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Economia com Renata Barreto

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Entenda melhor sobre o plano Real antes de assistir ao filme

Ontem o filme sobre o Plano Real estreou nos cinemas de todo o país. Para alguns, essa história parece velha, desinteressante e até mesmo irrelevante. Muitos não viveram as épocas de hiperinflação e comentam sobre a conjuntura macroeconômica do país como se nossa história se resumisse no pós 1994. Infelizmente, boa parte da nossa esquerda histérica também está fazendo coro contra o filme, em vez de entender sobre o que realmente aconteceu e poder reconhecer, inclusive, que aqueles que foram contra o plano estavam errados. Antes de assistir o filme, eu conto em mais detalhes essa história para você não ficar perdido! 

Real - O Plano Por Trás da História
(Divulgação)

Abra sua a carteira e pegue uma cédula. O Brasil mudou completamente desde que essa moeda foi colocada em circulação e, desde então, passou por, crises, subidas e descidas. Mas você sabe como é que chegamos até aqui e o porquê desse passo ter sido tão importante? Vou assoprar a poeira das memórias dos últimos 23 anos e te contar essa história. Aguente firme até o final!

 

Quem nasceu depois da implantação do plano Real não lembra como foram difíceis os tempos antes da estabilidade da moeda e da falta de confiança internacional na economia brasileira. Hoje, 21 anos depois, é importante lembrarmos da história para saber como chegamos até aqui e o que pode representar essa data histórica da maior desvalorização do Real desde que este foi criado.

O Plano Real foi implantado em 1994. Nessa época eu tinha apenas 9 anos de idade, mas lembro-me perfeitamente da professora de matemática. Eu tinha sérias dificuldades para entender matemática naquela época, mas a Prof. Eglê deu uma explicação bastante didática sobre a nova moeda. Após a explicação, ela lembrou a todos: “Não joguem mais moedas no lixo, agora elas têm valor”. Nunca mais esqueci dessa frase. Na época não entendia muito bem por que mudávamos de moeda o tempo todo, por que meus pais faziam estoque de comida em casa e nem por que o plano Real era um marco importante na vida dos brasileiros. Anos mais tarde fui estudar Economia e tudo começou a fazer sentido.

Quem viveu na época pré-Plano Real sabe que a instabilidade da moeda fazia parte da vida, assim como a inflação que não dava trégua. Meu pai foi bancário durante muitos anos e me contava a loucura que era passar de um plano para outro, as noites trabalhando em claro e imensa fila de clientes na porta. Antes do Real tivemos dez moedas e sete planos econômicos diferentes. Em meados dos anos 80, a inflação era de 80% ao mês. Na troca de plano para o Cruzado, houve congelamento dos preços, o que trouxe óbvia redução da rentabilidade dos produtores e consequente redução de produtos à disposição. Houve até mesmo racionamento na compra de alimentos. Depois ainda tivemos o Plano Bresser e o Plano Verão, com congelamento de preços novamente. Parece que não haviam aprendido que essa fórmula não dá certo, mergulhando o país em uma inflação ainda pior. Depois, no curto período de mandato de Collor, houve os planos Collor I e II que ficaram conhecidos pelo confisco dos depósitos bancários e da poupança. Além das medidas duras para frear o consumo e tentar reduzir a inflação que já batia 82% ao mês nessa época, houve aumento de tributação, fins de alguns subsídios e cortes no setor público. Com um pacote de medidas elaborado pela então ministra da Economia Zélia Cardoso de Mello e sua equipe, o Brasil teve o pior resultado de sua história após a II Guerra, com queda de 4,3% no PIB no ano de 1990 e inflação superior a 1600% em 12 meses. Em 1993, logo após Impeachment de Collor, a inflação já era de mais de 2.400% no acumulado de 12 meses.

Itamar Franco assumiu a presidência após a saída de Collor. Três trocas de ministro da Fazenda se sucederam até trazer Fernando Henrique Cardoso. Ele constituiu um time de peso com Gustavo Franco, Pedro Malan, André Lara-Resende, Pérsio Arida e Edmar Bacha. Juntos criaram o Plano Real, plano esse que é o mais longevo da história do Brasil.

O começo da implantação do Real se deu em 27 de fevereiro de 1994 e foi por etapas. Em primeiro lugar, foi criada a chamada URV – unidade Real de Valor, medida fundamental para desindexação da Economia. Esta nova unidade monetária era vinculada à taxa de câmbio, ficando mais protegida da inflação. Aos poucos, os preços eram recalculados baseando-se nisso. A adoção dessa medida foi importante para estabilizar os preços sem congelá-los e sem haver confisco de poupança, medidas drásticas de pouca eficiência. No dia 1º de julho de 1994 as cédulas de Real foram colocadas em circulação, na proporção de R$1,00 para CR$ 2.750,00.

O plano Real foi o mais eficaz na estabilização da economia, o único que conseguiu reduzir a hiperinflação mesmo sem recorrer ao congelamento de preços e com retração da Economia. Além da implantação da URV que foi importante na transição para a nova moeda, algumas outras medidas foram de fundamental importância para a estabilização da economia e a retomada da confiança internacional. Houve uma rodada importante de privatizações, modernizando as empresas e melhorando a quantidade de recursos para uma produção mais eficiente. Houve cortes drásticos nos gastos do governo e aumento de impostos para equilíbrio das contas públicas. A política monetária adotada foi restritiva, com aumento de juros e do compulsório para reduzir a pressão por financiamentos e reduzir a quantidade de crédito disponível, segurando o consumo. Também tivemos o começo da abertura econômica, com redução gradual das tarifas de importação, tanto para que os preços dos produtos produzidos internamente não começassem a subir demais por alta na demanda, quanto para forçar a melhora da indústria nacional. Com a concorrência, além da melhoria dos produtos oferecidos, teríamos uma consequente queda nos preços. Houve também aumento drástico nas reservas internacionais, para que com um volume alto de dólares, o plano Real tivesse credibilidade e não gerasse nova rodada de fuga de capitais que aconteceu em outras ocasiões.

A inflação nos anos seguintes caiu muito, com 22,41% já em 1995 e 9,56% em 1996. Entretanto, o Real ainda passaria por algumas provações sérias que trariam mais mudanças.

 

Em 1998 a Rússia entrou em crise financeira, com anúncio de forte desvalorização da moeda e moratória, além de estar passando por confrontos com a Chechênia. Os investidores estrangeiros que já tinham sentido muito a crise Asiática do ano interior, iniciaram nova fuga de capitais em direção ao dólar. Isso atingiu em cheio os outros mercados emergentes, inclusive o Brasil. As reservas internacionais caíram drasticamente, ao passo que o governo tentava preservar o valor do câmbio, que naquele momento ainda estava sob regime fixo. Depois de muitas tentativas do governo em segurar o câmbio e com suas reservas em ponto crítico, em 1999 veio o câmbio flutuante, que significa que o preço da moeda seria definido aos sabores do mercado, basicamente por oferta e demanda. A partir daí foi criado o tripé macroeconômico, marca da gestão de FHC, que consiste em câmbio flutuante, metas de inflação e de superávit primário (que é resultado positivo entre despesas e receitas do governo, excluindo-se o pagamento de juros). Esse último conta com o que chamamos de Lei da Responsabilidade Fiscal, impondo um controle de gastos por parte da União, sendo obrigatório que as finanças sejam apresentadas detalhadamente ao TCU – Tribunal de Contas da União. Se as contas forem rejeitadas, pode resultar em multas e até proibição de disputas de novas eleições. O Plano Real ainda passaria pela crise do Nasdaq em 2000.

No ano de 2002, último de FHC, inflação, que já tinha ficado abaixo de 6% em 2000, voltou a patamares mais altos, fechando a 12,53%, principalmente puxado pela alta do dólar. Nesse ano, Lula foi eleito e com ele, o famoso Risco-Lula. O mercado temia que o ex-metalúrgico e sindicalista desse calote nas dívidas interna e externa (como ele já havia prometido) e fizesse uma administração populista desastrosa, como a de seu amigo Hugo Chavez na Venezuela. Naquele momento houve uma incerteza muito grande pelo mercado de como seriam as coisas nas mãos do novo Presidente e o dólar chegou a máxima de R$3,99. No entanto, ao assumir em 2003, Lula publicou a famosa carta aos brasileiros fazendo alguns compromissos e, com o tempo, foi visto que ele manteria o tripé macroeconômico, com a nomeação de Antonio Palocci para o ministério da Fazenda e Henrique Meirelles, ex-banqueiro, para Presidente do Banco Central. Essa foi uma grande surpresa ao mercado.

Os anos que se seguiram foram ótimos do ponto de vista do cenário internacional e da melhora constante das contas públicas e geração de superávit. Houve expressiva alta do preço das commodities e uma intensa demanda, principalmente por parte da China. Éramos e ainda somos grandes exportadores de commodities, tais como soja, minério, carne, leite, alumínio, entre outros. Isso não tem nada de errado, se não fôssemos praticamente exclusivos nessa modalidade. Isso significa que o preço das commodities no mercado internacional é de extrema importância para a economia brasileira, dependendo da exportação de bens primários e, portanto, dependentes dos preços das commodities também.

No primeiro mandato de Lula, o preço das commodities subiu algo em torno de 120% e no segundo, cerca de 50%. A própria crise internacional de 2008, com a quebra do Lehman Brothers e problemas com créditos chamados Subprime, levou o preço das commodities ainda mais para cima, se mantendo em níveis elevados por cinco anos. Com essa receita alta e uma gestão dos gastos públicos bem-feita com metas de superávit e inflação mantidas, tivemos anos de pujança econômica. Em 2008, mesmo com a crise internacional, veio o tão sonhado Investment Grade, ou o “selo de bom pagador” dado pelas agências de risco internacionais. Isso era a coroação de um Brasil mais confiável.

 

Infelizmente, nos anos seguintes as trapalhadas econômicas e populistas da pupila de Lula deram o ar de sua graça, nos deixando a pior crise desde os anos 1930. O Real se desvalorizou fortemente em 2015 e no começo de 2016, voltando para patamares menos assustadores após o Impeachment de Dilma. Mesmo assim, ainda estamos numa situação difícil, com elevado endividamento e necessidade urgente de reformas em todos os âmbitos. Está na hora de voltarmos a tomar medidas inovadoras para sair da crise e nos reinventarmos, ou seremos apenas loucos tentando conseguir resultados diferentes fazendo as mesmas coisas.

 

Bom filme!! 

 

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Renata Barreto

Renata Barreto é economista, empresária, atua no mercado de capitais há 13 anos com experiência em trading, estruturações e advisory, nos mercados doméstico e internacional. Já lecionou para cursos de finanças, introdução à economia e cursos preparatórios para certificações. Hoje concentra seus negócios em consultoria de investimentos, projetos e tem paixão por escrever sobre política e economia.

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