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Nas carteiras dos melhores fundos do Brasil, sai o dólar e entram as NTN-Bs

Os gestores dos fundos Verde, SPX Nimitz e Adam Macro ganharam muito dinheiro nos últimos tempos apostando na valorização do dólar contra o real, mas, em suas últimas comunicações, revelaram ter zerado a posição; agora a nova queridinha é a NTN-B

Dólar
(Shutterstock)

(SÃO PAULO) – Os gestores de fundos mais bem-sucedidos do Brasil fizeram uma drástica mudança nos portfólios nos últimos meses. A principalmente alteração foi a zeragem das posições de dólar contra o real. Já a nova aposta é na queda da inflação e das taxas de juros, com preferência por surfar esse movimento com a compra das NTN-B, os títulos do Tesouro Nacional que pagam a inflação medida pelo IPCA mais uma taxa de juros.

O fundo Verde, de Luis Stuhlberger, foi o último a revelar que abandonou uma antiga posição comprada em dólar contra o real, que vinha sendo carregada desde quando o dólar valia cerca de R$ 2. No relatório de gestão divulgado nesta semana, relativo ao mês de abril, o fundo disse esperar que o câmbio permaneça próximo à estabilidade, dentro de uma pequena banda de oscilação. De um lado há o Banco Central revertendo o enorme estoque de swaps, o que na prática funciona como um aumento de demanda por dólar, e do outro uma ausência ao menos temporária de motivos para o dólar avançar frente às principais moedas, como aconteceu em 2015.

Nesse cenário, o fundo Verde não só zerou sua posição de dólar contar o real, que chegou a superar 25% da carteira há alguns meses, como também abriu uma posição vendida em dólar contra o real, de maneira a se beneficiar das altas taxas de juros brasileiras. Ainda que não preveja mais a alta do dólar frente ao real, Stuhlberger agora tem uma “grande posição” de dólar contra a renminbi chinês. Ou seja, o gestor continua acreditando mais nos EUA que nos países emergentes, só que agora prefere apostar no fortalecimento do dólar contra a moeda chinesa do que contra o real.

Outro fundo renomado que ganhou dinheiro no passado com uma posição de dólar contra o real e que agora se desfez dessa tese foi o SPX Nimitz. Já na carta de gestão divulgada em abril, o fundo disse que continua comprado em dólar contra uma cesta de moedas, mas que, naquele momento, não tinha mais posição contra o real. A carta de maio do fundo ainda não está disponível. Por último, o gestor Marcio Appel, que entre 2008 e 2015 foi CEO da gestora de fundos do banco Safra e que acaba de abrir sua própria gestora, a Adam Capital, afirmou que zerou sua posição vencedora em dólar contra o real quando a moeda americana atingiu a cotação de R$ 3,85. Ele foi, portanto, o primeiro dos três gestores a abandonar a aposta na desvalorização do real. Appel também é o menos otimista em relação ao dólar em âmbito global: tanto que já montou uma posição comprada em euro contra o dólar.

Não é só pelo afastamento da presidente Dilma Rousseff que o dólar vem caindo. Outro fator importante foi a recuperação das commodities nos últimos dois meses. Além disso, a economia brasileira tem apresentado uma fraqueza extrema que derrubou as exportações e ajustou as contas externas.

A fraqueza da economia também explica a aposta dos gestores na queda da inflação e dos juros. Stuhlberger e Appel esperam capturar esse movimento por meio da compra de títulos públicos que pagam a inflação medida pelo IPCA mais uma taxa de juros. Esses títulos são chamados de NTN-B pelos profissionais do mercado e são vendidos a pessoas físicas no Tesouro Direto com o nome de Tesouro IPCA+.

Appel diz que comprou os títulos públicos com o vencimento mais longos do mercado: as NTN-B 2055. Como tem maior prazo, esses papéis tendem a registrar as maiores valorizações se os juros caírem. Em entrevista ao InfoMoney concedida há cerca de 15 dias, Appel disse que seu recém-lançado fundo Adam Macro FIC de FIM teria uma posição de 25% do patrimônio alocado em NTN-B 2055. Apesar de os juros reais pagos por esses papéis terem caído de mais de 7,5% ao ano para menos de 6% em poucas semanas, o gestor acha esse movimento ainda vai longe. Ele acredita que o Brasil será nos próximos anos muito parecido com um país desenvolvido, apresentando juros baixos e crescimento baixo. Nesse contexto seria possível reduzir os juros pagos pelas NTN-B para 3% ou 4% ao ano no longo prazo.

Stuhlberger concorda e escreveu na última carta do fundo Verde ver “bastante espaço para o juro real continuar caindo, expressando isso através de uma grande posição em NTN-Bs”. Ele não revelou o prazo dos papéis que decidiu comprar. Já o fundo SPX Nimitz também disse em sua última carta esperar o início de um ciclo de queda das taxas de juros, mas que, naquele momento, preferia uma alocação de prazo mais curto.

Opinião

Diante do consenso entre os maiores gestores do país, acho prudente seguir os mestres. O dólar deixa de ser uma alternativa de investimento com elevadas probabilidades de obtenção de retornos acima da taxa de juros. Considerando os juros de mercado e o câmbio atual, o dólar teria que ultrapassar R$ 4 em 12 meses para essa aposta valer a pena. Não me parece mais uma aposta óbvia e acredito que o investimento em fundos cambiais volta a ser indicado somente às pessoas que tem viagens internacionais programadas ou gastos no exterior. Seria, portanto, uma posição de proteção, e não de especulação.

Já o ganho com a NTN-B me parece bem mais provável. A nova equipe econômica que assume com Michel Temer deve cuidar melhor das contas públicas e afastar a percepção de que o Brasil possa dar um calote na dívida interna. O baixo crescimento permitiria a queda dos juros reais, gerando ganhos interessantes aos investidores que tiverem na carteira Tesouro IPCA+ com vencimentos longos. Outra forma de surfar esse movimento é com o fundo do próprio Marcio Appel, que está aberto para captação e tem aplicação mínima de R$ 50.000, ou com fundos de inflação como o BTG Pactual IPCA FI Renda Fixa (retorno de 18,36% nos últimos 12 meses) ou o Icatu Vanguarda FIC FI Inflação Curta Renda Fixa (ganho de 17,27% em 12 meses).

Para quem é um pouco mais agressivo, uma forma interessante de pegar essa queda dos juros reais na veia é com a compra de debêntures isentas de Imposto de Renda. Nas corretoras ainda há papéis como esses que pagam até IPCA + 9% isento de IR. Vale lembrar que essas debêntures têm risco de crédito: se a empresa não conseguir pagar suas dívidas, o investidor pode perder até tudo que investiu. Então só compre debêntures incentivadas de forma muito diversificada – por exemplo, invista em papéis de diversas empresas e nunca coloque mais de 1% ou 2% de seu patrimônio em uma única empresa.

Em relação à Bolsa, Appel e Stuhlberger estão muito céticos com os resultados da economia e das empresas brasileiras. Appel disse há 15 dias que estava esperando o melhor momento para abrir uma posição vendida em Ibovespa. Já Stuhlberger afirmou na carta desta semana que já tem uma “pequena” posição vendida. Se você estiver um pouco mais otimista que os dois gestores em relação à economia brasileira, uma possível forma de surfar a queda dos juros na Bolsa é com os fundos imobiliários. Esses fundos têm uma correlação negativa muito forte com os juros: se as taxas caem, os fundos se valorizam. Tanto que o Ifix, principal índice de fundos imobiliários negociados na Bovespa, acumula alta de 11,5% em 2016. Por último, outros ativos que se beneficiam diretamente da queda dos juros são as empresas que pagam elevados dividendos, como Taesa, Telefônica ou BR Properties, etc. Clique aqui e veja como montar uma carteira de dividendos. 

perfil do autor

João Sandrini

É Diretor do InfoMoney. Atua como planejador financeiro com CFP® (certified financial planner), analista de ações com CNPI (certificado nacional do profissional de investimento) e membro da Comissão de Educação ao Investidor da Anbima. Possui 18 anos de experiência em mercado financeiro como jornalista, professor e assessor na montagem de carteiras de investimento. Graduou-se em Jornalismo pela ECA-USP e concluiu dois MBAs em Finanças pela FIA.

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