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Além do dinheiro

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Caráter não se compra.

Em uma luta, o importante é bater mais do que apanhar e se manter de pé até o último round.

Aperto de mãos
(Shutterstock)

É pouco provável que muitos de nós não tenhamos cometido erros nessa vida.Erramos em nossas decisões e muitas vezes nos arrependemos, temos remorso, vontade de fazer diferente, mas eles fazem parte da nossa história e é também por meio deles que amadurecemos.

No período da coleta e análise de dados da minha dissertação de mestrado, precisei transcrever as diversas entrevistas vídeogravadas que serviriam como instrumento metodológico.

Um ex-aluno estava desempregado e me procurou dizendo que precisava de dinheiro. Como ele tinha facilidade com digitação, propus a ele que fizesse esse trabalho de transcrição. As 3 primeiras entrevistas foram transcritas por ele, entregues e pagas por mim, uma a uma. Depois disso, precisei fazer mais 3 transcrições e o ex-aluno me pediu adiantamento do valor já que estava em uma situação financeira complicada.

Ex-aluno, conhecido, entregou corretamente os trabalhos anteriores, precisando de dinheiro ... por quê não?

Pois bem, adiantei o valor e estou esperando as transcrições até hoje. Se mandou, deu cano, bolo, ficou com o dinheiro e não entregou o serviço. A história é complicada, pois não sumiu de repente, dizia que estava terminando, que entregaria na outra semana, mas teve um problema e precisou postergar, entregou e achou estranho eu não ter recebido, deu problema no computador e as histórias se repetiam e o meu trabalho ficando atrasado. Uma pessoa que me encontrava com frequência. Até que precisei assumir o prejuízo financeiro e o tempo perdido.

Sabe aquele pintor que precisa fazer o supermercado do mês e pede adiantamento do serviço? Também caí nessa. Ele vivia na região. Hora ou outra eu o encontrava e o sujeito sempre tinha uma desculpa diferente, dizendo que na semana seguinte viria fazer o serviço. Dancei.

Já fui enganado muitas outras vezes, infelizmente acreditando na boa índole do ser humano. Utopia. Brasileiro não tem fama de malandro à toa. Além disso, tive a sorte de sofrer alguns assaltos. Sabe como é: vão-se os anéis, ficam-se os dedos. Uma ova! A gente trabalha tanto, manhã, tarde, noite, finais de semana e do nada, alguém te aponta uma arma e tira de você o reconhecimento dos seus esforços, as suas conquistas, sem qualquer esforço.

No final de 2017 fui passado para trás mais uma vez. No levantamento bibliográfico para a escrita da minha tese de doutorado, encontrei obras nos Estados Unidos que me seriam úteis. O problema é que o valor que se gasta em frete é ligeiramente maior que o valor das obras. Além disso, sabemos que o serviço de entrega no Brasil é deplorável. Achei que deveria questionar entre os amigos se tinha alguém ali que pudesse me trazer esses livros.

Pois bem, uma ex-aluna me disse que estava indo para a casa do irmão em Washington e que retornaria em janeiro de 2018. A ideia era pedir os livros na livraria online e mandar para o endereço por ela informado. Ela me retornou dizendo que ao lado da casa do irmão tinha uma livraria e que poderia consultar o valor das obras, evitando o custo com o frete. Retornou-me informando que encontrou todas as obras e o valor era realmente menor. Nessas condições, é minimamente educado nos oferecermos para pagar antes da partida ao exterior, afinal de contas, não é justo a pessoa comprar as suas coisas com o dinheiro dela.

Em janeiro cobrei os livros e a história começou com o desfazer das malas no final de semana. Depois não teve tempo, pois estava na casa de um parente. Carnaval, sabe como é. As obras ficaram na casa da mãe, depois foram para a empresa e as historinhas eram sempre bem criativas.

Na verdade estou farto dessa gente que quer levar vantagem em tudo. Estou cansado de ver tanta mentira, corrupção, roubo, desvios, malandragem, picaretagem, estelionato, apropriação indébita, suborno, sonegação, caixa dois ... essas coisas que parecem arraigadas na cultura brasileira. Lamentavelmente, o povo põe todos os males na conta dos políticos, mas esquece de onde eles vieram.

Não sei dizer se mais me conforta ou incomoda saber que essa gente não vale o que come. Talvez você, leitor, questione: Não aprendeu? Não cansou de ser passado para trás?

Minha resposta: isso é defeito dessas pessoas, não meu. Perco dinheiro, mas não perco a minha honra, minha ética, meus valores e minha moral.

Fico inconformado com a quantidade de delitos diários desse país e penso muito sobre o tamanho do custo disso. Quanto estamos pagando pela desonestidade cultural? Qual seria a nossa qualidade de vida se não houvesse essa malandragem aparentemente esperta? 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

perfil do autor

Silvia Alambert

Silvia Alambert é fundadora e CEO da The Money Camp® no Brasil. Educadora financeira de crianças e jovens, é certificada e licenciada pela Creative Wealth® Intl (USA) e coordenadora do projeto de educação financeira para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade sócio-econômica pelo ITESA (Instituto de Tecnologia Social Aplicada).

Eli Borochovicius

é professor da The Money Camp® na região metropolitana de Campinas e professor de finanças e gestor de orçamento da PUC-Campinas. Trabalhou por mais de 15 anos em empresas financeiras no Brasil e foi diretor financeiro no exterior. É mestre em educação pela PUC-Campinas, possui MBA Executivo Internacional pela FGV, MBA em empreendedorismo pela Babson College/US, pós-graduado em política e estratégia pela USP e formado em Comércio Exterior e Diplomado pela ADESG/SP.

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