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As 5 maneiras como a queda da Selic impactará a Bovespa - e as ações mais beneficiadas

Em relatório, analistas mostram quais ações estão entre os melhores calls para o novo cenário de taxa de juros no Brasil

Investidor Feliz
(Shutterstock)

SÃO PAULO - O mercado vê como bastante provável uma queda dos juros, já que ao mesmo tempo em que a inflação ensaia os primeiros passos de uma desaceleração, a economia do País continua patinando, e mostra que precisa de estímulos. Em vista disso, o Relatório Focus do Banco Central, que compila expectativas de diversas instituições financeiras para os principais indicadores econômicos, já mostra que os economistas esperam uma Selic saindo dos 14,25% atuais para 12,88% no fim deste ano e 11,25% até o fim de 2017. Para o investidor, interessa muito neste cenário saber como as suas ações serão afetadas.

Uma forma de entender este impacto aparece em relatório elaborado pela equipe de análise do BTG Pactual elaborou um relatório no qual lista cinco tipos de empresa que serão afetados por um corte na taxa de juros. E segundo os analistas Carlos Sequeira e Bernardo Teixeira, devemos ficar de olho em: empresas alavancadas (principalmente se a dívida for atrelada ao CDI), varejistas, imobiliárias, concessionárias, empresas de perfil defensivo e em boas pagadoras de dividendos. 

Minha dívida agradece
Com relação à dívida, vale lembrar que as empresas que estão endividadas em moeda local (e não dólar), como qualquer cidadão comum, precisam pagar uma taxa de juros. E em geral, esta taxa que as companhias pagam é o CDI (Certificado de Depósito Interbancário), que por seguir de perto a Selic, cai sempre que o BC decide reduzir os juros. Com isso, as empresas muito endividadas reduzem substancialmente os seus gastos com o pagamento da dívida quando a nossa taxa básica cai.

Sob a lógica do acionista, que deseja sempre ver a companhia na qual investe lucrar mais e de maneira mais sustentável, basta lembrar que a despesa financeira é uma das últimas linhas do balanço antes do lucro. Ou seja, caindo a dívida, melhora o resultado da firma e ela pode distribuir mais dividendos. 

O BTG, partindo deste princípio, realizou um teste de sensibilidade mostrando qual seria o impacto de um corte de 100 pontos-base, ou 1 ponto percentual, na Selic no lucro projetado para 2017 de cada empresa. A CSN (CSNA3), por exemplo, ganharia muito em um cenário de redução da Selic. O lucro da siderúrgica saltaria impressionantes 152% para cada redução de um ponto percentual na taxa básica de juros. Mas é sempre importante fazer a ressalva de que esse cenário só existe porque a CSN está com um nível extremamente alto de alavancagem, de 8,3 vezes o múltiplo dívida líquida sobre o Ebitda (Lucro antes de Juros, Impostos, Depreciações e Amortizações, na sigla em inglês). Ou seja, o potencial de valorização é grande, mas apenas porque o risco dela também é bastante alto. 

Fazendo o mesmo testo de sensibilidade, subiria 75% o lucro da incorporadora Helbor (HBOR3), 24% o da distribuidora de energia Light (LIGT3), 15% o da varejista Restoque (LLIS3), 13% o da incorporadora Gafisa (GFSA3), 12% da transmissora de energia Alupar (ALUP11), 10% das administradoras de shopping center Aliansce (ALSC3) e BR Malls (BRML3), 9% da Iochpe Maxion (MYPK3), entre outros. 

Veja as 10 ações que mais sobem com um corte de 100 pontos-base na Selic de acordo com o teste de sensibilidade do BTG: 

Empresa Ticker Impacto no lucro com queda
de 1 p.p. da Selic
CSN CSNA3 +152%
Helbor HBOR3 +75%
Light LIGT3 +24%
Restoque LLIS3 +15%
Gafisa GFSA3 +13%
Alupar ALUP11 +12%
Aliansce ALSC3 +10%
BR Malls BRML3 +10%
Iochpe-Maxion MYPK3 +9%
Energias do Brasil ENBR3 +6%

Fonte: BTG Pactual

Por outro lado, empresas que tem muito caixa teriam o seu lucro impactado negativamente, uma vez que elas aplicam este dinheiro, principalmente em renda fixa, e são remuneradas justamente pelo CDI. 

Veja as 10 ações que mais caem com um corte de 100 pontos-base na Selic de acordo com o teste de sensibilidade do BTG:

Empresa Ticker Impacto no lucro com queda
de 1 p.p. da Selic
Via Varejo VVAR11 -6%
Eztec EZTC3 -5%
Marcopolo POMO4 -5%
Porto Seguro PSSA3 -5%
Sul América SULA3 -5%
Pão de Açúcar PCAR4 -5%
Klabin KLBN11 -3%
Tupy TUPY3 -3%
Lopes LPSB3 -3%
Brasil Brokers BBRK3 -2%

Fonte: BTG Pactual

Varejo, imóveis e concessionárias
Já as varejistas se beneficiam por motivos ainda mais simples. Com a queda dos juros, as famílias consomem mais, o que obviamente aumenta a receita destas companhias. "Em geral, níveis mais baixos de taxa de juros sempre são positivos para empresas de consumo, especialmente aquelas que vendem muito a prazo como Magazine Luiza (MGLU3), Via Varejo (VVAR11), Marisa (AMAR3) e Lojas Renner (LREN3)", diz o relatório. 

Os analistas explicam também que as imobiliárias para consumidores de médio a alto padrão - casos de Cyrela (CYRE3) e Eztec (EZTC3) - também ganham, apesar da baixa demanda no setor atualmente.

Sobre as imobiliárias, é importante ressaltar que a relação da Selic com a queda nos juros do financiamento imobiliário não é tão simples assim como ocorre nos outros países. Isso porque o financiamento imobiliário brasileiro vem de veículos como o FGTS (Fundo de Garantia por Trabalho e Serviço) e a poupança, que não possuem lastro na Selic, mas sim na TR (Taxa Referencial).

No entanto, quedas da Selic impactam sim essas empresas em primeiro lugar porque geralmente denotam uma melhora no ambiente inflacionário, e em segundo porque o investidor estrangeiro acaba se comportando como se a composição da taxa de juros para os imóveis fosse como no seu país de origem, comprando ou vendendo de acordo com a trajetória da taxa de juros básica. 

Ainda há o caso das concessionárias, que possuem fluxos de caixa previsíveis por trabalharem com grandes projetos com valuations próprios. Então, sendo a TIR (Taxa Interna de Retorno) de um projeto conhecida, a atratividade desses papéis é muito determinada pela diferença entre a Selic, que é a nossa taxa livre de risco, e essa TIR. Quanto menor a taxa de juros, portanto, maior a atratividade das ações de empresas como CCR (CCRO3) e Ecorodovias (ECOR3).

Há também aquelas empresas que distribuem dividendos crescentes e bastante previsíveis, como é o caso da locadora de carros Localiza (RENT3), que ganha bastante com o corte de juros porque a rentabilidade de títulos de renda fixa, principalmente os posfixados, cai em atratividade em relação ao mercado acionário, trazendo mais capital para as ações que pagam bons dividendos e têm perfil mais defensivo. 

Em outro setor, o das empresas que operam shoppings, de acordo com outro teste de sensibilidade do BTG, para cada redução de 1 ponto percentual da Selic, Aliansce (ALSC3) e BR Malls (BRML3) ganham 10% de FFO (Funds From Operations). Explicando isso, o analista da consultoria independente WhatsCall, Flávio Conde, diz que como elas têm um fluxo de recebíveis ligado à taxa pré de longo prazo, em um momento de queda da Selic, receber em taxa prefixada e pagar em posfixada é uma boa forma de lucrar.

Dividendo é sempre bom
Entre as ações que pagam bons dividendos, é de se esperar que muitas ganhem atratividade pelo dividend yield (dividendo por ação dividido pelo preço por ação), já que dependendo de quanto elas pagarem e de qual magnitude for o corte da Selic, o investidor que comprar algum papel do setor pode ganhar bem mais em uma distribuição de proventos do que receberia de juros comprando títulos de renda fixa. Vale sempre lembrar, contudo, que o risco da renda fixa é menor que o das ações, então é preciso sempre ter cuidado ao fazer esse tipo de comparação.

Neste quesito, o BTG lembra de companhias de transmissão de energia como Taesa (TAEE11) e Transmissão Paulista (TRPL4), geradoras como AES Tietê (TIET11) e Energias do Brasil (ENBR3), assim como empresas do setor financeiro tais quais Banrisul (BRSR5), Par Corretora (PARC3), Banco ABC (ABCB4), Santander (SANB11) e Banco Pine (PINE4), além de imobiliárias, a exemplo de Direcional (DIRR3), MRV (MRVE3), Eztec e outras menos lembradas como a administradora de planos de saúde Qualicorp e a gestora de programas de fidelidade Multiplus (MPLU3). 

Os 10 melhores pagadores de dividendos: 

Companhia Ticker Dividend yield em 2016
(expectativa) 
FCF yield 2016
(expectativa)
 
Taesa TAEE11 15,1% 17,1%
Transmissão Paulista TRPL4 10,5% 14,1%
Qualicorp QUAL3 9,7% 9,0%
AES Tietê TIET11 9,7% 9,1%
Alupar ALUP11 9,3% 9,1%
Direcional DIRR3 9,0% 19,1%
Banrisul BRSR6 8,4% n.m.
Multiplus MPLU3 8,3% 7,5%
Par Corretora PARC3 7,7% 7,4%
Energias do Brasil ENBR3 7,6% 9,2%

*FCF: Free Cash Flow ou Fluxo de Caixa Livre

**Fonte: BTG Pactual

BM&FBovespa
E por que não lembrar da BM&FBovespa (BVMF3)? Se a renda fixa vai perder atratividade porque os juros ficarão menores, então mais gente irá migrar para ações da Bolsa. E que maneira melhor de capturar esse movimento do que investir na própria Bovespa? Segundo apontam os analistas do BTG, ao mesmo tempo em que os ativos sob gestão de fundos mútuos brasileiros cresceram desde 2010 (em média 7,7% por ano), o percentual desses ativos alocados em ações despencou de 18,3% seis anos atrás para 8,9% hoje. 

Em dinheiro, isso representa uma queda de R$ 109 bilhões no capital alocado. "Se assumirmos que as ações voltarão a representar aproximadamente 12% dos ativos sob gestão por fundos mútuos brasileiros (níveis de 2014, que já são considerados muito baixos), a entrada de fluxo poderia chegar a R$ 90 bilhões, o equivalente ao volume médio de 15 pregões da Bovespa", avalia o research. 

Esse aumento de fluxo para ações seria ótimo para a BM&FBovespa, uma vez que, de acordo com outro teste de sensibilidade do BTG, o preço-alvo da ação da Bolsa sobe 5% para cada R$ 1 bilhão a mais de volume negociado na Bovespa. Mais do que isso, com um aumento de R$ 500 milhões em negociação em mercados futuros da BM&F, o salto no preço-alvo, atualmente em R$ 20,00 (upside de 23,92% em relação ao preço atual da ação), seria de 10. 

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Thiago Salomão

Editor-chefe do InfoMoney, analista CNPI-P (Fundamentalista e Técnico), criador e analista responsável pela Carteira Recomendada InfoMoney e professor do curso "Como Montar uma Carteira de Ações Vencedora". Formado em Administração de Empresas pelo Mackenzie, com MBA em Mercados Financeiros pela Fipecafi e pela UBS/BM&FBovespa.

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