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Economia com Renata Barreto

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A cruzada da mídia contra o gestor que quis ser político

Faz apenas 17 dias que João Dória assumiu a prefeitura de São Paulo. Nesse meio tempo, as manchetes dos mais diversos canais de mídia tentam, a todo custo, achar algo para desqualificá-lo, principalmente usando o fato de ele ser um empresário dono de um patrimônio de aproximadamente R$180 milhões. Jornalistas que deveriam, eticamente, informar seus leitores, estão numa briga de foice com a prefeitura. É claro que é importante e crucial criticar as ações de políticos (de todos os políticos, por sinal), a mídia é feita para isso mesmo, mas até que ponto a ideologia de alguns pode fazê-los sucumbir a falta de ética e manipulação de informação?

João Doria
(/Edu Lopes)

João Dória é, como todos sabem, um empresário bem-sucedido que resolveu se aventurar na política. Segundo ele, estava cansado de ver as coisas malfeitas e bancou do seu próprio bolso praticamente toda a campanha. Eu, que não sou fã de político nenhum e sempre desconfio de tudo, confesso que achei a atitude muito boa para ser verdade. Se fosse eu, com toda essa grana no bolso, estava provavelmente tomando um mojito nas Ilhas Seychelles em vez de arrumar um abacaxi deste tamanho. Além disso, não gosto do partido pelo qual ele se candidatou, o PSDB, coisa que nem preciso justificar os motivos aqui porque todo mundo que é minimamente consciente, sabe que além de uma péssima oposição no âmbito federal, foram alvos de diversos escândalos e são como um PT arrumadinho. Diante das opções que tínhamos, entretanto, achei que era a melhor votar num empresário que dizia que não queria ser político, mas gestor, do que manter Fernando Haddad. Ciclovias e mobilidade urbana são muito legais e bem-vindas, mas a cidade precisa de muito mais do que isso. Mesmo assim, a mídia vivia um caso de amor com Haddad.

Dória sempre era questionado pelo tamanho do seu patrimônio durante a campanha, como se ganhar dinheiro honestamente fosse um problema. Os mesmos jornalistas que defendem políticos corruptos e suas políticas públicas furadas, travaram uma briga inacreditável contra o candidato tucano usando como arma apenas o fato de ele ser rico. Não colou. Dória venceu logo no primeiro turno, o que é algo inédito na cidade de São Paulo. Qual é a reflexão que isso nos traz, seja qual for seu viés ideológico ou preferência de partido ou político? Que as pessoas da cidade queriam algo diferente. Das 58 zonas eleitorais da cidade, Dória venceu em 56, inclusive nas regiões da periferia onde o PT sempre venceu. Não precisa ser muito inteligente para perceber que algo deu errado na gestão de Haddad, certo? Mas uma boa parte da mídia preferiu dizer que o eleitor é que ficou burro de repente e não sabia mais votar. Em vez de fazer uma reflexão sobre isso, preferiram atacar o eleitorado. E os ataques estavam só começando!

Em seu primeiro dia como prefeito, Dória reiterou algumas das promessas de campanha como zerar a fila por exames médicos no SUS, zerar o número de espera por vagas em creches, cortar gastos, aumentar a velocidade das marginais, limpar a cidade e melhorar abrigos. Como bom marqueteiro que é, se vestiu de gari e foi inaugurar o projeto "Cidade Linda", varrendo a calçada rapidamente para tirar fotos e prometer que agora a cidade seria melhor cuidada. Sim, eu também achei esta uma ação populista para mostrar serviço. Mas queria mesmo era ver se aquilo que estava sendo falado seria cumprido. Quando Fernando Haddad foi de ônibus para o SP Fashion Week, carregado de fotógrafos por todos os lados, a mídia encarou isso como algo bacana e descolado. O velho e bom "um peso e duas medidas."

Vestido de Gari em seu primeiro dia de trabalho

E as ações concretas? 

Dória fechou parceria com empresas privadas para melhorar os abrigos para sem-teto, conseguindo doações de sabonetes e shampoos com a Unilever, alimentos orgânicos com a Mundo Verde, tintas com a Coral, o SENAC irá fornecer cursos profissionalizantes, além da parceria com a rede hoteleira Accor para revitalização dos ambientes e cursos de capacitação. Antes, os desabrigados eram separados entre homens e mulheres e não podiam levar seus companheiros caninos. Agora, aceitam-se famílias e também haverá canis espalhados pelos mais de 80 abrigos da cidade. ONGs que administravam tais abrigos recebiam em torno de R$15 milhões da prefeitura na gestão passada, mas ainda sim faltavam alimentos, vasos sanitários, colchões e cobertores. 

Outra promessa que começou a ser cumprida veio com o Corujão da Saúde, que pretende zerar as filas de exames pelo SUS em até três meses. Através de parcerias com hospitais de primeira linha, inclusive o famoso Albert Einstein, 485 mil pessoas que aguardavam por exames, algumas por mais de um ano, serão atendidas em horários alternativos.

Em relação às creches, foi anunciada a criação de 66 mil novas vagas que serão disponibilizadas em até 12 meses. Isso ainda não é suficiente para zerar a fila por essas vagas, que hoje está na casa dos 130 mil. A ideia do prefeito é utilizar espaços de agências bancárias para fazer creches e destinar R$230 milhões dos cofres públicos.

Houve também o anúncio de corte de gastos, sendo 15% em todos os contratos, excluindo-se os de saúde, educação e transporte. 30% dos cargos comissionados serão cortados, além da devolução de 1300 carros alugados que, sozinhos, custavam mais de R$10 milhões mensais à prefeitura. Também deverão ser cortados 30% dos aluguéis. As estimativas apontam que serão reduzidos até 15% do orçamento total da cidade, que representa uma economia de R$8 bilhões, de forma gradual.

O projeto Cidade Linda, por sua vez, é uma força-tarefa de limpeza da cidade que consiste não só na retirada de lixo, como poda de árvores, corte de grama, desentupimento de bocas-de-lobo, reparos na via urbana e adequação das calçadas conforme a lei. Além disso, o projeto pretende eliminar pichações e destinar oito locais específicos para o grafite. Um outro projeto pretende revitalizar alguns bairros da cidade através de parcerias com consulados, como no Largo do Arouche e Liberdade. A prefeitura também passou a fiscalizar intensamente o número de artistas que expõem seus produtos na Av. Paulista, já que por determinação de uma lei promulgada na gestão anterior, o número máximo seria de 50 pessoas e em pontos específicos da via. Na prática, entretanto, o número é bem maior e não há fiscalização. 

Dória também irá rever gastos da Secretaria de Educação que não estejam diretamente ligados ao ensino, como a distribuição de leite, material escolar e transporte para os alunos. No fim de sua gestão, Haddad já havia reduzido a entrega de leite, justamente por contar com um problema orçamentário. Segundo o secretário de educação, é preciso fazer um pente fino nesses programas para adequar ao que realmente for necessário, mas ainda não foi divulgado nenhum corte. 

Em relação às passagens de ônibus, Dória havia prometido que não haveria ajustes. Entretanto, o governador Geraldo Alckmin propôs reajustes nas tarifas de integração de ônibus com trilhos e nos bilhetes temporais, aumento esse baseado na inflação estimada para 2016 pela Fipe. O pedido foi barrado por uma liminar que suspendeu os reajustes, dizendo que estariam acima da inflação. Essa medida acabaria por neutralizar a promessa do prefeito.

No dia 25 de janeiro, as velocidades das marginais Pinheiros e Tietê serão aumentadas para o que era antes - 90 km/h na pista expressa e 70 km/h na pista local. Também será reaberto o viaduto Nove de Julho que na gestão de Haddad era apenas para ônibus. A partir desta data serão permitidos carros que estejam com pelo menos dois passageiros.

De todas essas medidas que já foram tomadas em pouco mais de duas semanas de mandato, você pode ter a opinião que quiser. Pode achar bom, ruim, pode achar que precisa melhorar, pode ter suas ressalvas, pode achar que deveria ser feito de outro jeito, pode não concordar. O fato é que boa parte da mídia está mais atacando o prefeito do que fazendo seu trabalho de informar corretamente o que cada medida representa, como estava cada setor na gestão anterior e as intenções do prefeito segundo suas entrevistas. Manchetes tendenciosas e que beiram o bizarro da falta de ética podem ser vistas todos os dias. Até mesmo uma foto de um carro da prefeitura parado em local proibido - autorizado na ocasião pela CET por conta de um evento, foi colocada como manchete. Alguns exemplos de manchetes:

"Dória, o prefeito showbiz, tira leite, mas dá shampoo" - Brasil 247

"Dória usa tom de autoajuda e alta frequência para bombar no Facebook" - UOL

"Políticas de Dória são higienistas e dificilmente vão mudar vida de morador de rua, dizem especialistas" - R7

"O prefeito de cashemire que não quis matar mosquito" - Huffpost Brasil

"João Dória apaga pichações e suja tênis de marca" - VEJA

"Corujão tem idoso na madrugada e exame sem reavaliação médica" - Estadão

"Após visita de Dória, Itaim Paulista convive com lixo e ruas esburacadas" - IstoÉ

"TV mostra carro de Dória parado em frente a placa de proibido estacionar" - Folha

"Prefeito Dória, seu maior desafio será o de sair da bolha" - El País Brasil

Resumo da ópera: Para saber se ele realmente vai ser um bom prefeito que mereceu o voto de tantos paulistanos que lhe deram a vitória em primeiro turno, melhorar a cidade e a vida das pessoas DE VERDADE, é preciso muito mais tempo do que este curto período e devemos estar atentos, criticá-lo, clamar por mudanças necessárias e analisar tudo de forma lógica. O fato é que uma legião de jornalistas militantes inconformados com a derrota do antigo prefeito, esquecendo totalmente suas funções primordiais nesta profissão, farão de tudo para manipular as notícias e não ter que, eventualmente, dar o braço a torcer. É importante sim sermos críticos, desde que com informações pertinentes e uso irrestrito da verdade. 

Vamos ser mais coerentes? 

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Renata Barreto

Renata Barreto é economista, empresária, atua no mercado de capitais há 13 anos com experiência em trading, estruturações e advisory, nos mercados doméstico e internacional. Já lecionou para cursos de finanças, introdução à economia e cursos preparatórios para certificações. Hoje concentra seus negócios em consultoria de investimentos, projetos e tem paixão por escrever sobre política e economia.

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