 500 por mês na Abrilprev, a Editora Abril colocava outros R$ 500. É lógico que há algumas travas para esse benefício. As duas principais são: 1) se eu saísse da Abril antes de completar 5 anos de trabalho lá, perderia todos os aportes feitos pela empresa em minha conta; e 2) se sacar o dinheiro investido na Abrilprev antes de me aposentar, também perderei metade do dinheiro investido. Mesmo sabendo que só valeria a pena se meu objetivo fosse de longuíssimo prazo, ingressei na Abrilprev para garantir o retorno de 100% logo na largada. Conversando com colegas da empresa, percebi que muita gente não investia na Abrilprev ou porque não estava confortável com o desconto mensal no salário ou porque não queria abrir mão de sacar o dinheiro por tanto tempo. Meu conselho é o oposto: se você tiver fundo de pensão na empresa onde trabalha, aproveite a oportunidade porque essa provavelmente será a opção de previdência mais rentável que você terá.

Erro #10 - Você pode ler esse texto e não fazer nada, mas daí nada vai mudar

Já aconselhei centenas de brasileiros a tomar atitudes para aumentar o retorno de seus planos de previdência e sei que muitos deles decidiram continuar com os produtos ruins em que já investiam ao invés de colocar meus conselhos em prática e começar a ganhar mais dinheiro. Há todo tipo de motivo para isso: desde preguiça a dificuldades burocráticas. Se você está se sentido disposto a fazer a portabilidade de um bom dinheiro que está acumulando num plano de previdência, esteja preparado porque é provável que o banco dificulte sua vida. A instituição pode demorar para passar a lista de documentos necessários para concluir a operação. O banco pode exigir o preenchimento de uma série de formulários e pode demorar em lhe passar informações que deverão constar nesses documentos, como o CNPJ do produto de previdência onde você investe hoje. Iniciar o relacionamento com uma corretora ou com uma seguradora provavelmente também vai lhe tomar algum tempo com o preenchimento de informações de cadastro e com o envio de documentos digitalizados. Talvez você perca uma ou duas horas da sua vida cuidando dessas burocracias e talvez demore um mês para que o processo de portabilidade seja concluído. Agora você se lembra da conta que fiz no início desse texto? Aquela que mostrou que investindo R$ 1.000 por mês durante 30 anos você acumulará R$ 3.289.333,50 se receber um retorno de 87,6% do CDI e R$ 6.210.073,47 se a rentabilidade for de 110% do CDI? Pois é, acho que esse é seu dilema. Você pode perder duas horas agora resolvendo o problema da sua previdência ou pode perder quase R$ 3 milhões quando se aposentar. A decisão é só sua.

perfil do autor

João Sandrini

É Diretor do InfoMoney. Atua como planejador financeiro com CFP® (certified financial planner), analista de ações com CNPI (certificado nacional do profissional de investimento) e membro da Comissão de Educação ao Investidor da Anbima. Possui 18 anos de experiência em mercado financeiro como jornalista, professor e assessor na montagem de carteiras de investimento. Graduou-se em Jornalismo pela ECA-USP e concluiu dois MBAs em Finanças pela FIA.

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