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Por que o bitcoin superou o ouro no Brasil

A notícia de que o bitcoin ultrapassou o ouro em volume de negociação no Brasil surpreendeu muita gente. De fato, dada a pouca idade da criptomoeda, essa marca histórica é uma verdadeira façanha. Como noticiei neste post, nos primeiros seis meses de 2016, o volume de negociação de bitcoins nas bolsas brasileiras excedeu o volume de ouro na BM&F. Enquanto R$ 164 milhões foram transacionados nas bolsas da moeda digital, os lotes de OZ1D e OZ2D (250 g e 10 g de ouro, respectivamente) registraram cerca de R$ 153 milhões. Nenhuma das estatísticas, contudo, considera a compra e venda no mercado informal (P2P) ou de balcão (OTC, over-the-counter). No caso do bitcoin, é sabido que um volume bastante expressivo é negociado fora das exchanges tradicionais, tanto no exterior quanto no Brasil. Não consegui encontrar, porém, dados sobre o mercado de balcão de ouro no país. Mas, pelas razões que trarei abaixo, acredito que também nesse mercado o volume de negociação da moeda digital deva superar o do metal, se é que já não o fez.

A notícia de que o bitcoin ultrapassou o ouro em volume de negociação no Brasil surpreendeu muita gente. De fato, dada a pouca idade da criptomoeda, essa marca histórica é uma verdadeira façanha.

Como noticiei neste post, nos primeiros seis meses de 2016, o volume de negociação de bitcoins nas bolsas brasileiras excedeu o volume de ouro na BM&F. Enquanto R$ 164 milhões foram transacionados nas bolsas da moeda digital, os lotes de OZ1D e OZ2D (250 g e 10 g de ouro, respectivamente) registraram cerca de R$ 153 milhões.

Nenhuma das estatísticas, contudo, considera a compra e venda no mercado informal (P2P) ou de balcão (OTC, over-the-counter). No caso do bitcoin, é sabido que um volume bastante expressivo é negociado fora das exchanges tradicionais, tanto no exterior quanto no Brasil. Não consegui encontrar, porém, dados sobre o mercado de balcão de ouro no país. Mas, pelas razões que trarei abaixo, acredito que também nesse mercado o volume de negociação da moeda digital deva superar o do metal, se é que já não o fez.

Comprando ouro no Brasil

Um dos motivos que explica o porquê de mais capital ter sido direcionado ao ativo inédito do que ao metal milenar, neste primeiro semestre, é a enorme complexidade de se adquirir ouro no país. Consideremos as duas principais formas: BM&F Bovespa (uma bolsa, exchange) ou mercado de balcão (Banco do Brasil e empresas como a Ourominas).

Na BM&F Bovespa, há três contratos disponíveis para comprar ouro à vista: lote padrão OZ1D (lingote de 250 gramas) e os lotes fracionários OZ2D e OZ3D (10 g e 0,225 g, respectivamente). Mas, antes de tudo, é necessário abrir uma conta em alguma das corretoras nacionais.

Estando registrado em uma corretora e tendo a conta ativada, é possível adquirir algum dos ditos contratos. Porém, como nem sempre é possível executar ordens de compra/venda de OZ1D pelo homebroker, em geral, a única via factível é por meio do telefone, solicitando a compra a algum atendente da corretora.

Aí já está a primeira dificuldade – e frustração –, pois quase 99% dos corretores não têm a mais mínima ideia de como comprar ouro, nunca ouviram falar, e alguns duvidam de que haja tal mercadoria à venda na BM&F Bovespa. Mas assumamos que o seu corretor esteja dentro do 1% ou que já seja permitido usar o homebroker para os contratos de ouro.

O lote padrão OZ1D exige como investimento mínimo cerca de R$ 35.000,00 (considerando uma cotação de R$ 140 por grama de ouro), e o lote fracionário OZ2D, ao redor de R$ 1.400,00. Não é permitido, contudo, comprar frações de OZ1D ou OZ2D, tampouco se pode transformar 25 contratos de OZ2D em um OZ1D, ou fracionar um OZ1D em 25 OZ2D. Esses detalhes não são desprezíveis, pois constituem um entrave a uma maior liquidez do ativo na BM&F Bovespa.

A liquidação financeira da operação é D+1, sendo que o contrato de 250 g pode ser liquidado também fisicamente. Mas, dado que efetuar o resgate em espécie exige um esforço hercúleo – como dirigir-se a uma agência bancária em São Paulo –, essa é uma alternativa à qual quase nenhum investidor recorre. Até porque o processo inverso – entregar o metal de volta à custódia da BM&F para poder negociá-lo na bolsa – exige uma “recertificação”, o que é uma tarefa ainda mais ingrata. Na prática, a maior parte dos investidores mantém os contratos com a própria BM&F.

Investir no metal precioso dessa forma tem algumas implicações. Primeiro, você não detém o ativo em si, não há posse, mas sim um papel, isto é, um contrato de custódia com um terceiro (BM&F). Embora possamos considerar um contrato pouco arriscado, não podemos desconhecer o risco da contraparte na relação credora entre o proprietário e a BM&F.

E, em segundo, os volumes têm sido bastante baixos, cerca de 30 negócios diários para OZ1D e 70 para OZ2D (levando em conta o histórico deste primeiro semestre). Isso impõe ao investidor mais um agravante, pois nem sempre haverá mercado para desfazer-se de ou montar uma posição em ouro. Note-se que há dias em que é registrada não mais do que uma única negociação de OZ1D e nada mais.

Quando comparado a outros ativos negociados diariamente na BM&F Bovespa, o giro financeiro do metal precioso torna-se desprezível. Ouro, na BM&F Bovespa, é um ativo com liquidez incrivelmente limitada.

Desse fato deriva outro complicador: o alto bid/ask spread (diferença entre os preços pedidos e ofertados), situado por volta de 0,50% (50 pontos base), podendo ser mais ou menos conforme o volume de negociação do dia – nesse quesito, o bitcoin no Brasil não está muito atrás, mas no exterior os spreads da criptomoeda nas exchanges com alto volume giram ao redor de 5 pontos base. Isso faz com que realizar um ganho com o ativo exija uma apreciação relativamente mais acentuada, pois, logo após executar uma ordem de compra, será necessária uma valorização no mínimo equivalente ao spread para sair no breakeven.   

Além do mais, existe a taxa de custódia, paga mensalmente a um custo de 0,07% da posição total.

Compreendidas todas as dificuldades e burocracias envolvidas no processo, vale refletir sobre a seguinte questão: o que, afinal, se pode fazer com um OZ1D ou OZ2D? Qual a utilidade desses papéis? A única que consigo concluir é a de proporcionar exposição às variações do preço do ouro e nada além disso.

Não podemos transferir OZ1D diretamente para ninguém. Não podemos custodiá-lo em um aplicativo de smartphone. Não se pode comprar nada com esses papéis, nenhuma empresa os aceita na venda de produtos, como nem poderia aceitar, pois se trata de um ativo ao titular, e apenas a liquidação na BM&F é capaz de transferir sua titularidade. Em suma, os papéis OZ1D, OZ2D e OZ3D são passíveis de negociação unicamente dentro do ambiente da BM&F Bovespa. E isso é tudo que pode ser feito com tais ativos.

Para superar alguns desses percalços, o investidor dispõe da opção de comprar o ativo de fato: ouro físico nos mercados de balcão e informal.

Supostamente, o Banco do Brasil possibilita a venda do metal em suas agências (imagino que apenas um punhado delas tenha ouro em estoque para pronto atendimento dos interessados).

Outra forma muito usual é por meio de empresas como a Ourominas, em que o cliente pode comprar diretamente do site, tudo online, ou por telefone, solicitando a entrega física em seu endereço.

Nesse formato, há algumas complicações também. Primeiro, o preço praticado costuma ter um ágio de 10% com relação ao preço na BM&F Bovespa. Teoricamente, a empresa compromete-se a recomprar o ouro (desde que não haja violação no lacre da cartela, cartão), porém, com um deságio desanimador. Na prática, isso significa que o “bid/ask spread” do ouro físico no Brasil supera facilmente 10% (1.000 pontos base). Além do ágio/deságio, há o custo de entrega e seguro do envio – ninguém pode se dar ao luxo de enviar uma barra de ouro valendo milhares de reais pelo correio ou transportadora sem seguro.

Em segundo lugar, como armazenar o metal com segurança? Em um cofre em casa? Debaixo do colchão? Em um cofre em um banco? Como a custódia do ouro físico é responsabilidade do proprietário, essa é uma tarefa essencial que oferece riscos relevantes e custos nada desprezíveis.

Mas, mesmo depois de todos esses contratempos serem superados, permanece a questão: qual a utilidade do metal físico? O que se pode fazer com ele? Usar no comércio é quase impossível – isso é válido, provavelmente, em qualquer lugar do planeta. Podemos, sim, transacionar diretamente entre duas pessoas, mas isso requer idêntica localização geográfica, não conseguimos transferir uma barra de ouro a alguém a quilômetros de distância. 

Revender ouro físico é igualmente complexo, seja de volta a uma Ourominas, seja a um terceiro, dado o deságio, a necessidade de verificação de pureza do ativo e todos os riscos inerentes à operação.

Então, quem compra ouro físico normalmente está estocando:

- na espera de uma valorização muito expressiva;

- como forma de proteção contra um colapso econômico absoluto (muito embora seja altamente questionável o que se poderá fazer com o metal em um cenário tão sombrio e calamitoso);

- como uma diversificação de riqueza, embasado mais por fatores emocionais e de tradição do que por justificativas racionais (como quem investe em joias).

Assim, considerando todas as complicações de se investir no metal no Brasil e a carência de utilidades práticas, fica fácil entender por que o bitcoin superou o ouro no país.

Com a commodity digital, o proprietário tem a prerrogativa de custodiar qualquer soma por conta própria com a mesma facilidade. As diversas alternativas de armazenagem propiciam alto grau de segurança com um custo bastante reduzido.

Há propriedade e posse. Um bitcoin é o ativo em si. Não é promessa de pagamento, não é passivo de ninguém. Por ser puramente digital, o ativo pode viajar o mundo inteiro, instantaneamente, sem depender de nenhum intermediário para ser custodiado ou transferido.

A criptomoeda é simplesmente um ativo muito superior. Em termos tecnológicos, é incomparável. Como já escrevi algures, a redução que o bitcoin provê nos chamados “custos de transação” é inigualável.

Ouro e bitcoin no resto do mundo

Ao redor do globo, as dificuldades para adquirir o metal precioso se assemelham. Nos EUA, há mais opções ao investidor, como o ETF de ouro (exchange traded fund, fundos negociados em bolsa), um ativo com maior liquidez que os nossos OZ1D e OZ2D, mas ainda assim com volumes de negociação não tão expressivos como de muitas ações do índice Dow Jones – o ETF GLD registra cerca de US$ 1,5 bilhão diariamente.

Similar ao OZ1D, com o GLD o investidor detém não o ativo de fato, mas um papel emitido por um terceiro. O risco da contraparte permanece.

Mas seja ouro em espécie, seja OZ1D, seja ETF, não há alternativa: para comprar qualquer coisa ou enviar a alguém, é praticamente imprescindível converter o ativo em dinheiro antes de tudo.

Sim, hoje há serviços, como o do EuroPac Bank, que permitem a manutenção de contas denominadas em ouro, as quais o cliente pode gastar com um simples cartão de débito. Mas isso também tem limitações.

Contas denominadas em ouro, cartões de débito, etc. são permitidas de operar por enquanto porque são irrelevantes para o sistema financeiro como um todo. Mas no momento em que houver um volume significativo, governos encontrarão as justificativas necessárias para encerrar as atividades de intermediários como EuroPac Bank.

Gold bugs poderiam argumentar, e com razão, que o bitcoin também está sujeito a eventos dessa sorte. Há uma diferença crucial, porém, porque governos podem obstruir intermediários – como as exchanges de bitcoin – de funcionar, mas não impedir a rede de operar livremente. Já com o ouro as duas coisas podem ser proibidas por completo, tanto comprar e vender o ativo quanto transacionar na plataforma de um terceiro como o EuroPac Bank.

A tese de investimento

Ambos, o ouro e o bitcoin, compartilham da mesma tese de investimento: as arbitrariedades dos bancos centrais e a constante desvalorização deliberada das moedas estatais têm levado investidores a buscar ativos cuja oferta não pode ser inflacionada a esmo e que ofereçam elevado grau de proteção patrimonial. Um hedge para o grande experimento monetário que vivemos.

A seu favor, o metal tem o longo track record: milhares de anos de uso pela humanidade. Mas peca por ser um bem físico, material, tangível – o que os mais velhos e mais apegados ao metal consideram, erroneamente, como um dos seus principais atributos, quando, na verdade, é a sua grande falha, especialmente para uma economia moderna, digital, globalizada e interconectada.

O bitcoin, por outro lado, destaca-se pela grande superioridade tecnológica, pela óbvia redução nos custos de transação e pela crescente utilidade. Trata-se de um bem digital escasso, algo até pouco tempo impensável.

Bitcoin serve não apenas como um ativo de proteção, como também para enviar a qualquer pessoa, independentemente de localização geográfica, para carregar cartões pré-pagos, pagar contas, comprar passagens aéreas, computadores da Dell, fazer doações à Cruz Vermelha, reservar hotéis, e, com cartões de débito Visa emitidos pela Xapo, bitcoins podem ser usados virtualmente em qualquer lugar. Além de tudo isso, o blockchain do bitcoin ainda está sendo utilizado para uma miríade de outras aplicações que têm o efeito prático de aumentar a demanda pela moeda.

Alguns gold bugs afirmam que o ouro não concorre com a criptomoeda; estão juntos no mesmo barco, afirmam eles. Mas estão errados. Porque, justamente por compartilhar da mesma tese de investimento, o metal concorre diretamente com o bitcoin por um espaço no portfólio dos investidores.

Em uma estratégia de alocação, em que ambos estão classificados dentro de uma mesma classe de ativo – ou de classes substituíveis –, o capital destinado a um ativo será necessariamente desviado do outro. Recursos são escassos. O que fluir para o bitcoin deixará de fluir para o metal – a não ser que a classe de ativo como um todo ganhe maior relevância e proporção nos portfólios.

Por todos os motivos aqui explicados (além deste e deste posts), o ouro como ativo perde brilho no meu portfólio a cada dia que passa. Sob uma perspectiva de diversificação e alocação, todo gestor de investimento deveria ao menos considerar esse novo ativo. Não investir no bitcoin poderá ser uma das grandes oportunidades perdidas deste século.

 

[EDIT: Corrigi o volume do ETF GLD. Havia escrito US$ 12 milhões diários, mas é 12 milhões de negócios a um preço médio atual de US$ 128 que resultam em US$ 1,5 bilhão.]

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

perfil do autor

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Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário brasileiros. É conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária e entusiasta de moedas digitais. É autor do livro "Bitcoin - a moeda na era digital".

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