Por Lara Rizério Em bancodobrasil  16 fev, 2017 16h25 - Atualizada em 18h59

Temer invoca "fantasmas do governo Dilma" e cobra BB: mas por que a ação fechou com forte alta?

De acordo com analista, fala do presidente da República não é sinal de intervencionismo na atual gestão do banco, que segue focada em rentabilidade

Por Lara Rizério Em bancodobrasil  16 fev, 2017 18h59

SÃO PAULO - Após abrirem em queda, as ações do Banco do Brasil (BBAS3) sofreram uma reviravolta, fechando esta quinta-feira (16) com uma disparada de 3,23%. O balanço, que registrou lucro R$ 8 bilhões em 2016, foi visto como negativo pelo mercado; contudo, as perspectivas mais positivas para 2017 guiaram a virada dos papéis da instituição financeira, assim como o foco da gestão do banco em uma maior rentabilidade, e não mais em participação de mercado. (confira a análise completa clicando aqui). 

Desta forma, muitos analistas destacaram que a instituição financeira parece ter deixado para trás os anos de intervencionismo estatal e que passará a focar em se aproximar mais de seus pares privados. Isso contrasta com as medidas tomadas pelo então governo Dilma Rousseff em 2012, que realizou a redução de taxa de juros de diversas linhas de financiamento através do BB, impactando o resultado do banco. 

Em meio a esse cenário, a fala do presidente Michel Temer nesta quinta-feira, logo após a divulgação do balanço do BB, foi vista com um certo "estranhamento". O presidente citou o lucro de R$ 8 bilhões do banco no ano passado para pedir mais crédito ao País . "Recebi hoje uma noticia que ano passado, sem embargo das dificuldades econômicas, o Banco do Brasil teve um lucro de 8 bilhões de reais. O Banco do Brasil é um banco vocacionado para o crédito, portanto, na medida que ele tem essa possibilidade evidentemente que há, e vamos cobrar, o aumento do crédito no país", afirmou.

Ele citou o lucro do BB como uma demonstração de que há espaço para mais crédito, mas não mencionou, no entanto, que o resultado foi 44% inferior ao de 2015. Além disso, o BB  previu alta de apenas 1% a 4% da carteira de crédito no Brasil, após queda de 8,4% no ano passado. 

A fala de Temer poderia ser interpretada como uma volta dos "fantasmas do passado", em meio a um sinal de que o governo poderia voltar a usar o banco para expandir o crédito de forma a estimular a economia, um dos motivos para o BB ter registrado um desempenho bastante abaixo dos seus pares privados nos últimos anos.

Reação diversa
Contudo, isso não aconteceu: a ação BBAS3 seguiu em alta, fechando o dia como uma das maiores altas do Ibovespa. Desta forma, por que o mercado não reagiu à fala de Temer?

De acordo com o analista da XP Investimentos, Marco Saravalle, o mercado está dando grande peso ao guidance do Banco do Brasil, que mostrou perspectivas positivas de crescimento, além da fala do presidente da instituição, Paulo Caffarelli. O CEO do banco afirmou em conferência na manhã de hoje que a  rentabilidade virá primeiro do que a participação de mercado, como parte dos esforços de reduzir o intervalo de ROE (retorno sobre o patrimônio) em relação aos seus concorrentes do setor privado, Caffarelli disse que as receitas com juros do banco de controle estatal devem crescer mais rápido do que a média de seus rivais neste ano.

Além disso, Saravalle aponta que o mercado não está tendo preocupação sobre um eventual intervencionismo do governo em relação ao BB para impulsionar o crédito e estimular a economia. 

"O governo está sinalizando que há uma preocupação com a atividade econômica e os bancos podem ser uma das alternativas. Porém, nada que se remeta ao intervencionismo do último governo, uma vez que o BB segue focado em rentabilidade. Não há nenhuma indicação de intervencionismo, pelo menos por ora", destaca o analista. 

Temer ainda destacou que, tendo aumentado os lucros, o BB tem melhores condições de ampliar seus financiamentos, o que ajudaria o país a concluir obras inacabadas. "Tínhamos várias obras inacabadas. Quando cheguei aqui me surpreendi, porque eram obras que muitas vezes demandavam aplicações e recursos entre R$ 1 milhão e R$ 10 milhões. São creches, UPAs [unidades de pronto-atendimento] e obras de pequena repercussão, mas que nos municípios pequenos têm repercussão extraordinária”, afirmou o presidente. 

Saravalle aponta que tanto o setor de infraestrutura quanto o de construção civil, foco do discurso de Temer, são fortes geradores de emprego, Ou seja, por conta disso mereceu a atenção do presidente em seu discurso. "A sinalização é de que, sendo necessário o financiamento, não faltará crédito, mas não só vindo do BB". Porém, isso não significa que haverá um intervencionismo de forma a baratear o crédito e colocar a rentabilidade da estatal para baixo. 

"Não estamos vendo ameaça de intervencionismo para o BB, mesma situação da Petrobras e diversas outras empresas públicas", afirma o analista, destacando que a independência das instituições estatais está sendo bastante exemplar, com a petroleira sendo talvez o melhor exemplo disso.

Assim, dessa vez, após dois sustos na sessão de hoje, o mercado pode respirar aliviado. Agora, o mercado deve acompanhar atentamente os próximos passos da empresa para confirmar se a rentabilidade voltará - ou se ficará apenas na promessa. 

Michel Temer
(Lula Marques/ Agência PT)

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