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Economia com Renata Barreto

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Não confunda modelo nórdico com socialista

Em novembro do ano passado, o candidato americano à presidência pelos democratas, Bernie Sanders, usou a Dinamarca como exemplo de país socialista bem-sucedido em um de seus discursos. Disse que esse era o modelo que gostaria de criar nos EUA, desconsiderando completamente o que por lá funciona, além é claro, de esquecer das grandes diferenças geopolíticas entre ambos os países. Algum tempo depois, o próprio primeiro ministro da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, resolveu corrigir Bernie dizendo que a Dinamarca tem uma economia de mercado. Mas você sabe por que nunca deve comparar o modelo nórdico com o socialismo?

Dinamarca Europa
(Shutterstock)

Todos os dias sou confrontada em minha página pessoal onde exponho meus pensamentos sobre economia e política com a ideia de que o modelo nórdico é o socialismo que deu certo e isso não poderia estar mais errado.

Não é à toa que muita gente gostaria de ter uma Dinamarca para chamar de sua. Visitei o país recentemente e pude comprovar com meus próprios olhos a beleza do país que se estende desde a cultura e educação até as belezas naturais. O País é regido sob monarquia constitucional com sistema parlamentar, tem uma das maiores rendas per capta da Europa (USD 37,900), a inflação está abaixo de 1% ao ano, o desemprego é de aproximadamente 7%. O nível de corrupção é baixíssimo, empatando com a Nova Zelândia em primeiro lugar no ranking de 177 países que compõe o “Corruption Perception Index” de 2013. O ambiente regulatório do país continua a ser um dos mais transparentes e eficientes do mundo, além de ser um país bastante aberto para investimentos estrangeiros. Tudo isso com uma população de apenas 5,6 milhões. A agricultura é extremamente desenvolvida, com excedentes de produção exportados, além de uma indústria avançada principalmente no setor de medicamentos e indústria metalúrgico, além do tradicional comércio de navios. Importações e exportações representam em torno de 33% e 36% do PIB, respectivamente. As exportações industriais são 4 vezes maiores que a agrária. Também há boa produção de petróleo e gás natural.

O que geralmente os defensores do socialismo argumentam para usar o modelo nórdico como exemplo, é o fato de haver uma carga tributária bastante alta, com um estado mais pesado. De fato, a alíquota máxima de imposto de renda na Dinamarca chega a 56%, sendo que é estimado que os impostos sobre o PIB sejam de aproximadamente 48%. O foco dos socialistas fica nessa parte, esquecendo-se do fundamental para analisar como uma economia socialista de fato funcionaria. Apenas concentrar seus argumentos no tamanho dos impostos, mas não em como é a liberdade econômica, o mercado de trabalho, as regulações e o sistema tributário, mostra a incapacidade de análise macroeconômica de quem acredita que o modelo nórdico é de fato socialista. Vejamos.

Para entender se um país é mais livre ou não economicamente é preciso entender alguns pontos. Qual é o tamanho do Estado, como funciona o sistema jurídico e o direito de propriedade, a solidez da política monetária, a liberdade do comércio internacional e as regulações dos mercados de trabalho, comércio e crédito. O único ponto que poderia ser considerado mais direcionado ao socialismo é o tamanho do Estado e, com as outras políticas, ele não atrapalha.

A primeira coisa é entender a questão dos impostos que tanto se fala. Apesar do imposto sobre a renda e o consumo serem bastante elevados, para a pessoa jurídica é um dos menores do mundo, além das inúmeras deduções que podem ser feitas. Isso estimula bastante o empreendedorismo, sem contar a regulamentação dos setores privados que é bastante simples, além de requisitos mínimos de capital baixos. Outra coisa que ajuda muito é a regulamentação do mercado de trabalho. Simplesmente não há salário mínimo, assim como não há rescisão quando um funcionário é demitido. Além disso, os contratos trabalhistas são bastante flexíveis, podendo o empregado negociar com o empregador o tanto de horas trabalhadas, os dias da semana, sendo que geralmente o valor do salário é estabelecido por hora, sem limite de horas extras.

Na questão da propriedade privada, outro ponto em direção à liberdade. Na Dinamarca a propriedade é massivamente assegurada, sendo um dos pontos chave do ranking de liberdade econômica medido pela Heritage Foundation, que lista a Dinamarca como 11º país em seu índice. Existe também um índice que mede os direitos de propriedade, com a Dinamarca na 10ª posição, sendo que curiosamente o primeiro lugar é da Finlândia, o segundo lugar da Noruega e o terceiro lugar da Suécia, todos os países nórdicos utilizados como modelo de socialismo bem implementado. O direito à propriedade é um dos pontos mais importantes quando se fala de liberdade econômica, sendo totalmente contrário ao princípio socialista de coletivização.

Na questão monetária, outro ponto bastante importante, a Dinamarca possui políticas bastante ortodoxas. A inflação é baixíssima, a moeda é forte e o banco central é independente. Além de tudo isso, a economia da Dinamarca depende bastante do comércio exterior, tendo baixas barreiras tarifárias e pouca restrição ao investimento direto estrangeiro.

 

A economia do país é considerada como “welfare state” por conta de elevados gastos públicos e cargas tributárias, mas também pela contrapartida gerada a partir destes. Não se pode ter um país funcionando dessa forma sem grande produtividade per capta e outras liberdades econômicas importantes. O país tem elevado grau de eficiência nas empresas, flexibilidade em suas regulamentações e há um sistema judicial justo.

Apesar do Estado, e não por causa dele, a Dinamarca funciona muito bem. Por favor não a chamem de Socialista novamente. Um país maravilhoso como é, não merece tal tratamento.

 

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Renata Barreto

Renata Barreto é economista, empresária, atua no mercado de capitais há 13 anos com experiência em trading, estruturações e advisory, nos mercados doméstico e internacional. Já lecionou para cursos de finanças, introdução à economia e cursos preparatórios para certificações. Hoje concentra seus negócios em consultoria de investimentos, projetos e tem paixão por escrever sobre política e economia.

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