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Manipulando virtualmente a opinião pública

A redes sociais estão servindo aos interesses daqueles que querem manipular a opinião pública.

Embora as redes sociais sejam espaços de livre expressão e socialização dos indivíduos, são também recursos instrumentais para a propaganda política digital. Por servirem como plataformas de engajamento e canais de disseminação de conteúdo, sendo muitas vezes fontes primárias de notícias, elas têm influência direta sobre a formação do imaginário coletivo.

A opinião pública é hoje manipulada pelo uso político dessas ferramentas digitais em associação com técnicas que combinam a garimpagem de grandes conjuntos de dados sobre indivíduos e a criação de contas de usuários robóticos, que inundam a rede de materiais panfletários, notícias falsas, campanhas de desinformação e críticas difamatórias, usando algoritmos programados (que aprendem artificialmente e medeiam debates).

Para analisar o impacto dessas ações, a Universidade de Oxford vem desenvolvendo um projeto de investigação sobre propaganda computacional em 29 países, inclusive no Brasil. Os resultados das pesquisas indicam que essas atividades ideológicas e francamente programáticas têm influenciado a opinião pública em escala global.

Exemplos de atividades de manipulação política digital foram identificadas em duas importantes votações recentes, com ampla repercussão na política internacional: o referendo popular do Brexit no Reino Unido e as eleições para a presidência dos Estados Unidos, em 2016.

No caso do referendo britânico, foi descoberto o uso de contas automatizadas que foram responsáveis por guiar as discussões estratégicas no Twitter a favor e contra a manutenção do país na União Europeia.

Já nas eleições americanas, resta comprovado que foram feitas campanhas de desinformação, veiculação de críticas difamatórias e ainda usados algoritmos programados no Twitter e no Facebook.

O desvendar dessas ações vem sendo amplamente discutido pela mídia. Bloomberg, Politico, The Guardian e Das Magazin, fizeram matérias investigativas bem fundamentadas a respeito, demonstrando de que maneira esses recursos de propaganda virtual produziram resultados em favor da escolha do presidente Donald Trump em sua campanha em 2016.

Esses veículos de comunicação mostram que a Cambridge Analytica e a Strategic Communications Laboratories (SCL), duas empresas especializadas em big data, psicologia social e comunicação estratégica, serviram à campanha do presidente Donald Trump, da mesma forma como já haviam sido utilizadas pelo senador Ted Cruz, nas prévias do Partido Republicano.

As tecnologias combinadas por essas empresas geram sofisticados perfis psicográficos dos usuários das redes sociais, identificando mensagens orientadas à persuasão de grupos de eleitores com base em padrões de comportamento. Em adição a esses mecanismos, foram usados perfis automatizados que publicaram conteúdos interativos para usuários reais e para reprodução por outros robôs.

Embora pareça um cenário de ficção científica, está claro que atualmente os conhecimentos adquiridos pelas pesquisas nas áreas de ciências sociais e da computação estão sendo aplicados nas estratégias de propaganda política em praticamente todos os países, com maior ou menor sofisticação. No Brasil, há anos esses recursos vêm sendo utilizados com muita eficiência e apuração tecnológica.

Pesquisas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e de outras instituições mostram que recursos de automação da informação e propaganda política virtual foram usadas nas eleições presidenciais de 2014, no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, nas eleições municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo em 2016, na aprovação pelo Congresso Nacional da Reforma Trabalhista e na greve geral de 2017.

O uso instrumental das redes sociais no Brasil tem sido orientado à fabricação artificial de consensos políticos nas redes sociais, disseminação de campanhas difamatórias, fabricação de falsas notícias e ações de desinformação. Esses recursos têm guiado a opinião pública, manipulando pesquisas virtuais, disputas narrativas e a percepção pública de temas determinantes para a democracia.

Como revelado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, na Pesquisa Brasileira de Mídia 2016, 49% das pessoas no Brasil se informam, mesmo que eventualmente, pela internet. A Pew Research Center mostra que 62% dos adultos nos Estados Unidos têm acesso a notícias essencialmente por meio das redes sociais. Isso indica que as técnicas de propaganda política virtual podem ser muito danosas à sociedade, se manipulativas e aplicadas em função de interesses antidemocráticos.

Há casos escabrosos envolvendo ataques virtuais a jornalistas e dissidentes políticos por autoridades governamentais usando contas automatizadas no Brasil, na Argentina, no México, na Rússia e em muitos outros países. Também foram identificados recentemente vários casos de propaganda ideológica, doutrinamento social e mensagens de ódio fabricados por governos.

Por esses e outros motivos não tão nobres, há uma tendência global de regulação das redes sociais e espaços virtuais. Contudo, talvez não seja adequado se apontar o dedo em riste para a tecnologia e para as empresas que se apropriam de conhecimentos da área de psicologia social ou da propaganda política.

Dar visibilidade às estratégias utilizadas, criar mecanismos de notificação e resposta eficientes para abusos e meios de rastreamento de condutas criminosas com identificação dos seus autores deveriam ser os objetivos dos legisladores que precisam enfrentar com inteligência os problemas cada vez mais complexos da nossa sociedade.

 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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(Shutterstock)

perfil do autor

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Ivan Ervolino

Doutor em Ciência Política pela UFSCar - Universidade Federal de São Carlos

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Danilo Amaral de Oliveira

Bacharel em Engenharia de Computação pela UFSCar - Universidade Federal de São Carlos

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Eduardo Galvão

Mestre em Direito pelo UniCEUB – Centro Universitário de Brasília

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Denilde Oliveira Holzhacker

Doutora em Ciência Política pela USP - Universidade de São Paulo

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Bruno Alves

Mestre em Desenvolvimento Sustentável pela UnB - Universidade de Brasília

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