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Os reais motivos da Inflação e o IPCA longe da sua realidade

Já percebeu que a inflação que você sente no bolso é muito maior do que a divulgada pelo IBGE, o chamado IPCA? Sabe por que a inflação tem demorado a ceder no Brasil mesmo com uma demanda desaquecida, o endividamento familiar elevado e o consumo das famílias em declínio? Entenda aqui os reais motivos da inflação e como ela pode afetar sua vida.

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(Shutterstock)

Caros leitores deste blog, a inflação brasileira é algo que preocupa. No último mês de maio tivemos alta de 0,78%, o maior desde 2008. No ano de 2016 o acumulado já está em 4,05% e em 12 meses é de 9,32%. No ano passado a inflação fechou em dois dígitos, 10,67%, a maior desde 2002. É verdade, não estamos mais em épocas de hiperinflação, quando políticas monetárias e fiscais atrapalhadas nos levaram a mais de 5000% por ano de corrosão do nosso poder de compra, mas estamos bem longe da meta de inflação estipulada pelo Banco Central e, pior, numa época de recessão. Basicamente, o cenário que temos hoje é de famílias endividadas após alguns anos sucessivos de crédito farto, barato e irresponsável que levou ao estrangulamento de suas rendas. Além disso, vivemos também um momento de crescente desemprego, que junto com o fator anterior levou ao declínio do consumo das famílias. No ano passado, nosso PIB teve uma queda de 3,8% - o pior resultado em 25 anos, sendo que o consumo das famílias caiu 4%. Esse é um item de bastante peso no nosso Produto Interno Bruto.

Antes do plano Real, a forma encontrada de driblar a inflação foi na verdade responsável por aumentar ainda mais esse problema. Congelamento de preços, confisco de poupança, entre outras coisas. O plano Real foi responsável por dar estabilidade à moeda e reduzir a inflação drasticamente implementando diversas medidas, entre elas o famoso tripé macroeconômico que tem como pilares as metas de inflação e de superávit primário, assim como o câmbio flutuante. Entretanto, muitos não entendem que as causas da inflação não estão apenas no aumento generalizado de preços, como se fosse algo meramente sazonal. O principal motivo da inflação ainda continuar alta no Brasil, mesmo com a demanda desaquecida, são os gastos públicos exagerados que ainda precisam ser ajustados. Como curar o doente se o remédio dado não é o correto? Explico.

A inflação decorre do aumento de dinheiro na economia, justamente o que foi feito de forma expansiva nos últimos anos, até a conta chegar e ficar bastante cara. A inflação atua como transferidor de renda dos mais pobres para os mais ricos, já que quando há maior oferta de dinheiro, as pessoas que primeiro tem acesso a ele são os ricos. Quando esse dinheiro for sendo distribuído para o resto das camadas sociais, o preço dos bens e serviços já terá aumentado (oferta x demanda), ao passo que os últimos a receber esses recursos pagarão mais caro que os primeiros, além do fato de este dinheiro não ter sido gerado por aumento de produção, ao contrário, é um dinheiro sem lastro. E sabe por que isso acontece? Por uma política fiscal irresponsável, onde o governo gasta mais do que tem e acaba tendo que se financiar, a juros cada vez maiores. O aumento generalizado de preços é uma consequência desta oferta desenfreada de moeda e um fato que prova que inflação não seja apenas o aumento de preços, se dá pela política de congelamento dos preços, que falei anteriormente.

Com a inflação, quem sofre mais sempre são os mais pobres porque estarão sujeitos a variações bruscas de preços para um salário que não tem como acompanhar esta subida. Aliás, um dos grandes problemas do Brasil foi o aumento do salário mínimo acima da produtividade deste, o que acaba gerando desemprego mais para frente. Mais do que a perda do poder de compra com o aumento dos preços como consequência das políticas econômicas erradas, houve grande construção de dívidas das famílias, que aconteceu pelo já falado aumento do crédito desenfreado,a lém da redução de juros irresponsável, dois fatores que aumentaram a oferta de moeda consideravelmente. Com o endividamento, após a fase de bonança, muitas são as famílias que agora tem parcelas de imóveis para pagar, indexadas aos índices de inflação ou juros, além de automóveis e outros bens comprados a prazo. Com o aumento do desemprego e instabilidade da economia, ainda há o problema de ter que talvez, aceitar um emprego novo ganhando menos, aumentando o percentual de sua dívida em relação ao total de sua renda. A inflação e os problemas gerados, comprimem cada vez mais as pessoas e claro, o mais pobre é o que sofre mais e vai continuar sofrendo nos próximos anos, ao passo que sem crescimento não há solução de curto prazo para melhorar essa condição. E o que deve ser feito? Corte de gastos drásticos e urgentes. O novo governo e sua equipe econômica precisam demonstrar capacidade de fazer isso e bem rápido. Nossa credibilidade foi jogada no lixo junto com nosso Investment Grade. Recuperá-los não será fácil.

Além disso, você já deve ter reparado que o número divulgado pelo IBGE, o IPCA - Índice de Preços ao Consumidor Amplo, é bem diferente do que você sente todos os dias ao fazer compras. O número não é mentiroso, apenas não reflete a inflação individual de cada um por um motivo muito simples: esse número apenas considera uma cesta média de produtos que vale para balizar a meta de inflação e, por consequência, definir os juros. Essa cesta é composta de alguns produtos e serviços determinados pelo IBGE em 11 das principais regiões metropolitanas do país, apontando mensalmente a variação do custo de vida médio de famílias que têm renda mensal entre 1 e 40 salários mínimos. São coletados os preços em aproximadamente 30 mil comércios.

Dentro dessa cesta de produtos, há os preços que são deliberadamente definidos ao sabor do mercado, ou seja, os preços livres definidos por oferta e demanda, mas há também o que chamamos de preços administrados, que são aqueles que sofrem pouco ou praticamente nada com a influência do mercado. Nesse caso, são preços administrados por contratos ou monitorados, dependendo de autorização do governo ou de algum órgão público. Estes podem ser regulados em nível federal ou em nível estadual e municipal. Da cesta atual, temos 28 bens ou serviços classificados nesta categoria, que dá quase 30% do total, sendo que o maior peso está nos produtos derivados do petróleo. Isso explica porque a Petrobrás foi utilizada tanto tempo como instrumento de política monetária, erroneamente. Ao segurar a inflação artificialmente através dos preços administrados, criou-se uma falsa sensação de que o poder de compra estava assegurado, além de prejudicar sistematicamente a geração de caixa da empresa. Em algum momento isso precisa acabar e a conta fica mais cara para pagar. Depois dos derivados de petróleo, vêm os preços ligados ao transporte, telefonia, planos de saúde, energia elétrica residencial e produtos farmacêuticos.

É claro que é preciso ter um índice que nos dê direcionamento, mas é importante saber que a nossa inflação individual será muito maior de acordo com a nossa própria cesta de produtos e serviços. Uma conta que é comum de ser feita é o do ganho real em investimentos, onde subtraímos a inflação dos juros recebidos. Com juros de 14,25% ao ano e IPCA de 9,32% por enquanto, teríamos que o ganho líquido seria de 4,93%. Porém, ao analisar sua inflação individual, a verdade é que você provavelmente está apenas reduzindo a corrosão do seu poder de compra, não tendo ganho real. Para ter uma noção melhor de seu orçamento e tomar melhores decisões, contas como essa são importantes de serem feitas.

O cintos estão apertados e a recessão continua. Esperamos que as medidas necessárias sejam tomadas rapidamente por Henrique Meirelles - ministro da Fazenda, e companhia. Já chega de trabalharmos com realidade artificial.

 

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Renata Barreto

Renata Barreto é economista, empresária, atua no mercado de capitais há 13 anos com experiência em trading, estruturações e advisory, nos mercados doméstico e internacional. Já lecionou para cursos de finanças, introdução à economia e cursos preparatórios para certificações. Hoje concentra seus negócios em consultoria de investimentos, projetos e tem paixão por escrever sobre política e economia.

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