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Economia com Renata Barreto

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Você sabe a importância do mercado de capitais?

Muita gente fala a respeito de bolsa de valores, dólar, investimentos, mas não sabe exatamente explicar o que é o mercado de capitais e porque ele é tão importante. Muitos também acham que o mercado é feito apenas de grandes players, que os produtos não podem ser acessados pela maioria das pessoas e que só servem para os grandes ganhar ainda mais dinheiro. A verdade é que, por causa do mercado de capitais e seus desdobramentos, muitos dos investimentos produtivos ficariam concentrados nas mãos dos grandes empresários. O mercado de capitais democratiza o uso de recursos e hoje vou explicar como isso acontece.

Trader
(Shutterstock)

A primeira coisa a se saber é qual é a definição exata de mercado de capitais. Este nada mais é que um sistema de distribuição de valores mobiliários, com o objetivo de prover liquidez aos vários títulos existentes, de forma a melhorar o fluxo de capitais entre os agentes econômicos. É formado pelas bolsas de valores, sociedades corretoras, bancos e outras instituições financeiras. E por que é tão importante? Ora, numa economia desenvolvida, é importante que os fluxos financeiros sejam feitos de forma eficiente e segura entre os agentes econômicos. Quem são esses agentes? Eu, você, todo mundo que tem algum tipo de poupança, os bancos, as corretoras, as empresas e os governos. Com o mercado de capitais fica mais fácil realizar investimentos em grandes empreendimentos ou comprar partes de empresas (uma ação, por exemplo, é a menor fração do capital social de uma empresa), ajudando esta a se financiar de uma forma mais barata do que por empréstimos. Dessa forma, a empresa poderá reinvestir o dinheiro obtido na compra de máquinas, ampliando sua capacidade, contratando mais pessoas, inovando em várias áreas e contribuindo para geração de riqueza da região em que estiver. Isso é muito importante!

Num ambiente econômico, é normal que alguns agentes econômicos consumam menos do que produzem e, com isso, tenham poupança disponível, enquanto que outros agentes consumam mais do que produzam e precisem utilizar os recursos desses poupadores. São inúmeros os motivos pelos quais isso acontece e, através do mercado de capitais, a transferência desses recursos fica mais eficiente e segura. Esse fluxo de capitais é de extrema importância para a economia, possibilitando mais desenvolvimento das empresas e das regiões onde elas se situam, assim como melhorar a utilização dos recursos dos poupadores.

Por exemplo, vamos supor que não tivéssemos um mercado de capitais e um sistema financeiro desenvolvido. Se uma pessoa ou empresa precisasse se financiar por algum motivo, seria bastante complexo conseguir o montante necessário, pelo prazo que fosse preciso, requerendo apenas a pessoas físicas ou empresas que tivessem um montante de poupança disponível. Como garantir que esse empréstimo seria pago? E como saber que o motivo para o empréstimo seria aquele mesmo, como saber o risco que se corre? Que taxa cobrar e como receber de volta o empréstimo, por parcelas, de uma vez só, com amortizações periódicas? Dessa forma, poucos negócios se concretizariam e a economia seria muito pouco desenvolvida, já que o capital estaria concentrado em poucas mãos. Com o tempo, para suprir essa demanda, as instituições financeiras começaram a surgir. Basicamente, o papel delas é de intermediação entre os poupadores e tomadores, equalizando esse fluxo de capitais. Aos poucos, o sistema financeiro foi desenvolvido, criando-se diversos instrumentos, sistemas, regras e procedimentos, dando liquidez ao mercado de forma geral e protegendo ambas as partes. O mercado de capitais é uma verdadeira aula de democracia.

Um dos mais famosos instrumentos do mercado de capitais é a bolsa de valores. Este é um mercado organizado onde se negociam ações de empresas com capital aberto (sociedades anônimas públicas ou privadas), entre outros valores mobiliários. Como já sabemos, uma ação equivale à menor fração do capital social de uma empresa e, ao comprar uma ou mais ações, você está comprando parte da empresa, tornando-se sócio dela. Para a empresa lançar as ações no mercado, ela faz um IPO – Initial Public Offering – que é o que chamamos de mercado primário, ou seja, quando as ações são negociadas pela primeira vez e o montante arrecado vai direto para a companhia. Além de vender parte da companhia (geralmente os acionistas majoritários são os donos da companhia) e arrecadar recursos para serem utilizados em investimentos na empresa e aquisições, por exemplo, ter o capital aberto implica em maior transparência dos números daquela empresa. Qualquer pessoa poderá acessar os balanços da companhia e verificar ao longo do tempo, a evolução destes. E qual é o interesse do acionista minoritário nisso? Bem, se ele compra uma participação da empresa, ele acredita que essa empresa irá gerar lucro e ele, consequentemente, também obterá lucro com a valorização de suas ações, já que a empresa se tornará mais valiosa. Outra forma de ser remunerado é através dos dividendos, que é efetivamente a distribuição de lucros entre os acionistas.

E o mercado secundário, o que é? Logo após o IPO, as ações da empresa começam a ser negociadas na bolsa de valores, que é o ambiente em que isso acontece. Depois da primeira negociação, que é quando o dinheiro arrecadado vai para a empresa, as ações sobem e descem de acordo com o que o mercado entende que é o preço justo por aquela ação, de acordo com diversas variáveis. O quanto a empresa é lucrativa, seus dividendos, transparência, os riscos de mercado, de crédito, se ela está fazendo uma boa gestão, se as aquisições foram boas, a governança, entre outras coisas. E quem gera liquidez para tudo isso, comprando e vendendo todos os dias? Os chamados especuladores.

Ao contrário do que muita gente pensa, não é ruim para o mercado ter especuladores, ou seja, agentes financeiros que queiram apenas comprar e vender papéis rapidamente para obter lucro. Sem eles, o mercado seria muito menos líquido e eficiente, sendo difícil de comprar e vender esses papéis por um preço justo. O especulador, inclusive, não se limita à bolsa de valores, mas também participa de outros mercados. Se você, por exemplo, resolve comprar um imóvel acreditando que este vá se valorizar e pretende vendê-lo em alguns meses após a compra, sem a pretensão de morar nele ou alugá-lo para obter renda, também é um especulador. Se há baixa liquidez em um ativo, o preço também poderá ficar sobrevalorizado. É a mesma coisa que você ter um carro para vender. Se houver muitos compradores interessados, o preço do seu carro pode ser até um pouco maior do que você imagine que ele valha, ou fique no patamar que você deseje. Entretanto, se houver poucos ou nenhum comprador, não importará o quanto você acha que o carro vale, se precisar vendê-lo, terá que aceitar o preço que o comprador quiser. Conseguiram entender a importância de se ter um mercado líquido? Isso faz toda a diferença também na hora de escolher qual tipo de ativo investir, a liquidez que ele tem.

É comum haver uma confusão entre o que é um especulador e um manipulador do mercado ou, até mesmo, um agente econômico que esteja agindo como Insider Trader. Neste último caso, seria aquela pessoa física ou jurídica que teria uma informação privilegiada acerca de determinada empresa e, com essa informação, tomasse a decisão de comprar ou vender as ações ligadas a essa empresa, obtendo ganhos ou deixando de perder, ou seja, obtendo vantagem ilícita. Isso é crime previsto no artigo 27-D da Lei6.385/76, com pena de reclusão e multa. O especulador, portanto, não tem informações privilegiadas, mas de acordo com o seu entendimento de mercado e daquela ação específica, pode comprar e vender apenas com o intuito de obter lucro, enquanto que outros agentes financeiros queiram apenas comprar posições apenas acreditando ser uma boa empresa para se investir no longo prazo, com ganho de dividendos e valorização de suas ações.

Outra coisa importante de mencionar é que a bolsa de valores é um importante espelho da economia no país, já que nela encontram-se as principais empresas de capital aberto. No índice Ibovespa por exemplo, que é o principal índice brasileiro, há 63 empresas, com alguns critérios de inclusão, como por exemplo, ter presença em pregão de no mínimo 95%, ter participação em termos de volume financeiro maior ou igual a 0,1% no mercado a vista, entre outros. Hoje, a maior participação fica com o Banco Itaú, que representa 10,09% do índice, ou seja, é a empresa com maior valor de mercado. Logo em seguida vem a empresa Ambev, com 7,51%, Bradesco, com 7,11% e Petrobrás com 4,49%. A Petrobrás já foi a empresa de maior valor de mercado do índice de ações brasileiro e deixou de ser em setembro de 2014.

Além de ações, as empresas podem se financiar através de outros instrumentos de mercado de capitais, como é o caso das debêntures. Em vez de se tornar sócio da empresa, você se torna dono de um título de dívida dela. Ou seja, neste contrato, estarão estipulados um prazo e o valor de juros que serão pagos, a periodicidade deles e ainda, se haverá algum indexador. Por exemplo, a remuneração da debênture poderá ser cupom (juros) + IPCA (inflação).

Assim como a bolsa de valores, existem outros instrumentos no mercado de capitais de bastante relevância quando se fala de transferência eficiente de fluxos financeiros. Com a sofisticação desses mercados, é possível que pequenos ou médios investidores possam efetivamente participar de empreendimentos de grande porte. Por exemplo, imagine uma linha de transmissão de energia no Nordeste. Através de um Fundo de Participações, um grupo de investidores poderá efetivamente investir na economia Real, gerando empregos e riqueza para aquela região. Isso pode acontecer em diversos setores: imobiliário, infraestrutura, energia, mídia, commodities, entre outros. Vocês já devem ter ouvido falar de fundos imobiliários, por exemplo, não? O fundo imobiliário nada mais é que um fundo que tem um ou mais empreendimentos imobiliários e conta com investidores pulverizados. Então, você, pequena pessoa física, poderá obter renda através desse empreendimento e ter mais liquidez que num imóvel comum. Isso só é possível com o mercado de capitais e os instrumentos criados para isso, gerando confiança, transparência e liquidez. Mesmo não tendo a mesma liquidez de ações, por exemplo, é muito mais fácil vender a cota de um fundo imobiliário do que vender um imóvel inteiro e isso é feito através da própria bolsa. Isso é bom tanto do ponto de vista do investidor, quanto do empreendimento, que obterá um custo de financiamento mais barato. Novamente, sem perceber, você participa do desenvolvimento da região, gera empregos e riqueza.

Um exemplo bastante comum do mercado de capitais é também o tesouro direto. O governo, ao emitir títulos públicos também busca fontes de financiamento. Ao emitir um título, ele promete que em determinada data entregará, além do valor principal investido, um valor adicional, os juros. Essa operação nada mais é do que um empréstimo que o governo faz com o mercado, que é composto de pessoas físicas, jurídicas e até mesmo de outros governos.

Sendo assim, é muito importante entender por que o mercado de capitais se faz tão necessário para o desenvolvimento da economia dos países e que não serve apenas para especulação. É um importante termômetro das relações econômicas de um país e ajuda muito nos investimentos na economia real. Sem o mercado de capitais, poderíamos voltar aos tempos de escambo e dos feudos. O capitalismo, quando bem aplicado, gera riquezas e desenvolvimento! E quanto mais entender do mercado de capitais, mais se apaixonará por ele, assim como eu. É muito amor.

 

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Renata Barreto

Renata Barreto é economista, empresária, atua no mercado de capitais há 13 anos com experiência em trading, estruturações e advisory, nos mercados doméstico e internacional. Já lecionou para cursos de finanças, introdução à economia e cursos preparatórios para certificações. Hoje concentra seus negócios em consultoria de investimentos, projetos e tem paixão por escrever sobre política e economia.

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