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Efeito dominó: como 2 notícias impactaram 2 setores "inteiros" na Bolsa (e como reagir a isso)

Setores de saneamento e frigorífico sofreram fortemente nos últimos dias, impactando até mesmo ações de empresas não diretamente envolvidas nos imbróglios - em meio a esse cenário, a recomendação é ter cautela

SÃO PAULO - O que fazer quando uma notícia inesperada impacta tanto uma ação que leva os analistas de mercados a revisarem todas as suas estimativas para os papéis? E o que fazer quando empresas que, aparentemente não tem nada a ver com as notícias negativas de outras companhias, sofrem na Bolsa por pertencerem ao mesmo setor?

Foi isso que aconteceu em dois casos na Bolsa nos últimos dias: o setor frigorífico na sexta-feira e, mais uma vez, o de saneamento nesta segunda, em meio a um mês de fortes emoções por conta da novela sobre a Sanepar (SAPR4).

No caso do setor de frigoríficos, o destaque ficou com a Operação Carne Fraca, que investiga 40 empresas do setor alimentício envolvidas em um esquema de corrupção que liberava a comercialização de alimentos produzidos por frigoríficos sem a devida fiscalização sanitária. A Operação, deflagrada na última sexta-feira, fez com que as ações da BRF (BRFS3) e da JBS (JBSS3), citadas em irregularidades, despencassem na sexta (7,5% a BRFS3 e 10,59% a JBSS3 no dia 17), enquanto a sessão desta segunda é mais volátil para os papéis. 

Por outro lado, as notícias de que diversos países estão barrando ou restringindo temporariamente a importação da carne impacta ações de empresas que nem foram alvo da Operação. É o caso da Minerva (BEEF3, R$ 9,34, -7,43%) e da Marfrig (MRFG3, R$ 5,36, -4,29%), que veem suas ações caírem forte nesta segunda-feira. 

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Quem explica o por que deste forte movimento é o Credit Suisse, apontando que a notícia deve continuar pressionando as ações do setor, já que o trabalho feito nos últimos 4 a 5 anos pelo Governo brasileiro em abrir novos mercados internacionais pode estar em risco. Somente nesta segunda, China, Coreia do Sul, União Europeia e Chile anunciaram restrições. "A Minerva seria a mais impactada, já que 65% da sua receita vem de exportação. A Marfrig viria em seguida e a JBS deve também ser impactada negativamente, uma vez que mais de 70% do seu Ebitda vem do mercado internacional".  Assim, mesmo sem estarem diretamente envolvidas na operação, essas ações acabaram impactadas fortemente pelos desdobramentos e efeitos da "Carne Fraca".

Voltando para as ações da BRF e da JBS, os analistas do JPMorgan não mostram otimismo. Eles apontam que, mesmo que seja cedo para avaliar o impacto da operação Carne Fraca na JBS e na BRF, é improvável que aconteça uma rápida recuperação das ações, dados os riscos no cenário dessas duas empresas, O JPMorgan diz que suspensão de alvarás sanitários pode resultar em paradas de produções, recall de produtos e proibições de exportações. 

O JPMorgan aponta que os episódios públicos envolvendo vigilância sanitária
costumam ter um impacto temporário no consumo, mas não estrutural. Por outro lado, as consequências de proibições de exportações relacionadas a preocupações sanitárias podem levar anos para serem superadas. Os riscos incluem impacto potencial sobre as receitas, perdas de margem e multas, aponta o banco. A investigação em curso pode gerar sequência de manchetes negativas no curto prazo; assim, os múltiplos podem ficar baixos por um tempo até que assunto seja esclarecido. 

Por outro lado, mesmo em meio a esse ambiente, os analistas do BofA mantém as recomendações para os papéis do setor de frigoríficos: de compra para BRF e Minerva, neutra para JBS e underperform (desempenho abaixo da média do mercado) para a Marfrig. Eles ainda apontam para um gasto que a Minerva e a Marfrig, pelo menos por enquanto, não devem sentir tão fortemente: o de publicidade. Após a deflagração da Operação Carne Fraca, a expectativa é de que haja um forte aumento do número de gastos em publicidade tanto da BRF quanto da JBS, o que pode impactar as margens. A estratégia já começou e, desde sexta-feira, inclui anúncios no horário nobre da televisão e comunicados de página inteira nos jornais afirmando que nunca venderam carne estragada e que seus produtos são totalmente seguros para consumo, negando afirmações da PF de que empresas do setor adicionam ácido e papelão à carne, por exemplo.  

Um balde de água fria no setor inteiro
Outro setor que já teve o seu dia de glória e que agora sofre sistematicamente é o de saneamento, em meio à novela sobre a revisão tarifária da Sanepar. Após o segmento ser visto com grande otimismo pelo mercado em meio às expectativas de uma revisão tarifária favorável para a estatal paranaense, o setor mudou de rumo desde a sessão do dia 9 de março, quando o mercado repercutiu a proposta feita pelo agente regulador, a Agepar, de diferimento em 8 anos e um reajuste inicial de 5,7%. 

Desde então, as ações da Sanepar já caíram mais de 23%, enquanto as suas equivalentes em Minas Gerais (Copasa) e em São Paulo (Sabesp) registram baixas respectivas de 22% e 8% no período. 

O efeito da revisão da Sanepar ficou ainda mais pronunciado nesta segunda-feira, dia em que as ações da companhia chegaram a cair quase 12% em meio à entrevista do presidente da estatal paranaense Mounir Chaowiche ao jornal Valor Econômico, que mostrou a pouca disposição da empresa em lutar por melhores termos do reajuste. Vale destacar que os próximos dias serão chave para a companhia: na próxima sexta-feira, ocorrerá a audiência pública de revisão tarifária, crucial para a companhia. Com a entrevista, as ações das outras empresas do setor sentiram o impacto: a Copasa chegou a cair 9% e a Sabesp (SBSP3) teve queda de quase 4% na mínima do dia. 

Chaowiche afirmou que, após a decisão surpreendente da Agepar de parcelar em oito anos o reajuste de 25,6% de tarifa da estatal de saneamento, a empresa decidiu que não vai se manifestar contra a determinação nos períodos de audiência e consulta públicas para discutir o processo de revisão tarifária. Apesar da recepção ruim, Chaowiche disse que a empresa está satisfeita "pelo fato de a agência ter reconhecido o índice" e ainda ponderou que não há comprometimento da capacidade de investimentos da empresa uma vez que o reajuste a ser aplicado nos próximos anos será corrigido pela Selic. O executivo atribuiu o tumulto que a notícia gerou à falta de familiaridade com o tema. "O que tivemos foram vários investidores, os mais novos, que talvez não estivessem muito acostumados como tratar de revisão tarifária". 

Conforme destaca o Itaú BBA, a entrevista não esclarece se a empresa acredita que o reajuste inicial de 5,7% é justo. Contudo, os analistas apontam que, dado o discurso moderado, as ações SAPR4 continuarão a sofrer uma vez que claramente a gestão e os investidores têm uma visão diferente sobre o período de diferimento de 8 anos e o reajuste inicial - dois fatores que decepcionaram o mercado sobre o reajuste.  "Nós vemos tal discurso como negativo dado que estávamos esperando uma postura mais vocal da companhia a fim de melhorar o resultado de seu primeiro ciclo de reajuste tarifário. Tudo isso dito, acreditamos que a Sanepar continuará a sofrer nos próximos dias", apontam os analistas do banco. 

Já Marcos Peixoto, da XP Gestão, destacou que o "mercado ainda tinha uma esperança que a empresa fosse brigar por uma melhora e o CEO acabou por 'enterrar' essa chance. Agora vai ser o mercado sozinho versus regulador. As chances ficam menores". O analista do Bradesco BBI, Francisco Navarrete, apontou que as declarações foram surpreendentes e que, agora, é claramente mais difícil ver o regulador melhorar a sua proposta. 

Em relatório da semana passada, antes mesmo da fatídica notícia de hoje, os analistas do Itaú BBA destacaram o impacto do que está acontecendo com a Sanepar sobre o setor inteiro, com destaque especial para a Copasa, que também terá revisão tarifária em breve. "Os dois processos são independentes e as agendas regulatórias estão em nível estadual. Ainda assim, uma vez que a Copasa (CSMG3) está passando pelo mesmo processo, é óbvio que a decisão da Agepar afetaria as ações da companhia mineira", apontaram os analistas. 

O efeito cascata prossegue não somente por conta das revisões tarifárias das companhias de capital aberto.  "É importante lembrar que o governo federal e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) estão trabalhando em algumas privatizações no setor de saneamento e a decisão da Agepar pode espantar os investidores em tais operações", apontaram os analistas do Itaú BBA na semana passada. 

Mas agora, o que fazer com as ações da Sanepar (e dos outros papéis do setor)? Conforme aponta o BTG Pactual, as ações já estão sendo negociadas abaixo do pior cenário, em que somente uma revisão levando em conta a inflação seria assumida. "Nesse cenário, o nosso preço-alvo seria de R$ 13,50", ressaltam. Além disso, uma vez que o governador do Paraná Beto Richa estará no cargo até o ano que vem, a expectativa é de que o reajuste do próximo ano seja respeitado. Neste cenário (aumento real de 5% em 2018), o preço-alvo seria de R$ 16,50. 

Assim, em meio ao novo golpe que o mercado sofreu, os analistas do BTG não esperam mudanças significativas frente à proposta inicial. "Mas, considerando em que patamares a ação está sendo negociada, nós preferimos esperar. Também precisamos de mais indicações sobre como esse diferimento será tratado pelo regulador", apontam os analistas. Isso também deve impactar as ações das outras companhias do setor, como Copasa e Sabesp. 

Desta forma, tanto para o setor de frigorífico quanto para o setor de saneamento o cenário que se aponta é de cautela, de olho nos próximos acontecimentos - e como as notícias de BRF, JBS e Sanepar podem impactar os papéis de outras ações do mesmo setor na Bolsa. 

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Efeito dominó
(Shutterstock)

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Thiago Salomão

Editor de Mercados do InfoMoney, analista técnico e fundamentalista e criador da Carteira InfoMoney. Graduado em Administração de Empresas pelo Mackenzie, com MBA em Mercados Financeiros pela Fipecafi e pela UBS/BM&FBovespa.

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